UM CAFÉ NA INTERNET – Perversão III – por Manuela Degerine

 Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Quando esgotámos as cogitações, o meu colega agradeceu o aviso, ficaria alerta no futuro, comunicar-me-ia as novidades, caso surgisse mais alguma. Eu arrumei o envelope na pasta e quase me esqueci do evento durante o fim-de-semana. No entanto, quando voltei ao liceu, ocorreu-me que, durante um tempo incerto, sem dúvida longo, vários colegas se tinham divertido à minha custa porquanto, por viver em França havia pouco tempo, não me habituara aos jogos de palavras, as “contrepèteries”, desporto gaulês que consiste em dizer algo, ajustado à situação pois, se trocarmos vários sons, produz uma frase no mínimo atrevida e com frequência obscena. Não obstante a inocência, acabei por notar que, quando me baixava para retirar algo do cacifo, situado na fila inferior, ouvia a mesma frase:

 

 – Ah, quel beau métier : profésseur! (Ah, que bela profissão: professor!) Eu interpretara a exclamação umas vezes à letra, outras com ironia, cheguei a colaborar, há outras mais feias, em dias de saturação, há outras mais fáceis, seguia-se tal hilaridade que, mesmo na minha candura, acabei por desconfiar. Feitas as trocas, a frase dava:

 

– Ah, quel beau féssier : prometteur! (Ah, que belo traseiro: prometedor!) Não se tratava de assédio, de maneira nenhuma, apenas do júbilo, quase só linguístico, de conseguir assentar, no contexto ideal, um bom trocadilho. No resto do tempo eu conversava com os mesmos colegas, quase todos amigos, de teatro, cinema, literatura – e em nenhuma circunstância eles haviam manifestado outras intenções. Comecei todavia a vigiá-los.

 

Também me recordei dos quatro colegas solteirões ou recém-divorciados que, de uma e outra maneira, numa e noutra ocasião, me haviam comunicado esta mensagem não verbal: gostariam de me conhecer melhor. Eu não estava interessada, eles não haviam insistido. Seria algum o verdadeiro remetente? Enlouquecera? Mas por que não enviara a mensagem com o próprio nome? Discretamente procurei cada um, conversámos disto ou daquilo, abandonei de vez a suspeita: pareciam homens sãos e equilibrados, um pouco solitários, sim, mas solidão não é perversão.

 

(Continua)

 

 

 

 

Ilustração: The Fireside Angel, Max Ernst, 1937

 

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