A crise financeira e o poder local – I. Por Júlio Marques Mota

Sobre uns textos em que se analisa a crise financeira e o poder local, onde se fala sobre a ignorância do meu amigo João Machado:

 

O meu amigo João Machado   de produtos financeiros derivados nada percebe ou então, se percebe, percebe apenas que foram um dos instrumentos fundamentais  de onde derivou a dinâmica da crise actual , mas não confundir instrumentos , os meios, com os fins, os resultados, não os confundir também com as causas que permitiram esses fins, confusão esta que  anda por aí muita gente a fazer.

 

Não,  o meu amigo João Machado de alta finança nada percebe. Filho nascido num país católico cedo lhe ensinaram possivelmente o milagre dos pães e se já dessa imagem se esqueceu, não sei eu. O que sei  é que há muita gente que essa imagem na retina mantém e por   isso  aqui lhe lembro o caso do BPN, em que pelos vistos até o nosso Presidente da República essa imagem conserva, a imagem de que houve  o milagre dos pães que no mundo da alta finança significa que os lucros não se geram nas fábricas, nos campos, nas indústrias, nos serviços que prestam de facto serviços, não, os lucros ganham-se na circulação de produtos  financeiros numa enorme cadeia de transformação, onde ponto a ponto dessa cadeia vão deixando as mais-valias que depois o sistema também garante que não são tributáveis.  Para assim se alimentar mais essa cadeia, para que haja mais apetite por ela, para que aumente a procura de títulos, para que estes subam, e a subida significa agora, pelo tal milagre da  multiplicação, aumento de valor, aumento  de lucros na circulação, o sistema político a que ele preside toma como  garantida  as isenções fiscais.


Mas o João incrédulo vira-se para mim e dispara: o que é isso de lucros na circulação. Aqui me lembrei dos meus tempos de   estudante  dos anos setenta e de um livro de que nesses anos li escrito por homem que foi conselheiro económico de Lumumba. Aí se descrevia uma pequena história. Numa pequena cidade  africana, num dada rua havia duas boutiques, uma em frente da outra. Um dia,  o dono  de uma loja comprou a um artesão de uma aldeia longínqua, um colar. Um dólar foi o preço  pago. Mostrou-o ao seu concorrente que encantado de o poder eventualmente oferecer depois à mulher como prenda de anos lhe ofereceu dois dólares. Preço oferecido, colar conseguido.


À noite o primeiro titular contou a história à mulher que vendeu o colar por dois dólares ao vizinho e o comentário e  a ordem dada foram: homem, foste burro, se te deu dois dólares, é porque valia mais. Vais já amanhã voltar a comprá-lo. Assim se fez. No dia seguinte dirigiu-se à loja do vizinho e diz-lhe que    a mulher dele se zangou com ele pois gostaria de ter o colar. Dava-lhe três dólares. De novo, preço oferecido, colar garantido.


À noite, este vendedor da nossa história contou à mulher o que se passou, que vendeu ao vizinho um colar por três dólares que este antes lhe tinha vendido por dois dólares . O comentário foi idêntico. Se te deu três é porque vale mais.  Vai já amanhã voltar a comprá-lo. E assim foi.


A historia repete-se dia a dia, e dia a dia o colar sobe sempre um dólar na sua transacção. Como se vê, na circulação, deslocando-se entre dois pontos, entre dois utilizadores, a mesma coisa vai aumentando de valor, um dólar por cada venda e subia-se assim de valor como  a finança actualmente, pura e simplesmente circulando! É assim que pensam pessoas como o actual Presidente da República, é assim que este  embolsou as mais-valias com o BPN, mais valias que todos nós, sem distinção de pobreza, haveremos de pagar.   Até onde a subida do colar da nossa história? Até que passou por lá alguém que pensou ainda ganhar mais e ofereceu   30 dólares acima do  preço do dia anterior, que já ia em 25 dólares. Este comprador fora do mercado local tinha outro critério de avaliação diferente e trinta dólares a mais oferece. Muito dinheiro para a localidade e com ele quem o vendeu a preço tão alto se inebriou e tudo gastou. Depois de ter vendido o  colar chegou o outro vendedor, o que lho vendeu na véspera para voltar a comprá-lo por 26 dólares.  E o nosso vendedor do colar por mais 30 dólares acima encantado disse: vendi-o a um papalvo que por aqui passou. Oh, colega, como é possível, como é possível que tenhas vendido o nosso ganha-pão. Já reparaste que ganhávamos um dólar por dia? 


João,  é isto os ganhos na circulação financeira, e do papalvo que trinta dólares a mais deu, desse, a história nada nos conta mas consta-se por aqueles locais que também tudo perdeu  porque,  afinal, o colar mais do que um dólar também  não valia. Foi engolido na sua euforia financeira.


Mas esta história não poderia ter  ela um outro final, mais adequado aos tempos que nos esmagam, mais de acordo com as nuvens negras que não nos saiem do horizonte, perguntou ainda incrédulo o nosso amigo João de uma terra qualquer deste país nascido?


Acho que sim, respondi. Imagina que falamos de muitos milhões de dólares em colares aplicados. O especulador que os comprou não seria então um papalvo. Comprou, segurou os colares, segurou o valor do colar em 100 dólares,  titularizou-os transformou-os  em títulos assentes ainda  numa perspectiva  de maior subida, vendeu os títulos pelo montante  de  25+30+45 de lucros = 100 dólares, através de um banco que recebeu de comissões, 10 dólares. O banco aí aplicou as poupanças dos seus clientes e quando tudo estoirou, no valor de 110 dólares, no banco não havia um centavo, nos clientes não havia um dólar de poupança, a seguradora pagou ao suposto papalvo o seguro do valor do colar  de 100 dólares contra a entrega do colar de um dólar  e este suposto papalvo voltou assim a ganhar. Mark-to-market, avaliação ao valor dos tempos que correm, dos valores que a bolsa em cada momento determina,  valia 110 dólares ontem passou a valer 1 dólar, hoje. Ninguém se enganou, ninguém traficou, tudo se reavaliou! Foi apenas isso e disso o nosso Presidente da Républica entende, do mundo idílico em que nada de mal acontece, porque nada de mal aqui houve, como num campo em que  as vacas andam a pastar, maldade aí não existe. Tratou-se apenas de uma questão de reavaliação dos activos, neste caso do  colar, dirão as gentes do nosso Presidente ou ele-mesmo, até. Mas assim, o  buraco ficou, as poupanças de quem aí as depositou, essa, a golpada assim as dissipou.  Um buraco, um buracão visto à escala nacional, que os homens do Presidente agora querem branquear, ignorar, melhor dizendo, como o disse Nogueira Leite na televisão face ao meu amigo João Cravinho.  Esta minha leitura sobre o BPN ao Presidente da República aqui explicada, a este é então dedicada.


Mas hoje sabe-se que no caso do BPN   o aumento da circulação significava um buraco, um buracão, em valor será tão grande como o da Madeira talvez, hoje sabe-se que esse dinheiro por muitos recebido,  do bolso de cada um dos nós vai ser subtraído e, mais ainda, sabemos também que no corpo de cada criança com o frio do inverno neste inferno de país  vai também ser sentido. Não é o que diz o nosso primeiro ministro quando diz face à falta de aquecimento para as crianças do meu país , do nosso país, que  a crise é para ser paga por  todos?


O meu amigo João Machado é  um dos muitos que há  neste  país a interrogar-se sobre esta deriva no plano ético. Que  pagaram os  accionistas do banco BPN? Que foi  feito do dinheiro desaparecido? Se houve também quem o levantou e o não pagou, como o Bloco de Esquerda hipoteticamente admite, quem são esses artífices do buracão que todos nós iremos preencher? Que pagaram aqueles que teriam a obrigação ética de devolução dos ganhos havidos? Que custos nisto assumiu a SLN ? Essas são muitas das perguntas que pelo ar lhe passaram. E o meu amigo João Machado, quem quer que ele seja neste país entre parênteses rectos fechado, soube um dia que num país em dificuldade, em muita dificuldade mesmo,  havia um Presidente que considerava  que pessoa mais séria que ele não havia. Presidente, vou-lhe escrever, pensou revoltado, vou-lhe escrever com todas essas perguntas a que todos queremos uma resposta. Mão amiga de caneta na  mão até o ar assim atingia, disse-lhe que só valeria a pena escrever-lhe se lhe escrevesse   sobre o sorriso de felicidade das vaquinhas, porque sob este outro tema muito delicado e complexo uma carta antes lhe tinha sido enviada onde se dizia: 


“Senhor Presidente, uma coisa se sabe, uma transacção de títulos efectuada fora de mercado, como tantas se fazem, como se fizeram recentemente com a Goldman Sachs e Facebook, é uma das operações que se fazem todos os dias, se bem que esta última tem na sua peugada a polícia, porque exactamente feita fora da bolsa e dos mecanismos de transparência que esta garante ou é presumível garantir, e já agora ninguém pode levar a mal, sem nenhuma má intenção, que o mais comum dos mortais que todos nós somos entenda que esta transacção é especial pelas suas duas contrapartes envolvidas: a primeira, a entidade compradora pela parte do BPN, está presa e vai ser julgada, a segunda, essa, era o candidato que é agora, de novo, o Presidente de todos os portugueses. Dessa transacção que transparente não pode ser chamada houve mais-valias pagas por um Banco falido, agora nacionalizado, a um seu amigo pessoal, hoje Presidente de todos nós, que as recebeu como mais-valias geradas pelo mercado (qual?) mas em que agora se sabe terem sido menos-valias transformadas em custos que seremos todos nós, os contribuintes portugueses, que as iremos afinal pagar. Não, senhor Presidente, não podemos lamentar que o mais simples dos contribuintes não perceba que estas mesmas mais-valias não possam ser devolvidas ao erário público, ao Banco donde saíram, porque caso contrário, será cada um dos mais simples contribuintes que somos todos nós que as iremos repor, e isto não é, nunca foi, dizer mal de ninguém. Esta é apenas a lógica da realidade imposta a posteriori, é certo, a exigir, uma outra atitude sua, creio, também ela necessariamente a posteriori, depois de conhecida a realidade de agora do BPN, realidade que então desconhecia, como é suposto admitir. É apenas a lógica da moralidade ao longo do tempo.”


E ao  meu amigo João Machado lhe disse que   quanto a este texto, a esta carta,  resposta não havia. Entretanto surge o buraco da Madeira. À procura de alguma luz sobre  esta realidade o que vemos e lemos pelo lado das nossas autoridades   é claramente uma tentativa implícita de branqueamento da questão  ou então de chantagem sobre factos outros já bem passados, quando nos vêm falar agora e por comparação com  o défice no tempo de Guterres!

 

(continua)

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