(Conclusão)
Refiro ainda um outro grande poeta, Miguel Hernández, várias vezes referido por Manuel Simões neste seu trabalho, que é mais um descendente desta geração de 27 do que propriamente um seu membro, embora com ela tenha convivido, criando laços de amizade com muitos deles, tendo nascido cerca de um ano antes de Manuel da Fonseca. Refiro-o por duas razões: a influência que nele teve a segunda leitura da «Casa de Bernarda Alba», de Lorca, para a qual foi convidado, estimulando-o de tal modo que o levou a deixar os autos sacramentais e a voltar-se para os dramas sociais. A Guerra Civil arrasta-o para a luta de armas na mão e para as fileiras do Partido Comunista de Espanha. Após o fim da Guerra Civil, e agora vem a segunda razão, foge para Portugal através de Villanueva del Fresno, onde é preso pela polícia portuguesa e entregue à Guarda Civil. Morre na prisão, considerando eu que foi assassinado, pela falta de assistência, com a conivência da igreja católica de Alicante, de uma forma tão cruel como o assassinato de García Lorca. A morte de Miguel Hernández não teve a mesma repercussão, mas a sua obra merece ser tão conhecida como a do poeta granadino, o que não acontece, particularmente em Portugal.
Mas estamos a fugir ao nosso assunto e por isso peço que me perdoem não ter deixado escapar esta oportunidade para referir, ao menos, a minha indignação.
Mas é nos poetas do Novo Cancioneiro, particularmente em Joaquim Namorado, mas até em Mário Dionísio, que a influência de Lorca se faz sentir. E quase a terminar este capítulo 2, escreve Manuel Simões: «Anote-se, no entanto, que o que em Lorca fora descoberta estética, adesão sentimental, ardente simpatia, é agora (com o neo-realismo) a expressão da consciente aspiração dos povos à sua emancipação. Neste aspecto, há que salientar Manuel da Fonseca, que assimila e transfigura a poesia lorquiana e de quem nos ocuparemos a seguir.»
De facto nos quatro últimos capítulos da sua obra, Manuel Simões vai mostrar como «Manuel da Fonseca (…) talvez seja mesmo o poeta mais de perto aderente não só a uma problemática épica como a uma estética directa ou indirectamente ligada ao autor de Romancero Gitano», como escreve no início do capítulo «3. Manuel da Fonseca e a poesia do desespero». «É a renovação, por exemplo, de formas de poéticas populares, (…) a criação de uma poesia tida como instrumento para transformar o mundo; e, (…), a própria linguagem de Manuel da Fonseca». É de facto com uma linguagem de autenticidade, que o leitor sente como verdade, que Manuel da Fonseca se torna num dos poetas com maior audiência. O mesmo pode afirmar-se para a sua prosa. Eu próprio posso dar disso testemunho. Quase a entrar na idade adulta, jovem convencido de que havia de mudar o mundo, tinha dificuldade em aderir à poesia de Fernando Pessoa e o seu livro «Mensagem» era por mim detestado, só tendo vencido esta dificuldade depois de ler «O Livro do Desassossego». Com a ida para Lisboa no início da década de 60 do século passado, adquiri numa feira do livro a 2.ª edição de «Poemas Completos», da colecção (julgo não errar) Poetas de Hoje, da Portugália Editora, tendo de imediato sido conquistado para a beleza e a clareza desta poesia, uma poesia que vinha ao encontro das minhas preocupações e que me ajudou a tomar consciência, nomeadamente, dos graves problemas sociais que então vivíamos e que parece estarmos a viver de novo em Portugal. Quando mais tarde comecei a ler García Lorca senti a mesma adesão, embora não me tivesse apercebido da possível ligação da linguagem deste com a daquele.
No capítulo «4. A linguagem comum», Manuel Simões desenvolve uma análise exaustiva das palavras-chave utilizadas por um e outro poeta.
Para se ter uma ideia do cuidado havido, cito apenas três exemplos dos muitos referidos por Manuel Simões:
Em Lorca, o termo NOCHE conta 186 ocorrências e, na poesia de Fonseca o termo NOITE conta 54 ocorrências; OJOS E OLHOS conta com 141 e 49 ocorrências; VIENTO e VENTO conta com 113 e 24 ocorrências, respectivamente, demonstrando claramente que as palavras-chave do poeta português «se encontram disseminadas por toda a obra poética de Lorca» (pág. 52 da edição em Itália).
Já no que aos temas se refere, tratados no capítulo 5., Manuel Simões mostra que os dois poetas seguiram caminhos comuns. «A obra do poeta de Granada é percorrida de lés a lés pela força irresistível do sangue, do amor e da morte, o mistério do que se oculta (a noite e as suas sombras), o erotismo agudo, a solidão, outros tantos motivos carregados de poderosos mitos que um certo exotismo lorquiano não faz mais que acentuar.» Ora, servindo-nos ainda do que escreve Manuel Simões: «Não encontramos idêntica obsessão na poesia de Manuel da Fonseca, embora o seu vínculo estreito à terra alentejana lhe confira certa aproximação temática com a poesia de Lorca, o que se explica, (…) pela confluência de motivações. Detectamos então algumas correspondências entre si, (…): a raiz atormentada, o amor e desamor, a luta épica ou o ímpeto da vida, desfeito em Lorca pelo espectáculo da morte ou desilusão.» (pág. 83 da edição em Itália).
Ambos os poetas tratam nas suas obras temas agudos das suas duas regiões – Alentejo e Andaluzia, mas, atenção, isso não faz deles autores regionalistas, como o próprio Manuel da Fonseca teve o cuidado de chamar a atenção numa entrevista à Gazeta Musical e de Todas as Artes (nºs. 109-110, Abril-Maio de 1960), o que levou Mário Dionísio, no citado Prefácio a «Poemas Completos», não querer «limitar (Manuel da Fonseca) a qualquer populismo, a um regionalismo que nunca o tocou e com que o realismo se viu e vê tão frequentemente confundido por quem o ignora, mas, bem pelo contrário, para precisar de que imediato e circunstancial se nutre o que há de mais universal e permanente na sua obra, de que verdade particular e de que tom caracterizadamente local ela parte para atingir esse interesse e esse sentimento dos problemas do seu tempo, a que Fonseca se refere.»
No último capítulo, Simões trata do «Encontro com os romances». Começa por elaborar uma pequena resenha histórica do significado do vocábulo romance desde a época medieval até aos nossos dias, em Espanha e em Portugal, começando por lembrar que «o vocábulo romance designa em princípio a língua vulgar por oposição ao latim, designando ao mesmo tempo uma determinada composição literária escrita em idioma vulgar, em prosa ou em verso, geralmente narrativa e tratando de aventuras fabulosas e complicadas.» (pág.109 da edição em Itália), para terminar com um subcapítulo intitulado «Do romanceiro lorquiano aos romances de Manuel da Fonseca», abordando composições de Lorca (Poema del Cante Jondo, Primeras Canciones, Romancero Gitano, que refiro a título de exemplo) e de Fonseca (Canção de Maltês, Romance do Terceiro-Oficial de Finanças, Coro dos empregados da Câmara, Para um Poema a Florbela, etc.).
Da influência de Lorca em Manuel da Fonseca na escrita de romances, ele próprio o diz, numa entrevista que concedeu em Maio de 1969, como lembra Manuel Simões: «a musicalidade minha é mais do nosso romanceiro, embora me ficasse um pouco a musicalidade de Lorca».
E assim chego ao fim da reflexão a que a obra de Manuel Simões, cuja edição portuguesa hoje se apresenta ao público, me levou.
Levar-me a revisitar Lorca e Manuel da Fonseca e, consequentemente, as ricas literaturas espanhola e portuguesa dos períodos considerados por Manuel Simões para este seu livro, é mais uma dívida minha que fica a seu crédito. A paciência dos presentes em ouvir-me, leva-me a ter de lhes manifestar o meu obrigado.

