DIÁRIO DE BORDO, 28 de Setembro de 2011


 

 

O século XIX conheceu muitas mudanças. A ciência avançou, a técnica trouxe grandes benefícios, a literatura e as artes floresceram. O século XX continuou essas mudanças, com uns violentos acessos de barbárie pelo meio. Mas as mudanças mais importantes foram sem dúvida no campo político. As opiniões dividem-se, claro, neste aspecto. Contudo, aquelas mudanças não seriam possíveis sem as separações de poderes. Mais do que a separação do poder legislativo do executivo, ou do judicial, a mais importante foi a separação do poder religioso e do poder político. Deixou de ser assumido que o poder soberano derivava de Deus. Foi um passo decisivo para o avanço da democracia. Também há quem o discuta. Em várias zonas do globo também a este respeito parece haver retrocesso.

 

Mas hoje em dia perspectiva-se cada vez mais outra luta de poderes. Entre o poder económico e o poder político. Mais exacto será dizer que existe cada vez mais uma sobreposição do primeiro ao segundo. É verdade que há séculos que pensadores destacados (o Manifesto Comunista tem mais de 140 anos) se referem a esta sobreposição. Contudo parece que estamos numa época de agravamento.

 

Em Portugal está-se a abrir o capítulo da reformulação (digamos assim) da organização autárquica. Anuncia-se sob o signo da poupança. De redução da despesa. Fala-se da diminuição do número de freguesias e mesmo de concelhos. De diminuir o número de vereadores nas câmaras municipais.

 

Estas reduções (é só de reduções que se fala) até se justificam em vários casos. Noutros não. Em particular a redução do número de eleitos conduzirá fatalmente a uma redução das forças políticas representadas nos municípios. O domínio dos partidos do chamado bloco central (ou da grande direita, como dizem alguns) será quase total. Os chamados partidos do governo ficarão numa posição de controlo quase absoluto da cena política formal.

 

Alguns procuram justificar esta redução de eleitos alegando que a maioria dos que actualmente lá estão desenvolvem muito pouca actividade. O facto é que os eleitos menos activos pertencem sobretudo aos partidos maioritários, cujo estilo de governação é pouco aberto à participação, a qualquer nível, centralizando o poder nas figuras principais. O afastamento das oposições consolidará o domínio das grandes máquinas partidárias, com os problemas inerentes. O principal será o da ligação ao poder económico.

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