O saudoso tempo do fascismo – (10) – por Hélder Costa

A praxe-II

 

À roda de um garrafão de vinho branco e copos de várias medidas, fomos sujeitos durante horas, a vários

 testes de ingestão vinícola, de humor de carroceiro, e de paciência contra insultos.

 

E foi assim que descobri que havia uma cerimónia de boas vindas ao caloiro chama¬da praxe, coisa que na minha santa ignorância nem sonhava que existia.

 

Enfim, tudo se baseou numa recepção boçal aos caloiros que viriam “das berças”, dessas terras incultas e atrasadas, e por isso necessitariam evidentemente da pro¬tecçâo e pedagogia autoritária dos mais velhos, dos que já tinham saído tempos ames

dessas imundas cavernas, e seriam já então chamados de doutores pela servil,

atenta e obrigada, população de Coimbra.

 

O problema é que, neste e noutros casos, as bestas vinham dos liceus de Lisboa

e de outras cidades e experiências, o que criava um curioso confronto entre os “

doutores” provincianos e os caloiros citadinos (e, o que não era de somenos

nessa época, com larga experiência de viagens por roda a Europa).

 

A festa acabou mal porque o outro caloiro não aguentou a brincadeira, no dia seguinte saiu da República, e passada uma semana, continuando a ser perseguido, transferiu-se para o Porto.

 

(Felizmente fez o seu curso e esre contacto com a praxe acabou por não lhe fazer mossa. Felizmenre, o que poderia não ser o caso).

 

Esta experiência sempre me marcou enquanto estive em Coimbra, e por isso fui sempre um opositor à praxe como prática humilhante.

 

A confusão não é possível entre o jogo, o humor, a alegria, a descoberta do outro e do novo, e as manobras intirnidarórias e limitativas da personalidade de jovens que querem abraçar o futuro e, por isso mesmo, necessitam de afectividade e companheirismo, e nunca de se confrontarem com relacionamentos autoritários e fascisras.

 

Sim, comportamentos fascistas.

 

O que se pode dizer da proibição dos caloiros estarem na rua depois do toque da “cabra” (o sino da Universidade), às 6 da tarde?

 

De terem de fazer serviços a alguns’doutores” para serem protegidos de outros? O que significa a sistemática e programada limitação de liberdade?

 

A intromissão na vida sentirnenta] dos jovens?

 

Que não se confunda isto com outros relacionamentos e práticas que fomentavam o humor e a alegria. Essas também existiam, e espero, conrinuarão a existir, libertando a timidez e imegrando os novos que chegam às Universidades.

 

Os mais acirrados e tenebrosos praxistas não passavam de cobardolas que descarregavam inferioridades e complexos sobre jovens inexperientes e indefesos; e que, curiosamente e não por acaso, também eram os maiores defensores do regime Salazarista, funcionando muitos como bufos e informadores da Pide.

 

Não quero deixar de recordar que havia uma excepção curiosa ao poder omnipotente da “trupe”, assim se chamava o grupo embuçado, armado de colheres de pau e tesouras que rondavam durante a noite vielas e recamos à procura de caloiros e “bichos” (os estudantes de Liceu).

 

O caloiro que fosse apanhado podia desafiar para a pancada o chefe de “trupe”, e se ganhasse ficava livre e, está claro, transformava-se num novo Spartacus defensor dos escravos oprimidos.

 

Várias vezes aconteceu essa “justiça Histórica”, para gáudio não só dos estudantes, mas também do povo de Coimbra, desprezivelmente apelidado de “futricagem” pelos Reis e Senhores da Academia.

 

A luta Contra a praxe nasceu dentro das Repúblicas.

 

Essas casas de estudantes, património e guardiãs das mais antigas tradições Académicas, encetaram através dos Conselhos de Repúblicas a luta contra o regime alazarista, exigindo em telegramas enviados a Salazar e Américo Tomás a libertação de estudantes presos.

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