D. DUARTE (reinou de 1433 a 1438)
Nasce D. Duarte na cidade de Viseu em 1391. Homem de grande cultura e autor de diversos escritos, foi
senhor de uma das melhores bibliotecas do seu tempo e possuía uma cultura notável, como fica demonstrado pelos dois livros de que é autor: O Leal Conselheiro – obra em que revela profundos conhecimentos e a sua admiração pelos autores gregos e latinos – e a Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela, onde se patenteiam os princípios da arte de bem montar a cavalo e de ser bom caçador – exercícios que eram então extremamente apreciados, e serviam de preparação para a guerra.
Nos últimos anos do reinado de D. João I ajuda-o no governo, trata de assuntos de grande interesse para a Nação e, em nome do pai, assina Diplomas Régios. É a sua aprendizagem para rei, sob a orientação directa de quem o pode ensinar perfeitamente. Em 1433 sobe ao trono. É difícil o seu reinado de cinco anos.
No seu breve reinado convocou Cortes por cinco vezes (uma vez por cada ano), o que bem demonstra o cuidado do rei em ouvir os representantes das várias classes, sobre os seus interesses próprios e os problemas da Nação.
Também no seu reinado prosseguiram os Descobrimentos marítimos, que ultrapassaram o Cabo Bojador. Desenvolveu ainda actividade diplomática, fortalecendo as nossas relações políticas e económicas com países estrangeiros.
Em 22 de Setembro de 1428 casou com D. Leonor de Aragão filha de Fernando I, rei de Aragão e da Sicília.
Da união resultaram nove filhos: D. João e D. Filipa, que receberam o nome em honra dos avós, mas que não conseguiram chegar à idade adulta; D. Afonso, o herdeiro; D. Maria e D. Duarte, que também morreram em crianças; D. Fernando, 2. ° duque de Viseu e 1. º de Beja; D. Catarina, que casou com Carlos de Navarra; e D. Joana que foi rainha de Castela pelo casamento com Henrique IV de Castela, consórcio de que nasceu D. Joana, a Beltraneja, para muitos considerada filha dos amores adúlteros de D. Joana com D. Beltrán de la Cueva.
D. Leonor apoiaria seu marido, D. Duarte, em todo o seu reinado, e, aquando da tomada de decisão sobre a continuação da expansão portuguesa no norte de África, manifestou-se a favor desta empresa, intercedendo mesmo junto de D. Duarte para que a expedição a Tânger tivesse lugar.
D. Duarte tinha-a, de facto, como boa conselheira e uma prova da sua afeição por Leonor, reside no facto de lhe dedicar o Leal Conselheiro, num prefácio dirigido “à muito prezada e amada rainha e Senhora”.
D. Duarte exagerou nos seus deveres, a ponto de adoecer. Aliás, a sua saúde nunca foi promissora, e não foi com certeza motivo alheio ao seu curto reinado.
Na véspera da sua subida ao trono, Mestre Guedelha, médico e astrólogo real, aconselhou o adiantamento da investidura de D. Duarte, pois a cerimónia no dia previsto adivinhava ruins presságios para o rei e para o país.
E que maior tristeza do que o desaire de Tânger, onde seu irmão, D. Fernando, veio a perder a vida em martírio. A partir daqui, D. Duarte nunca mais foi o mesmo. O «homem alegre e de gracioso recebimento», «que folgou muito, como os que em seu tempo bem o faziam», (nas palavras do cronista Rui de Pina), tornou-se triste e melancólico. A rainha tinha grande influência sobre D. Duarte, e as intrigas sucediam-se. Este «mau augúrio matrimonial» tinha sido também previsto pelos entendidos, no próprio dia do casamento.
Por causa do grande calor que se fazia sentir, agravado pelas inúmeras tochas que alumiavam a cerimónia, D. Leonor desmaia ao entrar na igreja de Santa Clara de Coimbra, não conseguindo também suportar o peso da magnífica capa que levava.
Entretanto, o rei ia definhando cada vez mais. A escrita era o seu refúgio.
O último ano da vida do rei foi, porém, muito infeliz, pelo desgosto que lhe causou o fracasso do cerco de Tânger e o aprisionamento do infante D. Fernando.
D. Duarte morreu em 1438 deixando então D. Leonor como regente do reino, até D. Afonso V atingir a maioridade. O herdeiro tinha apenas seis anos, e desde logo começaram as batalhas pela regência opondo a mãe D. Leonor e o tio infante D. Pedro.
De acordo com o testamento de D. Duarte, a rainha assumiu a regência, gerando o descontentamento entre o povo e alguns fidalgos afectos aos infantes de Avis. Porém a eminência de uma guerra com Castela adiou o agravamento das tensões políticas e obrigou a rainha a solicitar a colaboração dos infantes na solução dos grandes problemas do reino. Entretanto o descontentamento aumentou quer entre os nobres apoiantes de D. Leonor, quer entre os mesteirais e burgueses apoiantes de D. Pedro. No meio deste clima, a rainha convocou as Cortes que tiveram início em Novembro de 1438, em Torres Novas.
D. Leonor manteve-se como regente até 1440, assinando os actos régios como “a triste rainha”, ano em que foi substituída pelo infante D. Pedro, acabando por ser afastada da corte, e exilando-se então em Espanha.
O rei de Castela renovou, pouco tempo depois, as ameaças de guerra, mas D. Pedro manteve-se firme nas suas determinações, não cedendo às exigências castelhanas. Mostrou-se, porém, disposto a entregar o dote e outras riquezas que a rainha havia deixado em Portugal. Castela resolveu, então, exigir a Portugal uma indemnização em dinheiro para D. Leonor. D. Pedro não respondeu a esta exigência e decidiu interferir na vida política castelhana. Entretanto D. Leonor morreu, em Toledo, em 1445.
Fernão Lopes e Vasco Fernandes de Lucena foram homens do rei D. Duarte.
Fernão Lopes (1380? -1460?)
Sabe-se muito pouco acerca da vida de Fernão Lopes. Terá nascido em Lisboa ou arredores por volta do ano de 1380 e no seio de uma família modesta, camponeses ou artesãos. Ignora-se por que motivo estudou e onde. Mas ainda bem que o fez; caso contrário não teria a oportunidade de dar largas ao seu imenso talento de escritor, investigador, historiador.
No ano de 1408 D. João I nomeou-o Guardador das Escrituras do Tombo, ou seja, responsável por todos os documentos antigos existentes no arquivo histórico do reino, que se chamava Torre do Tombo e funcionava então no Castelo de S. Jorge.
Fernão Lopes mostrou-se tão competente que se manteve em funções até à velhice. Isso não impediu que o rei e os príncipes lhe atribuíssem outros cargos, como Escrivão dos Livros de D. Duarte, Escrivão dos Livros de D. João I, Escrivão de Puridade do Infante D. Fernando. Em data incerta encarregaram-no ainda de escrever as Crónicas dos Reis de Portugal. E ele entregou-se a essa tarefa de alma e coração. Consultou os documentos da Torre do Tombo, livros de memórias e de linhagem, crónicas de autores estrangeiros. Quis também visitar os locais que tinham servido de palco aos acontecimentos mais empolgantes e ouvir o testemunho das pessoas que os presenciaram. Percorreu o país de lés a lés vasculhando bibliotecas de mosteiros, igrejas e cartórios, numa ânsia de encontrar a verdade dos factos para a transmitir, tanto quanto possível, sem desvios nem distorções. Esta atitude era invulgar numa época em que se escrevia sobretudo para agradar às pessoas que encomendavam a obra. A sua prosa é magnífica. Não se pode, no entanto, considerar totalmente imparcial. É óbvio, por exemplo, que assumiu o ódio popular a Leonor Teles.
Fernão Lopes descreve na Crónica de D. João I o trajecto do cortejo e a alegria sentida e vivida pelo povo, que comungou dele e a postura dos noivos na manhã da boda régia.
O noivo tinha presença: era composto e bem ornado de feições. Todavia, importa perguntar agora: e a rainha? Como eram o seu porte e as suas feições? Seria mulher formosa? Teria presença elegante, agradável, apetecível?
É hoje difícil afirmá-lo. Na verdade, ninguém o deve saber ao certo. Em todo o caso, e a crer nos vagos indícios que ficaram, talvez se possa deduzir que D. Filipa não tenha sido mulher elegante, nem formosa.
Fernão Lopes, que nasceu por volta de 1380 e sem dúvida a conheceu pessoalmente, nada nos diz nas suas crónicas a respeito do assunto. Omite, o que não faria sentido se a rainha fosse bela. O conde de Vila-Franca, escritor e historiador diplomático, considerou-a mesmo feia.
Lopes também não deixa lugar a dúvidas a simpatia pelo partido do Mestre de Avis e pelo Condestável.
Os historiadores contemporâneos apontam-lhe alguns exageros, como no caso da Batalha de Aljubarrota. Ao que parece, esqueceu-se de referir as vantagens que o terreno conferia ao exército português, não referiu as armadilhas escavadas por ordem de Nuno Álvares Pereira e terá aumentado um pouco o número de castelhanos e diminuído o número de portugueses para dar mais brilho à vitória. Mas todos concordam que se trata de pormenores. No essencial, Fernão Lopes procurou de facto a verdade e apresentou-a de uma forma que ainda hoje nos encanta.
Foi em 1434 que o rei D. Duarte lhe confiou a tarefa de pôr em crónica os feitos dos antigos reis de Portugal, para o que lhe atribuiu uma tença anual. Assim, foi ele o primeiro cronista-mor do reino. A partir de 1459 deixa de haver referências escritas a Fernão Lopes.
A seguir – Vasco Fernandes de Lucena

