Para os “viajantes” que estiveram presentes na tarde de sábado, dia 25, no lançamento do livro do Manuel Simões “ Garcia Lorca e Manuel da Fonseca. Dois poetas em confronto”: o António Gomes Marques, o Carlos Loures, o João Machado, o Manuel Simões e o Paulo Rato
Devia estar a preparar-me para a semana que se avizinha mas a preguiça é muita. Devaneio e penso na tarde de ontem, com o “Romancero Gitano”, impresso na Argentina em 1968 e que tem aquele cheiro inigualável que nenhum computador pode substituir. Rebusquei também um livrinho do Manuel da Fonseca – “Tempo de Solidão”, que diz no seu final: “Com votos de Boas Festas para os amigos da Editorial Estúdios Cor – Natal de 1969”.

É um livro tristíssimo que apetece contrariar com sentimentos mais positivos. Pensando, precisamente no calor afectivo sentido nessa tarde, nasceu esta
brincadeira, talvez “blasfémia” para alguns, em que misturei os dois Manueis e o Federico.
Poesia, o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
chamas e corações.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
O artífice imerge
as mãos na matéria
avulsa a transformar.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Sem artifício investe
próprio corpo no acto
preciso de plasmar.
Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
nossa barca sem rumo.
“Este é o Prólogo” – Federico García Lorca, in “Poemas Esparsos”
“Antes que Seja Tarde” – Manuel da Fonseca, in “Poemas Dispersos”
“Teoria da composição”- Manuel Simões in “Micromundos”
Porque precisamos de poesia, porque precisamos de amizade, porque precisamos de transformar, com as mãos na matéria e numa barca com rumos.


