Aurora Adormecida 27 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 27

 

 

(continuação)

 

Faziam-se piqueniques com os familiares vindos de Lisboa, com os amigos e com os jesuítas do seminário. Havia em Macieira de Cambra um seminário de Jesuítas, para o qual o marido de Aurora se tornou um grande benfeitor. Todo o trabalho de dentista era feito gratuitamente, não só a padres e irmãos coadjutores, mas também a alunos. Não era religioso, tendo porém com eles essa atenção, sabe-se lá bem porquê. Talvez por­que, sempre atraído pelo saber, os julgava muito cultos.

 

Todos os anos lhes mandava dois cestos de vindima cheios das melhores uvas das suas videiras. Tinha boas ramadas de vinho verde mas quis expe­rimentar fazer uma vinha de cepa com castas do Douro. A terra era bem batida pelo sol e havia muita água. Mesmo assim não resultou. Enxertou-as e fez ramadas. As uvas, apesar de traçadas, eram excelentes e passaram a ser uvas de mesa.

 

Um dia, o reitor do seminário, com a devida cortesia, ofereceu-lhe a oportunidade de receber o seu filho como aluno. Fazia-o por gratidão. Era uma excepção merecida. Afinal ele era o melhor benfeitor do semi­nário, vinha logo em número um no jornal lá editado. Se o filho não quisesse seguir a vocação do sacerdócio, sairia quando assim o entendesse, e poderia continuar os seus estudos onde quisesse.


* Podia até vir a ser um bom dentista como o pai. Não perdia com isso.


O seminário preparava muito bem e o filho lá entrou. Mais tarde ofe­receram à filha aulas de música. Já então não se encontrava lá o irmão.

 

Novamente ousada foi esta inédita excepção permitida pelo reitor. Nunca ali tinham entrado mulheres para além da porta principal. Esta atitude só revelava a grande consideração e admiração que tinham por aquele benfeitor. Menina dos seus catorze anos, lá foi ela aprender o solfejo, para tocar órgão nas missas. A mãe sempre ambicionara educá-la como a pri­ma Laurindinha. O solfejo bem ela aprendeu, era apenas técnica. Chegou ainda a tocar harmónio na capelinha do seminário, mas a brincadeira era superior à vocação musical e por ali ficou. Hoje mal conhece as notas, as de música, claro!

 

O rapaz também não deu conta do recado. Sempre que vinha a casa, de férias, ia à missa só ao Domingo e passava o tempo numa total distracção e desinteresse, rodopiando, irrequieto, o terço em voltas e contravoltas, para arrelia e desgosto da mãe, que via a vocação a esfumar-se. Realmente, cedo chegou ao seminário, através do prior da freguesia, a notícia de que o rapaz não tinha qualquer jeito para padre.

 

* O reitor disse ao pai que tinha muita pena, mas que o teu tio não era feito para padre e a melhor altura para o tirar de lá era agora.

 

° E tu tiveste pena, avó? Assim não precisavas de ir à igreja, tinhas um padre em casa e ias direitinha pró céu.

 

* Sabes que mais, meu garoto de merda, muitas graças a Deus e poucas graças com Deus.

 

Antes, porém, da decisão da saída, o rapaz fugiu, de madrugada, avan­çando a cerca do edifício, e apareceu em casa dos pais, determinado a não pôr lá mais os pés. O seminário ficava no alto de uma colina, donde se via, ao longe, a sua aldeia. Não resistiu à saudade que sempre o invadiu, quando ao sol poente avistava o cabeço do monte, por trás do qual adivi­nhava a sua casa com a família, o seu rio ao fundo, serpenteando por entre juncos e salgueiros, esse rio que lhe correu nas veias desde criança.

 

Solta papagaios ao vento

leva nos pés uma bola

céu e terra em pé de guerra.

O rio corre-lhe nas veias

chama-o no calor da tarde.

Na mente irrequieta

inventa sonhos de menino

e engenhos na calçada.

Oprimido pela ausência

da infância perdida

chora a saudade

em rezas distraídas

de cara mal benzida

e genuflexão a meia haste.

Volta à paz do ventre materno

todo ele é razão e ciência

todo ele é terreno.

Vai para a frente volta atrás

encontros e desencontros

rasgam-lhe o coração

que estuda até ao fundo

desatando o nó

que o prendeu ao mundo.

Esquece tudo.

Esquece o rio.

A alma em que não acredita

toma as cores da fantasia

e com os papagaios ao vento

voa pelos céus da arte.

 

(continua) 

 

Leave a Reply