O saudoso tempo do fascismo – 28 – por Hélder Costa

O benemérito – II

 

A situação estava difícil, e eis senão quando, por absoluto milagre, entrou no recanto do habitual petisco o jovem, dinâmico e cristíanissimo politico que incendiava as audiências com a sua verve enérgica e, diria mesmo, messiânica.

 

– Ainda bem que o senhor chegou, e desataram a contar o drama do Manel “Napoleão”.

 

E um deles até lembrou: – o senhor que é católico, não acha bem a ideia de ajudar a Igreja?

 

E o jovem político disse, com a caracrerística voz carregada de erres que lhe dava um charme especial:

 

 – Acho que não. Acho mesmo um grrande erro. Eu sou católico, mas não sou parrvo, Parra investire na salvação do senhorr Manei, é na saúde.

 

– Na saúde? – Clarro, na saúde. Nunca ouvirrarn falaee nos milagrres mirracullosos? Não foi assim que Jesus Crrisro começou? Levanta-te Lázarro! E o milagrre de Fátima com aquela senhorra a andarr? E a Bíblia a contarr … e a língua dos mudos grritarrá com júbilo Hossana! A forrça da Igrreja está na falta de saúde do pobrre rnorrral!

 

– Pois é, é a nossa falta de conhecimento. Nunca tinhamos pensado nisso, balbuciaram os parceiros de cartas e petiscos.

-Eu compreendo o drama do senhorr Manuel. Mas a saída é fácil. O senhorr trransforma-se em benemérrito. Apoia a saúde. E o memoneto é óptimo, porrque toda a gente se queixa dos hospitais, médico, enferremrirros, e estes queixam-se dos doentes. No meio da confusão, surrge o senhorr Manuel, paga umas ambulâncias, uns aparrelhos de raio X, ligadurras, camas, marrquesas, etc.. e prronto. Pões de parrte alguns lucrros, mas é um bom investimento porrque essa posição crria-lhe prrestígio, consegue que os mais pobrres digam bem de si – não se esqueça que o grrande conselho dos nossos pais e avós foi que não se pode serr pobrre e mal agrradecido -, faz fecharr os olhos sobrre o que se passa nas suas fábrricas e emprresas, o que é que querr mais? Além disso, o senhoirr com cerrteza que tem acções e bons conhecimentos em sociedade farrmacêuticas, laborratórrios médicos, etc. e tudo lhe chega com um prreço mais em conta. É aprroveitarr.

 

A parrtirr desse momento, tanto a dirreita como a esquerrda, a Igrreja ou a Maçonarria. a Opus Dei ou a Iurd, o futebol ou o golf, o clube da bisca lambida ou o jet set, todos estarrão consigo e apontá-lo-ão como exemplo de cidadão integrro, honesto sensível e humano.

 

Além disso, o senhorr vai enfileirrarr na galerri dos grrandes benemérritos da nossa Histórria: a rainha Santa ibael que dava pão e rosas aos pobrrezinhos às escondidas do marrido, o Sidóni Pais que inventou a sopa do Sídónio, o prrofessorr Salazarr com a sopinha dos pobrres e as casinhas de trrabalho parra as raparriga infelizes, coitadinhas…

 

Soaram os bravos e os aplausos, o senhor Manuel comovido reiterou o apoio inequívoco à campanha do jovem e promissor político, e ele retirou-se dizendo que tinha de ir pregar a outra freguesis.

 

– É uma grande ideia, sim senhor, disse o senhor Manuel, enxugando as lágrimas de emoção que não tinha conseguido conter, ainda por cima queixam-se lá na fábrica que as condições de trabalho lhes provocam doenças. Com esta ideia de ser benemérito, se dou a doença, também dou a cura.

 

– É o mínimo, oh Manel!

– Venha mais uma rodada para comemorar!

 

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