O saudoso tempo do fascismo – 13 – por Hélder Costa

É curioso, mas a dada altura criou-se a ideia que em Campo de Ourique, belo bairro de Lisboa, havia funcionários clandestinos do PCP e revolucionários esquerdistas em todas as casas e em cada esquina.

 

Realmente tinha havido algumas prisões, e um certo espírito de contestação pairava claramente por ali. Existiam tradições populares nesse bairro, a Universidade Popular na R. Luis Derouet, em algumas esquinas umas placas assinalavam momentos da Revolução Republicana de 5 de Outubro, no jardim da Parada havia a estátua da Maria da Fonte, e depois havia uma malta porreira que andava nas Faculdades a chatear o fascismo, e também alguns operários dispostos a lutar “contra esses cabrões”, como eles diziam na sua infeliz e condenável boçalidade.

 

Depois, aquele ambiente pequeno burguês, calmo, por vezes com um ar de pacata vila ou aldeia provinciana, empurrava para o contacto, falar aos vizinhos, invadir os cafés e os bilhares, fazer rertulias, criar humor, cultivar o descaramento contra autoritarismos, censuras e “bom senso”.

 

E assim se foi juntando uma malta capaz de desafiar este mundo e o outro, como a gente dizia.

 

Esse desafio, nem sempre era, nem era necessário que fosse, obrigatoriamente político a primeiro grau, e ainda menos partidário. 

 

O importante tinha a ver com os comportamentos, a forma de estar e responder perante as várias censuras, começar a amar o risco e aprender a pensar para saber tomar posições.

 

Todo este ambiente de um especial “melting pot” estava espalhado pelas Universidades e pelas tertúlias que cresciam como cogumelos nos cafés e nas Associações. E havia as interrninãveis discussões no Vá vá sobre literatura, pintura e cinema, muito cinema com o Lopes, o António Pedro, o Seixas …

 

Na prática, tentávamos ser verdadeiros jovens, até porque o grande susto era se algum de nós caía naquele quadro dos “jovens com mentalidade e lucidez de 80 anos”! Por ali sempre se pensou que era preferível o velho de 80 anos com menta¬lidade de 20, e, descontando os exageros das idades, conseguimos esplendidos con¬racros entre várias classes com gente muiro mais velha, do que por vezes com os colegas da nossa idade. Deu para perceber que a juventude não escolhe idades, nem rem cronologia fixa.

 

Guardo dessa época uma imagem clara e afectiva de como era possível uma unidade de acção basicamente ideológica e simulraneameme, verdadeiramente plu¬ralisra, respeitando tendências e opções tácticas.

 

Não vou dizer nomes porque respeito a privacidade de cada um, mas as minhas memórias mais gratas consistem nas acções conjuntas, que eu, de opção maoisra, conseguia fazer com camaradas de opções sociais democratas e do partido comunista. Faziam-se coisas ern comum, e que eu saiba, daí não veio nenhum mal ao mundo. A não ser para a Pide.

 

 Um dos pontos de encontro era, até altas horas, o Venezuela Bar. À roda de uns copos, juntavam-se estudantes, pintores, actores, carpinteires, e daquelas conversas de total iconoclastia, saíam grandes decisões para “resolver o mundo”.

 

Como nós dizíamos, “da confusão nasce a luz”.

 

 Além do prazer da tertúlia, também existia o claro plano de fazer desistir os agentes e bufos da Pide que nos vigiavam constantemente. E quando saiamos por volta das 4 ou 5 da manhã desse ambiente acolhedor, sem vivalma à vista, começava outra vida: a clandestina, com várias acções perigosas, ou com protecção e viagens a ajudar camaradas que tinham de fugir à polícia ou ao Exército colonial.

 

É com enorme prazer que verifico que esse pequeno grupo se manteve coerente, sem abandonar os conceitos políticos e a luta pela liberdade, e mantendo as tais diferenças ou matizes, até hoje. É bom sinal, porque agora já não deve haver tempo para mudar de rumo, e não há nada como uma pessoa gostar do seu passado.

1 Comment

  1. Havia uma cooperativa, salvo erro das Padarias. onde se organizavam festas, reuniões, com gente de esquerda. E havia (e há) a Ler, do Luís, onde ao fim da tarde se discutiam temas complicados, e havia a Tentadora, onde parava o António José Saraiva, e o Canas… Campo de Ourique, o velho Quartier Latin , era um mundo. Bela evocação, a do Hélder Costa.

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