O saudoso tempo do fascismo -14 – por Hélder Costa

Conversa de alto nível com um poeta

História sobre dramas, dificuldades e contradições da acção militante e da “postura intelectual.
“Jorge Luís Borges assinou, pela primeira vez, um papel de solidariedade política, aos 80 anos”

(dos jornais)

 

Finalmente, estava diante dele.

Há uma semana que tentava, com telefonemas cautelosos e cuidadosos, ulrrapassar a barreira protectora de secretárias e familiares, até conseguir estar perto deste grande intelectual e escritor.

 

– Também quer ser poeta?
– Acho que não serei capaz, disse, e encolhi-me com um sorriso.
– Sim, ser poeta é difícil, sabe?
– Pois, tenho lido muitas coisas sobre isso.
– E nunca tentou?
– Nunca.
– Nem seguer uns versinhos simples para uma namorada?
– Nem isso … quer dizer, uma vez pensei numa coisa sobre o ciúme, depois tive vergonha de pensarem que era comigo, e nunca mais.

 – E era mesmo consigo?
– Era.
– É pouco audacioso. É preciso ter muita coragem para ser poeta. Temos de desvendar e dar a conhecer os nossos segredos mais íntimos.

 – Tive vergonha.
– Acabe com isso. E depressa. Se não conseguir combater essa inibição tão antiquada, tão … râo reaccionária, nunca será um poeta como deseja.

– Mas eu não sei se quero ser poeta …
– O quê? O que é que veio aqui fazer? Não se veio aconselhar?
– Não … desculpe … eu vim falar com o senhor por causa daquela história das prisões.
– Que prisões’
– Quer dizer, das pessoas que foram presas. A semana passada. O senhor sabe, uns estudantes, também uns operários, fala-se de mais gente lá para o Norte.

– Ouvi falar, sim. Mas, o que é que me quer?
– Era a sua assinatura num protesto que estamos a organizar lá na Faculdade.
– Que atraso em que vocês estão! Com esta ditadura, sem liberdade para nada! As
assinaturas servem para alguma coisa?
– Eu tarnbém acho que não. Mas quase toda a gente disse que sim.
– Você tem razão. Isso não serve para nada. E, por isso, eu não assino.
– Então, talvez esteja interessado noutro tipo de acção mais activa: dar a sua casa
para alguém se refugiar, ajudar em qualquer coisa, sei lá …
– Meu amigo, você é um jovem … ainda não percebe nada do que é a vida … um intelectual como eu, não pode estar comprometido com histórias acidentais e pas¬sageiras que não têm nenhuma importância.
– Mas eu não quero que o senhor tenha qualquer risco só queremos um apoio público, para beneficiar do seu nome.
– Se eu der o meu nome, o que me resta como intelectual e poeta que segue uma reflexão própria?
– Não percebo!
– Claro! Você e os seus amigos não percebem que um verdadeiro poeta não pode  nem deve estar a olhar para o que se passa à sua volta no dia a dia.
– Claro! Vocês só pensam nas coisas primárias, nas minudências que nos cercam. Quanto se ganha no emprego, o preço da carne, o horário de trabalho, se podem ir para ferias ou não, coisas assim, eu conheço a conversa.
– Desculpe, são problemas de que as pessoas falam.
– Eu até posso estar de acordo com isso. Mas acima de tudo está a minha posição de poeta. O poeta tem de estar acima do mundo e dessas coisas materiais. O poeta é um sonhador e um fingidor.
– Desculpe, mas houve sempre poetas que se interessaram pelos problemas que estavam à sua volta.
– Poetas menores.
– Poetas menores?
 – Estou a ver que você não compreende estas coisas.
– Dou-lhe um exemplo: Jorge Luís Borges, o grande poeta e escritor Argentino, só aos 80 anos assinou um papel, comprometendo o seu nome, a defender presos polfticos … porque é que acha. que ele fez isso?
– Porque sempre teve medo de se comprometer, e como está velho, quer ficar com boa imagem quando morrer.
– Não faça análises tão primárias.
– Também deve ter pensado que eles não iriam prender um velho e cego, que se calhar levavam isso para o lado da loucura … sei lá!
– Meu Deus! Você não percebe o que esse homem sofreu, havendo o Hitler, o Mussolini, o Franco, o Salazar, o Lenine, o Staline, enfim, toda essa gente que esteve sempre a tentar virar o mundo para um lado e para outro, e ele sempre ca¬Iado, sem tugir nem mugir, só para ser um grande poeta … para ser alguém que fazia versos, que cultivava o Belo, o Inatingível. alguém que não rinha nada a ver com a vida,
– Não sei se isso é bom.
– Bem, já vi que você não passa de um perigoso anarquista. Quer comparar o valor
da única assinatura do Borges, repate bem, a única e só aos 80 anos, com esses intelectuais corriqueiros, esses Alberti, Brecht, Eisenstein, Eluard, e outros que tais que se perderam em lutas e baralhas inúteis, que banalizaram o próprio nome, em vez de- se dedicarem de corpo inteiro à elevação da sua Arte?
Você é parvo?
 

 

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