Duarte de Almeida – O Decepado (Séc XV)

Alferes-mor de D. Afonso V, conhecido na história pelo cognome do Decepado.
Era filho de Pedro Lourenço de Almeida. D. Afonso V, para sustentar o direito de sua prometida esposa à coroa de Castela, entra no reino de Granada, em 1473, à frente de 20 000 homens. Em Placência desposa D. Joana e toma então o título de rei de Portugal e Castela, passa à cidade de Toro que se tinha declarado a seu favor. Pouco tempo depois, seu filho que depois foi D. João II, o qual tinha organizado outro exército, marcha com ele a reunir-se a seu pai.
Samora seguia o partido de D. Isabel e o rei e seu filho foram pôr-lhe cerco. Apareceu o rei de Aragão com um luzido exército de castelhanos e aragoneses e, nos campos entre Samora e Toro, em 1 de Março de 1476, deu-se a célebre batalha de Toro, entre tropas portuguesas e castelhanas, em que tanto se distinguiu o príncipe D. João, depois o rei D. João II, praticaram-se actos de valentia e heroísmo; entre os guerreiros que se tornaram notáveis, conta-se Gonçalo Pires e Duarte de Almeida, o alferes-mor do rei, a quem estava confiado o estandarte real português. A luta foi enorme; as quatro grandes divisões castelhanas, vendo os seus em perigo, acudiram a auxiliá-los, ao mesmo tempo que o arcebispo de Toledo, o conde de Monsanto, o duque de Guimarães e o conde de Vila Real avançavam em socorro dos portugueses. S
ubjugados pela superioridade do número, os portugueses caíram em desordem, abandonando o pavilhão real. Imediatamente, inúmeras lanças e espadas o cobrem, e todos à disputa pretendem apoderar-se de semelhante troféu. Duarte de Almeida, num supremo esforço, envolto num turbilhão de lanças, empunha de novo a bandeira, e defende-a com heróica bravura. Uma cutilada corta-lhe a mão direita; indiferente à dor, empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua Honra e lealdade; decepam-lhe também a mão esquerda. Duarte de Almeida, desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre. Então os castelhanos o rodearam, e caem às lançadas sobre o heróico alferes-mor, que no final, cai moribundo. Os castelhanos apoderaram-se então da bandeira, mas Gonçalo Pires, conseguiu arrancá-la. Este acto de heroicidade foi admirado até pelos próprios inimigos.
Duarte de Almeida foi conduzido semi-morto para o acampamento castelhano, onde recebeu o primeiro curativo, sendo depois mandado para um Hospital de Castela. No fim de muitos meses, voltou à, pátria, e foi viver para o castelo de Vilarigas, que herdara de seu pai. Havia casado com D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Afonso Valente e de D. Leonor de Azevedo.
Diz-se que Duarte de Almeida morreu na miséria e quase esquecido, apesar da sua valentia e bravura com que se houve na batalha de Toro, que lhe custou ficar inutilizado pela falta das suas mãos. Camilo Castelo Branco, porém, nas Noites de insónia, diz que o Decepado não acabara tão pobre como se dizia, porque além do castelo de Vilarigas, seu pai possuía outro na quinta da Cavalaria, e enquanto ele esteve na guerra, sua mulher havia herdado boa fortuna duma sua tia, chamada D. Inês Gomes de Avelar. D. Afonso V, um ano antes da batalha, estando em Samora, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para ele e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões.
A batalha de Toro entende-se no contexto da luta pelo domínio da península ibérica entre os reinos cristãos e da possibilidade sempre aventada de alguns ou todos se unirem numa única entidade política. Neste contexto, na batalha de Toro defrontam-se na realidade duas visões para a península ibérica, que vão determinar em grande medida o futuro da Europa.
A seguir: Rui de Pina
