UM CAFÉ NA INTERNET – O país kafkiano – por Magalhães dos Santos

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Ainda não li O Processo, do checo germanófono Franz Kafka (1883-1924).

 

Mas estou convencido de que o adjetivo kafkiano foi criado a partir desse romance.

 

“Que, de forma semelhante à obra de Kafka, evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo, especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade (diz-se de situação, obra artística, narração etc.)

 

Trago aqui esta informação porque sinto que estou a viver num ambiente assustadoramente kafkiano.

 

Este governo parece-me composto por monstros, Frankensteins, zombies, terroristas sem causa mas sedentos de sangue, enfim: gente sem quaisquer sentimentos, sem a mínima sensibilidade. Sem, sequer, o que se chama “sentido de Estado”.

 

Têm uma missão a cumprir, sentimo-lo e sabemo-lo, não seria preciso eles alardearem-no tanto, até à náusea.

 

O país tem de ser atualizado, modernizado, limpo de vícios antigos e perniciosos? Tem!

 

Há muito a fazer, muito a cortar, muita inutilidade prejudicial a deitar fora, a substituir? Há!

 

Mas… assim?!

 

Violentamente? Agressivamente? Grosseiramente? Estupidamente? Se o País está doente (e está, o próprio doente o reconhece!), isso são maneiras de tratar um doente?

 

Para corrigir o muito que está errado, é preciso castigar todo um povo que, na sua imensa maioria, não tem culpa do desastre a que o levaram? É de boas práticas médicas, é curativo, é higiénico, é propiciador de boa saúde dizer-se a um doente, bem precisadinho de que o salvem, que “para o ano ainda vai ser pior”? Pregam-se sustos a cardíacos?… Matar o doente cura a doença? É que… só se anunciam cortes, cessação de direitos, fins de subsídios, obrigação de devolver o que se recebeu a mais, não entrega de prémios e estímulos merecidíssimos, abandono de caraterísticas nacionais, dietas entisicadoras! Nestes últimos e badalados cem dias, alguém ouviu uma boa, agradável, entusiasmante notícia? Alguma informação de que isto ou aquilo – por insignificante que seja – vai melhorar? Temos governantes para nos governarem ou temos carcereiros para nos manterem enjaulados? Ou carrascos para nos torturarem? Ou coveiros para nos sepultarem?… Que fácil é! Como exige pouco de quem todo lo manda governar assim! Tirando tudo e nada concedendo! O Povo está extenuado, exausto, exangue! Desanimado, descrente, resignado à miséria… Quantos dos resistentes vão sobreviver para se aquecerem ao sol dos amanhãs que cantam?… Eles, essa gente (se aquilo é gente… eu quero-me gafanhoto, alga, molusco… e com muita honra, só para não pertencer àquela alcateia, para não ser um deles!) conhecem bem as consequências de todos os atentados que estão a cometer contra nós? E, se conhecem, não lhes passa pela cabeça de que lhes possa sair o tiro pela culatra? De que o cadafalso a que querem conduzir-nos pode vir a ser o patíbulo em que sejam o alvo de tudo quanto possa ser-lhes atirado?

 

E toda essa autoritária autoridade de que dispõem – ou ainda dispõem – não poderia ser utilizada para castigar exemplarmente os muitos ratos que, por desonestidade e por culposa incompetência, nos trouxeram a esta miséria em que já vivemos, a extrema miséria a que nos estão a levar, a que já fomos levados?

 

Isto vai ficar assim, neste pântano morto, nesta paz podre? Somos forçados a “concordar” que as medidas da troika são necessárias para que entrem dinheiros que venham tapar os sorvedouros que enriqueceram uns e desgraçaram tantos, tanto, tanto? Medidas tão duras de executar e de suportar? E que dizer de as acrescentarem com outras tão penosas como essas, mais penosas do que essas?

 

Chegou mesmo, a esses cavaleiros do Apocalipse, o momento do “Eh! Fartar, vilanagem!” já que estamos derrubados, indefesos, de rastos, manietados… vá de nos pontapearem, de nos agredirem violentamente, porque a bater é em quem está no chão e não se pode defender? Vai ser mesmo assim?

 

Não há saída?…

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