
O poema «Manhã», de Luís Veiga Leitão, com que encerrava o texto de ontem e o desenho de João Abel Manta com que abro o de hoje, dizem muito sobre o que, no imaginário colectivo, perdura sobre a repressão policial que o Estado Novo exerceu.
Para além das visões artísticas que essa repressão suscitou (e que, apesar de tudo, não são tão abundantes como seria de esperar), houve abordagens diversas, mais objectivas, mais isentas de emoção. Escassas também. Entre o que se tem escrito sobre a polícia política do regime ditatorial – que teve três siglas, PVDE, a PIDE e a DGS – destaca-se o já referido trabalho de Irene Flunser Pimentel – A História da PIDE, publicado em 2007.
Em torno desta polícia foram criadas lendas e contadas histórias rocambolescas, algumas delas atribuindo-lhe uma eficiência que nunca teve. A PIDE foi uma polícia onde afluía principalmente gente boçal e pouco inteligente. Dir-se-á, mas isso acontecia e acontece com todas as polícias políticas – pessoas bem formadas não aceitam tais tarefas. O que quero dizer é que os torcionários animalescos e estúpidos não eram enquadrados por “crânios”” com os que existiam e existiam em estruturas policiais similares. congéneres.
Face aos números encontrados, confirma-se a ideia de que a PIDE não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. Nem sequer como a Brigada Político Social que, durante franquismo, estava encarregue de erradicar o comunismo. Conclusão que não serve de grande consolação aos que foram presos e torturados pela polícia políitica portuguesa.
Pese embora esta relativa brandura, só no campo de concentração do Tarrafal morreram, até 1945, 31 presos confirmados, embora outros cujos nomes não ficaram para a posteridade tenham morrido ou adoecido durante o cativeiro. Alguns eram libertados moribundos e morriam «em liberdade» em suas casas ou nos hospitais, não contando em termos estatísticos para o rol dos assassinados – embora menos letais do que as suas congéneres, as polícias políticas do Estado Novo mataram uns milhares de concidadãos nossos, cujo crime, na maioria dos casos, era o de não estarem de acordo com a política do regime e de, na sua maior parte, estar organizado clandestinamente para distribuir uns jornais ou organizar uma greve.
A luta armada, com a LUAR, as BR e a ARA, só ganhou expressão nos últimos anos da ditadura. Se são do conhecimento geral nomes como o de Humberto Delgado, Dias Coelho, Militão Ribeiro, é preciso não esquecer que houve muitos outros, como o caso do médico António Ferreira Soares, morto a tiro em 4 de Julho de 1942 em frente de uma irmã e de uma criada, do José Moreira que, em 1950, «caiu» do terceiro andar da sede da PIDE, do Raul Alves que em 1957 também «caiu», dos dois presos mortos na delegação do Porto em 1957 – Joaquim Lemos Oliveira e Manuel da Silva Júnior… centenas de nomes.
Oficialmente, as mortes deviam-se a suicídios. a quedas acidentais, a doenças cardíacas, etc. Em todo o caso, a historiadora não nos fornece um número total de vítimas. Não é possível encontrar esse número. Suponhamos que à lista dos assassinados em Portugal, queremos adicionar os que foram mortos nas ex-colónias – portugueses e, sobretudo, africanos? – Tudo se complica.
As mortes não eram convenientes, davam mau aspecto e, se possível, pioravam a reputação da polícia. Embora nunca se dissesse que as pessoas morriam devido ao que lhes faziam – como já vimos, eram geralmente «suicídios», «acidentes» e «doenças súbitas». Quando os familiares tinham acesso aos corpos, não podiam vê-los.
Porque seria?
Egito Gonçalves termina o seu poema Morte no Interrogatório («Os Arquivos do Silêncio»,1963), desta forma dramática e irónica:
Na sala o interrogatório atravessava o tempo;
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável,
Às três da madrugada o coração fraquejou
E os dois comissários ficaram perante um homem morto
E dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros.


O que se andou para aqui chegar … no bom e mau sentido.Resta a resistência.
No fundo, com um cenário diferente, a peça é a mesma . <<<o fascismo tinha mau aspecto, a «democracia» é mais apresentável – Tudo ,mudou para que tudo ficasse na mesma.
Num país de gente com memória curta, é bom saber que há quem não esqueça. Resistir sempre. Ana Militão