Uma história de política e futebol – 2

E não faltaram as inevitáveis manifestações no Rossio, a praça nobre onde a oposição insistia em se reunir e gritar contra pides e Censuras.
Numa dessas manifestações, marcada para as 6 da tarde, muita gente se começou a juntar, deambulando calmamente entre o Pic-nic, a Suiça, o teatro D. Nacional, enfim, por aqui e por ali… o tempo passava, e as coisas não começavam… foi então que um jornalista de figura inconfundível, o nosso Baptista Bastos, perguntou como quem não quer a coisa “então esta merda nunca mais começa?”. Parecia uma palavra de ordem, minutos depois já estava instalado o velho ambiente de correrias e de ingénua mas decidida “guerrilha urbana” de “grita-e-foge”.
E a dada altura surgiu uma ideia “louca”, imediatamente aceite pela direcção da agitação.
Estávamos no período do glorioso Benfica com Eusébio, Coluna e companhia a fazerem estragos por essa Europa. Aproximava-se o jogo com o Real Madrid, e pensámos em fazer uma distribuição de panfletos durante o jogo.
Desenhámos o plano do estádio, distribuímos as equipas por pontos nevrálgicos das bancadas e do terceiro anel, e procedemos a uma complicada engenharia de contactos para garantir que a Pide – mesmo que já tivesse infiltrado o nosso movimento -, não conseguisse sabotar a operação.
Os panfletos foram impressos em diferentes locais, um elemento centralizou o transporte de material para diferentes caixas de bagagens em estações de comboios, outro elemento centralizou as chaves, ainda outro passou a outro, e a rede ia sendo abastecida progressivamente dos indispensáveis panfletos.
Recordando isto, não deixo de reconhecer a inestimável educação clandestina que nos forneciam os filmes sobre mafiosos e a Scotland Yard.
No dia do jogo, surgiu a questão está tudo OK, mas como é que vamos distribuir os papéis? Aquilo está cheio de polícia, somos logo presos!
A saída para este verdadeiro problema, só tinha uma resposta possível:
– Sempre que for golo do Benfica, aproveitamos os gritos e os abraços. Atiramos os panfletos ao ar e mudamos de sítio. No final do jogo, subimos para a última fila do terceiro anel. Atiramos o resto dos panfletos para fora do estádio e preparamo-nos para sir no meio da multidão”.
Éramos jovens e os deuses estavam connosco.
O Eusébio, a alegria do povo, marcou três golos, o Benfica estava em forma e ganhou 5-1 ao Real Madrid. Os panfletos voavam, o público surpreendido lia-os e segredava, e a nossa operação funcionava a cem por cento. Um dos camaradas entusiasmou-se tanto au até atirou panfletos quando o Amancio marcou para o Madrid; houve uns olhares estranhos, mas como estava tudo em festa, o agitador conseguiu desaparecer, gritando sempre “Benfica! Benfica!”.
À saída do estádio, pudemos ver com grande prazer que as pessoas apanhavam os últimos panfletos e os guardavam para ler no remanso do lar… Foi uma bela operação e foi muito agradável assistir à colaboração do futebol numa acção política contra o regime.
Uma pequena nota para se perceber a inconstância dos furiosos da bola. Imgaginem que o Eusébio era o herói do jogo, passava bolas, metia golos, fazia a cabeça em água aos Madrilenos, e a dada altura veio uma bola à entrada da área, e imagine-se, o Eusébio falhou o remate! Pois aquele povo eufórico com as proezas do seu ídolo, desatou a chamar-lhe “preto dum cabrão”, “vai para a tua terra”, coisas assim.
Vá lá perceber-se o vário e difícil género humano!
