OS HOMENS DO REI – 32 – por José Brandão

Diogo Ortis de Vilhegas (Calçadilha) (1457? -1508? )

 

Grande fidalgo castelhano, nasceu cerca de 1457, em Calçadilha, no termo de Salamanca, pelo que em Portugal era também conhecido e designado por D. Diogo Calçadilha. De todos os nobres castelhanos que aos reis de Portugal vieram prestar relevantes serviços, com lealdade exemplar, foi este D. Diogo Ortis um dos mais eminentes. Filho de D. Afonso Ortis de Vilhegas, da velha nobreza de Toledo, e de D. Maria da Silva, era em 1476 já licenciado em cânones, e por ter talvez seu pai, como muitos fidalgos castelhanos, tomado o partido da desditosa princesa D. Joana, a Beltraneja, depois dita a «Excelente Senhora», acompanhou-a como seu confessor a Portugal, onde definitivamente se enraizou então, como que naturalizando-se português, e passando a servir os monarcas D. Afonso V, D. João II e ainda D. Manuel, com a isenção e competência de outro compatriota, seu contemporâneo, de alto mérito, Vasco de Lucena, e, como ele, dos que melhores serviços prestaram a Portugal no tempo dos Descobrimentos.

 

É de crer que, desde logo entusiasmado por essa magna empresa da Nação, então no seu auge, se tivesse absorvido em profundos estudos de cosmografia, geografia, e astronomia náutica, em plena ascensão e eficiência. O facto é que D. João II ao subir ao trono lhe conferiu o priorado do Mosteiro de S. Vicente de Lisboa; e em 1483, passou a ser um dos conselheiros técnicos do Príncipe Perfeito em problemas de cosmografia e ciência náutica, o que deu origem à suposição de se ter constituído oficialmente, com carácter de permanência, uma Junta de Matemáticos ou Cosmógrafos, a que por vezes o próprio D. João II presidia.

 

Ainda mais tarde, quando em 1488, depois de falhadas as tentativas dos viajantes terrestres o rei insistiu em enviar por terra os seus escudeiros Afonso de Paiva e Pêro de Covilhã à Índia e à Etiópia, para conhecimento exacto do fabuloso Reino do Preste João. Em 1491 elevava-o D. João II a bispo de Ceuta e em 1494, como prova de especial consideração, fê-lo seu capelão-mor. Com a ascensão de D. Manuel ao trono, passou em 1496 o novel bispo de Ceuta, D. Diogo Ortis, ao seu serviço como Mestre de Gramática latina do príncipe real, depois D. João III. E tanta confiança continuava a merecer ao novo soberano que era ele sempre o designado para as solenidades religiosas mais significativas dos fastos do reino em descobrimentos ou acções no Ultramar.

 

 

 

Assim, a 8 de Março de 1500, na véspera da partida da grande armada de Pedro Álvares Cabral para a Índia, de que havia de resultar já também o descobrimento oficial das terras de Vera Cruz (Brasil), foi o bispo de Ceuta D. Diogo Ortis quem, perante o rei e a corte, na ermida de Nossa Senhora do Restelo, celebrou a missa de pontifical e pregou o eloquente sermão que havia de solenizar o acontecimento. Finalmente, em 1507, proveu-o D. Manuel no bispado vacante de Viseu, um dos episcopados, como Braga, Lisboa e Évora, dos mais honrosos do reino. Pouco sobreviveu a essa consagração.

 

Depois desses sucessos, nenhumas outras notícias constam do eminente prelado que foi dos poucos espanhóis de grande mérito que em Portugal, ao serviço dos soberanos, tiveram mais assinalada interferência, autoridade e importância, na actividade ultramarina e na empresa magna dos Descobrimentos. Sabendo-se que dedicara trinta e um anos de vida ao serviço da sua pátria de adopção, devia ter falecido entre 1508 e 1509. Como homem do Rei serviu D. Afonso V, D. João II e ainda D. Manuel.

 

A seguir: Abraão Zacuto

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