UM CAFÉ NA INTERNET – Faustino, de Erico Veríssimo – conclusão

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

Relampeja dentro do quarto. Faustino estremece e vê surgir, do meio de uma fumaça de cor indefinível, uma figura esquisita. É Mefistófeles em pessoa, sem tirar nem pôr. Mesmo igualzinho ao que aparece nas óperas e em certas gravuras.

 

O amável recém-vindo acaricia os copos da espada, sorri, torce o bigode fino.

 

─ A que lhe devo a honra da visita? ─ arrisca o poeta.

 

─ Negócios…─ responde o outro, displicente. ─ Lembra-se do dr. Fausto? Pois bem. Você chama-se Faustino. É quase o mesmo. Questão de ino. Não tem importância.

 

─ Mas…

 

─ Vou abreviar o assunto. Ouvi os seus queixumes. Venho, pois, oferecer-lhe a infância…

 

Faustino pula:

 

─ A infância? Com o Viriato, o Pitoco, os seis anos?

 

─ Tudíssimo.

 

─ E eu vendo-lhe a alma, como o velho Fausto?

 

Mefisto sacode a cabeça negativamente.

 

─ Não. Mudei de orientação nos meus negócios. Já hoje não acredito na imortalidade da alma. Aderi ao materialismo. E, de resto, de que me serviria a sua alma?

 

─ Que quer, então?

 

─ Quero que você renuncie à poesia. Que deixe definitivamente de fazer versos.

 

─ Senhor! Isso é uma ofensa, uma indignidade, uma indecência. Não aceito, não aceito!

 

O proprietário dos infernos encolhe os ombros.

 

─ Então… adeusinho! E passe bem!

 

Faustino detém-no, com um gesto.

 

─ Bom, vá lá… Aceito.

 

Mefistófeles pega numa caneta e numa folha de papel e começa a escrever: Contrato que fazem Mefistófeles e o poeta Faustino…

 

─ Que linda caligrafia! O senhor já foi sargento-amanuense?

 

Mefistófeles sorri. Nunca foi sargento-amanuense. Continua a escrever serenamente. Lê, depois, o contrato em voz alta. Faustino elogia a redacção, acha que está tudo bem. Assinam.

 

*

 

É naquele mesmo pátio, com as mesmas árvores, as mesmas crianças. Até o Sol é o mesmo.

 

Faustino tem seis anos. Mas está triste, não brinca, não ri. Que é que tem? Por que é que os brinquedos não o divertem? Que lhe falta? O quê?

 

Viriato corre para o poço, debruça-se na borda e começa a cuspir lá para baixo. Tem o busto suspenso sobre a abertura, numa posição perigosa. Basta um empurrão para precipitá-lo no poço.

 

Faustino observa a travessura do moleque. Uma ideia perversa cruza-lhe a mente. Aproxima-se do moleque, estende os braços frágeis, toca as coxas de Viriato, e empurra-o… O outro, num grito, despenha-se em cambalhotas para o fundo do buraco…

 

Grande balbúrdia. Gritos. Aparece a mãe do moleque. Tutucha, o dono da lojeca. E outros…

 

Faustino deita a correr. Mas fraqueja logo. As pernas pesam-lhe, como se fossem de chumbo. Muita gente persegue-o. Gritam: “Pega! Pega o bandido!” Já sente quase a mão cabeluda do “seu” Tinduca a tocar-lhe na roupa… Vai desmaiar…

 

Neste ponto, surge Mefisto, que o arrebata, ganhando as alturas. Avançam velozes no tempo e no espaço, voam através de anos, até chegarem ao dia e hora exactos em que se firmara o pacto.

 

─ Embusteiro!

 

─ Eu? Porqueê?

 

─ Você prometeu-me a infância toda. Mas deu-me somente a aparência. Não mês restituiu a primitiva ingenuidade. Incapaz de matar uma mosca. E muito mais de jogar o Viriato para dentro do poço. Tratante!

 

Mefisto sorri, superiormente.

 

─ Olhe, eu restituí-lhe a infância. Mas aquela candura dos seis anos, quem lha pode devolver? Nem Deus.

 

─ Oh! É horrível!

 

─ Que quer? Você já viveu, meu caro. Este papel, uma vez dobrado, jamais perde o vinco. Assim é a alma que o veneno da vida maculou. A vida, meu amigo, os beijos das amantes, os vícios, o convívio dos homens, a hipocrisia ─ tudo o contaminou. Adeus! Você está envenenado, poeta. É o veneno da vida, o veneno da vida…

 

Faustino está perfeitamente bestificado. O Diabo conclui:

 

─ Por isso ninguém lhe poderá restituir a pureza ingénua dos primeiros anos. Nem Deus. Nem eu.

 

E fica a dizer compassadamente, isocronicamente: “nem-eu, nem-eu, nem-eu, nem-eu…” Tal como o tique-taque do relógio. Mas… não é mesmo o relógio que faz tique-taque, tique-taque?… Ou será Mefistófeles que diz nem-eu, nem-eu, nem-eu… Sim, são as duas coisas. Ambos os ritmos se confundem. Por fim, fica só o do relógio: tique-taque, tique-taque, tique-taque.

 

Faustino esfrega os olhos. Duas da madrugada.

 

─ Que sonho besta!

 

*

 

Foi essa a razão porque Faustino abandonou a poesia.

Leave a Reply