OS HOMENS DO REI – 33 – por José Brandão

Abraão Zacuto (1455? -1510)

 

 

Nascido, segundo se crê, em Salamanca, por meados do século XV, o seu nome parece ter sido Abra Ben-Samuel Zacuto; e, tendo-se evidenciado de muito moço profundamente aplicado ao estudo da matemática e da astronomia, então chamada astrologia, o bispo de Salamanca convidou-o, por largo espírito de tolerância, a leccionar na famosa Universidade. Pelo seu grande prestígio entre a comunidade hebraica de Espanha foi elevado a rabino.

E, quando em 1478 o fanatismo de Isabel a Católica obteve do Papa a bula que autorizava a instituição dum tribunal da Fé, a Inquisição, em Espanha, para expurgar heresias e forçar judeus e mouros a converterem-se ao Catolicismo, o grande astrónomo judeu, convictamente fiel ao hebraísmo, tratou logo de preparar o seu refúgio em Portugal, onde a sua alta competência científica era sobejamente conhecida, pelo activo intercâmbio universitário de Lisboa e Salamanca.

 

Já então Zacuto se celebrizara pela obra em hebraico «Hagibur Haggadal», elaborada em Salamanca em 1473, e que foi um dos mais notáveis tratados da astronomia na Renascença, com a compilação mais completa de tábuas de declinação dos astros principais. E, como na política de expansão ultramarina de D. João II o magno problema era o da navegação por observação dos astros a norte e sul do Equador, tornava-se preciosa a aquisição do eminente astrónomo para ingressar no Conselho técnico de cosmógrafos, matemáticos, navegadores e cartógrafos que, em problemas de astronomia náutica para navegações no Atlântico, ainda se regulavam por instrumentos náuticos um tanto rudimentares – astrolábios ou balestilhas e tabelas astronómicas incompletas ou eivadas de erros.

 

Não hesitou o Príncipe Perfeito em oferecer a Zacuto o cargo de astrónomo e cosmógrafo régio, largamente remunerado; e, de facto, logo que os Reis Católicos decretaram em Espanha a expulsão em massa dos judeus não-conversos no termo do prazo fixado, o astrónomo abandonou a sua cátedra de Salamanca, refugiando-se com seu filho Samuel em Portugal, onde foi condignamente acolhido pelo monarca. Vinha acamaradar com outros correligionários, seus irmãos de raça e grandes cosmógrafos.

 

Com a colaboração activa do notável professor, mais se valorizava a autoridade e competência do Conselho técnico de D. João II, contribuindo decisivamente para o progresso da cultura portuguesa, no domínio da astronomia náutica, já em Portugal de nível muito superior ao de outros povos marítimos da Europa. Desde l492 Abraão Zacuto serviu solicitamente D. João II até à morte do rei, em 1495, e ainda em vida desse monarca principiou a ser impresso na tipografia hebraica de Leiria, fundada em 1494, o seu «Almanach Perpetuum Celestium motuum». Acabou de se imprimir em princípios de 1496, já no reinado de D. Manuel, que ao seu serviço o conservou, em grande valimento, nos dois primeiros anos do reinado.

 

Todos esses elementos eram indispensáveis à navegação a sul do Equador, e deles vieram a servir-se já Vasco da Gama e Álvares Cabral nas suas viagens célebres de 1498 e 1500. Tão bem aceite, como se disse, por D. Manuel, o astrónomo hebreu largamente beneficiou das garantias concedidas aos judeus no começo do reinado, até que o fanatismo da princesa D. Isabel, filha dos Reis Católicos e noiva de D. Manuel, exigiu que, antes do casamento, os judeus fossem também expulsos de Portugal, o que foi decretado em Dezembro de 1496.

 

No termo do prazo fixado para conversão ou expulsão Zacuto procura novo refúgio, dessa vez no norte de África, em Tunis, para onde embarca antes de 1500. Além de grande astrónomo, foi também historiador dos fastos da sua origem.

 

A seguir: Duarte Galvão

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