O Acordo Ortográfico é “um instrumento para todos se compreenderem” , na opinião de Fernando Cristóvão

Continuamos a publicar opiniões sobre o Acordo Ortográfico – favoráveis, umas, desfavoráveis, outras.

O linguista e professor  Fernando Cristóvão defendeu o Acordo Ortográfico como “um instrumento para todos se compreenderem”, ao intervir  há cerca de dois anos na abertura da Expolíngua, Salão Português de Línguas e Cultura, que decorria em Lisboa. O catedrático, que já foi presidente do Instituto Camões, sublinhou que o acordo ortográfico “valida” a lusofonia, recusando que esta demonstre qualquer ideia de neo-colonialismo cultural.

 

 

 “Ninguém é proprietário único da língua e esta pertence a todos que a falam, introduzindo cada um a sua variante”, argumentou, sustentando que o Acordo “é uma base comum de entendimento gráfico”.

 

Vincando que “ortografia e língua são muito diferentes”, exemplificou, referindo que cada pessoa pronuncia de sua forma, “mesmo que não se entenda, mas o registo escrito todos compreendem”.

 

O linguista, que integrou a comissão que, em 1986, no Rio de Janeiro, redigiu o “Protocolo de Unificação Ortográfica da Língua”, observou que “a variedade” é uma riqueza e a língua foi “a melhor coisa que os portugueses deixaram”, levando-a como “passageiro clandestino” nas naus e caravelas do século XVI quando demandaram diferentes partes do mundo. Referindo-se a aspectos concretos do novo modo de escrever Português, citou Luís António Verney, autor de “O verdadeiro método de estudar”, que já em 1754 defendia o fim das consoantes mudas.

 

“Escreveu ele que `ato` é muito boa palavra e todos a entendem”, lembrou, destacando o facto de Verney ter tomado esta posição quando “ainda não havia literatura brasileira, que só começa em 1750 com António Cândido”. Fernando Cristóvão, que deu à sua comunicação o título de “A passagem da lusitanidade à lusofonia e o problema do Acordo Ortográfico”, disse ainda que o Quinto Império defendido por António Vieira e Fernando Pessoa “é a lusofonia”.

 

Explicou o catedrático que o padre António Vieira defendia “um Quinto Império religioso” e Pessoa “da Cultura”, até que o filósofo Agostinho da Silva questionou esta problemática assinalando não haver imperador, pois “de facto o Quinto Império é a lusofonia”. Referindo-se à difusão do Português entre outros povos, Fernando Cristóvão falou da “alfabetização forçada da FRELIMO, em Moçambique, de modo combater o domínio colonial português, tendo a língua portuguesa sido um factor de coesão”.

 

“Também Amílcar Cabral, na Guiné-Bissau – adiantou -, fez questão de alfabetizar as suas tropas e disse mesmo que a melhor coisa que os portugueses deixaram foi a língua”.

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