Aceitação dos mitos da violência doméstica e variáveis preditoras – III, por Ana Afonso Guerreiro

 

III

As variáveis preditoras da aceitação dos mitos da violência doméstica

 

Vimos que os mitos da violência doméstica são crenças falsas, infelizmente comuns, usadas para minimizar, tolerar, negar ou justificar a existência de violência doméstica (Peters, 2003). Alguns estudos (e.g. Guerreiro, A.A. et al. 2011; Giger et al., 2011) observaram que o sexismo ambivalente, o cavalheirismo paternalista e o amor romântico predizem significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica.

           

Segundo o sexismo ambivalente, quando uma mulher se ajusta e se adapta aos papéis tradicionais de esposa e mãe, merece a veneração e sacrifício do seu homem (Valor-Segura et al., 2008). Esta crença expressa o sexismo benevolente e justifica o sexismo hostil quando a mulher não corresponde ao papel tradicional esperado (Viki et al., 2003). Tal como esta crença, a sociedade está repleta de ideologias que servem de guia e desculpa para o comportamento do indivíduo, legitimando e contribuindo para que homens e mulheres adoptem certos esquemas biológicos e condutas a respeito dos papéis dos géneros (Formiga, 2002). Por outro lado, é possível que as crenças sexistas, hostis e benevolentes, influenciem a sociedade na percepção sobre a violência doméstica (Valor-Segura et al., 2008).


No combate ao sexismo e discriminação de género, surgiu na sociedade uma nova forma de sexismo – o neosexismo ou sexismo moderno (Moya & Expósito, 2001; Tougas et al. 2005; Formiga et al. 2005). Esta nova forma de sexismo manifesta-se de forma subtil, discretamente nas relações íntimas e intergrupais, negando a sua existência e mantendo uma atitude de conformidade positiva (Formiga et al. 2005). Ou seja, os sexistas rejeitam agora que o são. Apesar dos estudos sobre as novas formas de sexismo contarem já com cerca de duas décadas, as investigações têm ainda um caminho longo a percorrer, sendo que têm incidido especialmente no mundo anglo-saxónico (Moya & Expósito, 2001).


Ditado popular: “Entre marido e mulher não se mete a colher”


Se uma cultura é tolerante, nega a sua existência e recorre a ditados populares de não responsabilidade social, é natural que a violência doméstica se mantenha. Só há relativamente pouco tempo, países como Portugal (mais conservadores, laicos há pouco tempo, colectivistas) se interessam cientificamente pelo estudo desta problemática, considerando o fenómeno como de responsabilidade social. Apesar de proibido por lei, o sexismo permanece na sociedade, em todo o mundo, deixando contudo, de se apresentar directamente como discriminação à mulher, mas assumindo formas subtis, designadamente através do sexismo moderno (e.g., Tougas et al., 2005). De acordo com o Artigo 13.º da Constituição Portuguesa «Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei», independentemente do género de cada um. Ao nível internacional, a Carta dos Direitos Fundamentais, consagra a igualdade de mulheres e homens (artigo 23º).


Intimamente ligado ao sexismo ambivalente, o cavalheirismo paternalista, através de atitudes gentis e atenciosas para com as mulheres, como por exemplo, abrir a porta para a mulher passar ou pagar a conta no restaurante, coloca todavia, restrições ao seu comportamento (Viki et al., 2003; Glick & Fiske, 2000), isto é, a mulher deve comportar-se de acordo com os papéis tradicionais esperados, como cuidar da casa e dos filhos e ter sobretudo um papel passivo na relação (Glick et al., 1997).


A verdade é que as mulheres estão sob risco de violência, principalmente por parte dos seus companheiros e a violência doméstica ocorre em todos os grupos socioeconómicos, desde os mais pobres aos mais ricos. Nas relações amorosas, a violência muitas vezes é multifacetada e tende a piorar com o tempo, sendo certo também que na maioria dos casos, os homens violentos não sofrem de doenças mentais. A violência psicológica e emocional é tão prejudicial quanto a física, sendo muitas vezes considerada pior, na experiência das mulheres (Heise, 1994). Considerando as graves implicações que a violência doméstica tem na saúde mental das vítimas, este é um fenómeno que merece todo o nosso empenho na continuação deste combate.

 

              «Enquanto não compreendermos a motivação de um agressor que, durante os períodos de acalmia, continua a dizer-nos que nos ama, será difícil tomar uma decisão esclarecida que afectará o resto da nossa vida.» (Samson, 2010).

 

 

           

 

 

 

 

Leave a Reply