OS HOMENS DO REI – 39 – por José Brandão

Vasco da Gama (1469? -1524)

Nasceu o grande navegador em terra alentejana, Évora ou talvez Sines, de que seu pai foi alcaide-mor. Ignora-se também, por escassearem documentos, o ano exacto do nascimento, em tempo de D. Afonso V, por meados do século XV, entre 1460 e 1470. Procedia duma velha família alentejana, de modesto grau de nobreza, mas que por serviços prestados e várias mercês de monarcas fora ascendendo em grau de fidalguia. Seu avô, também Vasco da Gama, alcaide de Évora, e seu pai, Estêvão da Gama, ainda muito novo, distinguiram-se combatendo sob as ordens do príncipe real D. João, na guerra de D. Afonso V contra Castela (1475-1476).

 

Sua mãe, D. Isabel Sodré, era de origem inglesa. De sua infância e adolescência pouco se conhece, devendo ter sido criado, ao uso da época, na corte de D. Afonso V e D. João II, em cuja aula de pajens fez a sua educação cortesã e militar, e se instruiu em cosmografia, astronomia náutica, navegação, objecto essencial do Príncipe Perfeito, empenhado em poder dispor, no seu futuro reinado, dum escol de fidalgos, grandes navegadores e bons capitães, tanto no mar como em terra.

 

Mediano de estatura, o moço Vasco da Gama, ao serviço da corte se fez homem, entroncado e rijo, de sólido arcabouço, grande cavaleiro e bom navegador, destemido, enérgico, duro, de vontade férrea, temperada de bom siso, discernimento, e a fleuma e serena placidez das almas fortes. Desde muito novo se impusera, por isso, à confiança e apreço do príncipe real D. João, perspicaz conhecedor dos homens e seus méritos. Logo que subiu ao trono, D. João II o manteve ao serviço da corte, mais se assegurando da sua lealdade na fase trágica das conspirações da alta nobreza; e, apaziguado o Reino com as execuções e a submissão da fidalguia rebelde, o moço rei lhe confiou, em 1487, uma pequena frota de guarda-costas para caça à pirataria argelina nos mares do Algarve e de Marrocos, e apresar os navios de corsários franceses que atacavam a navegação da Guiné e da Costa da Mina.

 

O seu êxito foi completo, apresando e trazendo ao Tejo dez naus de corso. No ano seguinte, descoberto e dobrado enfim, por Bartolomeu Dias com Pêro de Alenquer, o Cabo da Boa Esperança, já na Costa Oriental da África, foram os dois navegadores até à baía, chamada de S. Brás, e ao Rio do Infante, donde Bartolomeu Dias não passou, pela revolta da sua marinhagem. Em conjunção com as informações de Pêro da Covilhã, que da Costa do Malabar atravessara o Índico e estivera na África Oriental, em Sofala, ficava conhecido o caminho marítimo da Índia, pelo Oriente; e D. João II ordenou logo os preparativos duma armada para a primeira expedição naval à Índia, que de antemão reservava a Vasco da Gama.

 

Não lhe paralisou o ânimo a desastrosa morte do príncipe herdeiro, D. Afonso, em 1491. Os preparativos continuaram, associado desde logo ao projecto o Duque de Beja, D. Manuel, seu primo e cunhado, e também já seu herdeiro forçado, por não ter o rei outro descendente legítimo. Também o não amoleceu a sensacional viagem de Cristóvão Colombo, em 1492, com a descoberta dum novo Continente a Oeste, a América, que, na sua ignorância de geografia, o genovês julgou ser as Costas da Ásia e por isso lhe chamou as Índias Ocidentais. D. João II, sem descontinuar os seus preparativos navais, secretamente mandou aprontar uma pequena frota para D. Francisco de Almeida, outro grande fidalgo da corte, fazer a mesma viagem de Colombo e contrastar as afirmações do genovês, projecto de que desistiu, ao ser conhecido na Corte espanhola, tendo provocado o grande conflito diplomático de que resultou o Tratado de Tordesilhas que a D. João II reservava o exclusivo da navegação pelo Cabo da Boa Esperança e no hemisfério oriental, ou seja o caminho marítimo da verdadeira Índia. Surpreendido pela morte prematura em Outubro de 1495, o Príncipe Perfeito não gozou a suprema glória de ver concluída a sua grandiosa empresa, para cuja realização designara em 1492 Vasco da Gama, solteiro, sem cuidados de família, com provas de bom navegador.

 

E dessa escolha dera conhecimento a D. Manuel. Sucedendo-lhe D. Manuel no trono, prosseguiram activamente os preparativos da expedição, apesar das resistências dos seus conselheiros e das próprias cortes de 1496, em Montemor-o-Novo. Em todo esse ano se aprestaram as três naus e uma caravela que haviam de ir à Índia, tendo-se respeitado na construção dos navios todos os conselhos de Bartolomeu Dias e Pêro de Alenquer, pela experiência que haviam da passagem do Cabo. Não se ia a uma aventura, como a de Colombo.

 

Tudo era previsto e ponderado, e fornecidos os navios de toda a aparelhagem, instrumentos náuticos, roteiros, as tabelas náuticas de Zacuto, para tão extraordinária e audaciosa empresa em mares desconhecidos, levando ainda padrões de pedra, para se erguerem nos mais importantes locais. É bem conhecida essa viagem de Vasco da Gama. Vencendo todas as tormentas, revoltas, traições, ao longo de 4 000 léguas de mares revoltos e desertos, realizara-se uma das maiores aventuras humanas no mar, que viria a transformar a face do mundo.

 

A sua grande viagem de descobrimento do caminho marítimo para a Índia não foi apenas a mais extraordinária empresa nacional da sua pátria, mas acima de tudo a primeira, mais segura e já indispensável garantia do estreitamento de relações comerciais e culturais da Europa com o Mundo do Oriente. Em Dezembro de 1524, Vasco da Gama morria de doença em Goa, onde ficou sepultado na Igreja do Mosteiro de Santo António, e donde, mais tarde, veio trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos.

 

A seguir: João de Barros

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