O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 4 – por Raúl Iturra

 

Para aquilo que não é mito, que vai além do mito, encontramos em Freud o complexo de castração, mola mestre do sujeito na psicanálise, eixo estrutural do sujeito dividido. Complexo que Georges Devereux quis provar não ser universal, e, já antropólogo, foi estudar entre a etnia Mohave dos Estados Unidos de América. Ele próprio, queria provar se a teoria de Freud era ou não universal e analisou a teoria psicanalítica dos Mohave , que soube explicar, após um prolongado trabalho de campo, em vários textos escritos em língua húngara, traduzidos para francês.

 

A castração marca a interdição, é da ordem do sacrifício. Tendo como contexto a via do mito da horda primeva naquilo que viabiliza a estrutura, como é o caso desse texto, nota-se que o facto dos filhos não puderem aceder às mulheres num primeiro momento hipotético não indica, necessariamente, que eles seriam, dali por diante, castrados, apesar de a lei já circular. Com o assassinato do pai fizeram um acordo, uma hipotética ordem social, um funcionamento viável ao instituir os dois tabus, donde se deduz o que deve ter passado pela subjectividade, cada um pôde assim renunciar e consentir em perda, submetendo-se à interdição.

 

Aqui encontramos a função do pai como agente da castração, o pai não é o castrador é antes o agente da castração, tendo a castração como enunciado de uma interdição . A função do pai na vida social é complexa. As análises dos autores citados e as dos seus comentaristas definem um papel de ser humano legislador. Perguntar-me-ia com Cyrulnik a quem pertence a criança, ao pai ou à mãe, ou aos dois? Com todas estas definições para entrar na mente cultural e nos secretos que as crianças guardam, frase retirada do título de um dos textos de Freud, como é possível amar?

 

Na minha própria análise, lembro-me de ter admirado o meu Senhor Pai sempre como um exemplo, com imensas virtudes e ensino pragmático sobre a vida. Nunca falou comigo de amores ou paixões, deixou a temática para a nossa Senhora Mãe, como narro noutros livros. Recordo-me perfeitamente que o nosso Senhor Pai, por capricho pessoal, pretendia que eu desse o melhor de mim em saber, em perspicácia, uma exibição tipo macaco do filho que ele amava e que não queria castrar. Soubesse ele ou não, que com a sua atitude, impingia na criança, uma imensa timidez e uma obediência cega. Ensinou-me música, ao ouvirmos juntos discos gravados de autores clássicos e barrocos. Lembro-me ainda, de ter aprendido a ler no seu colo, enquanto ele lia os seus livros.

 

Esse capricho passou a ser um facto: não havia escola para o menino, o menino devia estudar em casa. A escola não era para ele ir. A escola devia aparecer ao pé dele. Foi assim como o meu processo de ensino – aprendizagem aconteceu dentro dos muros de casa: docentes pagos, ensinavam e tratavam da minha disciplina de estudo. Permito-me dizer, que este facto é uma maneira de castrar ao ter sido retirado da interacção social com crianças pares em idade e condição social. A mãe defendia o meu direito à liberdade e à interacção social, mas não foi ouvida e dedicou o seu amor de seio bom, a explicar o abecedário e a complementar as minhas leituras. Essa liberdade que os pais pretendiam, foi um tiro de culatra mal orientado.

 

Pensar em ir à escola, era para mim um horror. No entanto, acabei por ganhar imensos amigos de casa, a amar e brincar com a família nuclear, esses imensos irmãos que eu tinha ou os meus pares, filhos de amigos dos pais. O meu pré-consciente deve-me ter defendido, ao impor uma condição por causa de não ir à escola. Havia uma rapariga loura que eu gostava imenso, filha de um operário. Queria beijá-la, abraça-la, namorar. Aceitei esse comando de não ir à escola com a condição de ela aparecer em casa, à hora do chá, depois das lições.

 

Foram os beijos mais lindos e queridos que eu posso lembrar. Eram beijos inocentes para os adultos que nada sabiam da libido infantil. Se eu queria, nos meus cinco anos, a Lucy em casa, era pelo prazer erótico que nascia dentro de mim, ao percorrer o seu corpo com as minhas mãos. Era um regalo para mim! Condição que, um pensado pai não castrador, me induzia. Gostava, aliás, de contar essas histórias à família alargada, para desgosto deles, especialmente para o da nossa Senhora Mãe, uma mulher muito devota, de missa em casa, de terço de joelhos todos os dias, de Missa cedo de manhã aos domingos e, se fosse possível, durante a semana. Foi o começo da minha forma de matar o pai e de me juntar à mãe para ajudar nos seus afazeres com as mulheres do operariado da indústria. Um começo da morte da imagem do pai.

 

A minha organização genital infantil estava a ser mal estruturada. Deve ser o caso de muitos meninos. Digam ou não. Tenham vergonha ou preconceito, ou não. Da parte do pai, o erotismo era o pedido, quase mandado. Da parte da mãe, castidade, continência e amores-perfeitos, como os que ela mandava cultivar no jardim. Contradição que eu soube ultrapassar ao parecer casto e puro perante a mãe, erótico perante o pai. O problema foi cortado por mim com tesouras psicológicas, justo no meio: estudo e falta de amigos, foram substituídos por leituras de colecções imensas de livros oferecidos pelo pai, que não se sabia castrador.

 

Charles Dickens, Shakespeare, os mitos gregos e outras leituras para adultos, Daniel Dafoe e essa maravilha denominada Robinson Crusoe eram eternamente lidas, ou Stephan Zweig, e, especialmente, esse encantador livro de Júlio Verne, de 1870, Veinte mil leguas de viaje submarina, editados nesse tempo por Planeta, Madrid . Eram livros excitantes, cheios de fantasia, esse sentimento não recomendado por Freud. Acordavam ideias difíceis de resolver. Incitava a imaginação com perca para o saber. Organizavam a libido infantil de uma outra maneira, mais para o imaginário do que para a materialidade, como tenho analisado noutros livros .

 

NOTAS:

 

Georges Devereux (born Dobó György on 13 September 1908 — 28 May 1985) was an ethnologist and psychoanalyst. Foi um dos pioneiros da etnopsicanálise (ethnopsychoanalysis). Autor que eu admiro, começou a praticar psicanálise em trabalho de campo, teoria a que recorro para as minhas observações das crianças e dos seus pais. A sua história pode ser lida em: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Devereux. Fomos colegas de ensino, com o meu eterno amigo Maurice Godelier, em La Maison de Sciences de l’Homme, nos anos setenta do século passado. O resultado do seu estudo, entre outros textos escritos por ele sobre os Mohave, está no livro de 920 páginas, original em inglês de 1961: Mohave Ethnopsychiatrie: The Psychic Disturbences onf an Indian Tribe, Smithionan Instituion (Bureau of American Ethnology-Bulletin 75, Washington DC, traduzido para francês em 1996, por Françoise Bouillot, com o título de: Ethno-Psychiatrie des Indiens Mohaves, editado por Corlet, Imprimeur, Paris, 1996. Os seus livros não estão em linha, mas há comentários nas entradas Intenet da página Web: http://www.google.pt/search?hl=pt-

PT&q=Les+Classiques+en+Sciences+Sociale+Georges+Devereux&btnG=Pesquisar&meta

 

 1996 : Ethno-psychriatrie dês Indiens Mohaves, citado antes, da Collection Les Empêcheurs de Penser En Rond. É comentado em todas as entradas Internet da página web:

 http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Georges+Devereux+Ethno-.Psychiatrie+des+Indiens+Mohave+1996&btnG=Pesquisar com prefácio em: http://www.ethnopsychiatrie.net/actu/hebranarchiste.htm, intitulado: “Devereux, en hébreu anarchiste”, da autoria de Tobie Nathan, retirado do livro em formato de papel. O texto mais interessante para mim de Devereux é o do ano de (1970) 1977: Essais d’ethnographie générale, Gallimard, traduzido do original em inglês: “Basic Problems in Ethnopsychiatry”, 1979, colecção de ensaios dos anos 1939 a 1965, Chicago University Press, 380 páginas. A tradução francesa, que tenho comigo em formato de papel, é de 394 páginas, comentada em todas as entradas Internet da página web:

 http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Georges+Devereux+Essais+d%27ethnopsychiatrie+g%C3%A9n%C3%

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