OS HOMENS DO REI – 41 – por José Brandão

João de Castro (1500-1548)

Era filho segundo de D. Álvaro de Castro, senhor de Paul de Boliqueime, e de D. Leonor de Noronha, filha dos condes de Abrantes. Nasceu em Lisboa em 1500. Seu pai fora vedor da Fazenda de D. João II, e, como ainda parente de D. Rodrigo de Castro, também conselheiro do mesmo monarca, o moço-fidalgo D. João de Castro entroncava por linha paterna e materna na mais alta e honrada nobreza do Reino.

 

A sua mocidade consagrou-se seriamente, não só a exercitar-se nas virtudes e tradições militares da família, como grande capitão em terra e no mar, mas também a valorizar-se intelectualmente com a ciência do seu tempo, a Matemática, a Cosmografia, a Astronomia náutica, ciências complementares e afins, em que viria a tornar-se uma autoridade, com seus futuros e famosos Roteiros oceânicos.

 

Por tradição de família e, na linha de rumo da política da sua época, por vocação e educação militares, o seu destino de homem eram o mar e a guerra. Mas no convívio estreitou íntimas e profundas relações de amizade com os melhores espíritos de seu tempo, como o futuro matemático Pedro Nunes e outros.

 

Logo na adolescência, aos dezoito anos, embarcava para Marrocos, a servir em Tânger sob as ordens de D. Duarte de Meneses, fronteiro-mor em África, da linhagem dos condes de Viana, desde D. João I.

 

D. Duarte de Meneses cedo lhe reconheceu os grandes talentos, a exemplar honradez, a cultura e a bravura pessoal, e por isso o armou cavaleiro, recomendando-o depois a D. João III, logo que ascendeu ao trono, como um dos portugueses mais idóneos para qualquer alto cargo público ou militar de grandes responsabilidades.

 

Durante nove anos, serviu D. João de Castro em Tânger, batendo-se em constantes surtidas e assaltos que eram a norma de vida naquelas praças marroquinas. Entretanto, aos vinte e quatro anos, casava com D. Leonor Coutinho, da casa dos condes de Marialva, e em 1525 nascia-lhe o primeiro filho, D. Álvaro de Castro. Em 1527 era, enfim, chamado a Lisboa. Quando regressa a Portugal encontra outro rei no trono, um jovem da sua idade, amigo de infância, companheiro de juventude – D. João III.

 

D. João de Castro frequentou assiduamente a corte do Infante D. Luís, irmão de D. João III, tornando-se uma das pessoas mais próximas do príncipe. Vieram a trocar abundante correspondência, entre si, tendo D. João dedicado os seus estudos ao Infante. Recheada de vultos que consagravam parte do seu tempo a debater temas relacionados com a Cosmografia, a Geografia, a Náutica e a Astronomia, a corte de D. Luís foi gozando do incentivo e patrocínio do poder real, não deixando de ser compreensível que assim fosse, pois as matérias discutidas estavam envolvidas na sustentação do “Império da Pimenta”, constituindo os “saberes” estratégicos do domínio português.

 

D. João de Castro era um elemento da mais alta nobreza, com uma habilidade fora do comum para o tratamento e estudo das matérias navais. Dominava bem o raciocínio matemático e gozava de um sentido prático pouco vulgar, no seio do grupo social onde se integrava. No tempo em que viveu, as exigências técnicas cresciam, sobretudo para um império ultramarino que desejava dominar as fontes de abastecimento e distribuição das especiarias orientais na Europa Ocidental. O pequeno reino de Portugal centralizava em Lisboa todas as estruturas, políticas e económicas, que controlavam o comércio a longa distância, procurando a todo o custo o desenvolvimento tecnológico, com o qual esperava alicerçar o seu poder naval e militar.

 

Em recompensa dos seus serviços, D. João de Castro recebeu do monarca altas honras. A maior de todas consistiu em nomeá-lo para o cargo de vice-rei da Índia. Porém, desempenhou a função por muito pouco tempo, pois faleceu três semanas depois da nomeação. Morreu em 1548.

 

A seguir: Damião de Góis

Leave a Reply