Um pequeno postal para o nosso Primeiro Ministro se alguém lho quiser levar – II . Por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

Depois de comido o plâncton   por  ganância, rompendo assim a sua cadeia alimentar e instalando o mais profundo desequilíbrio à escala planetária que alguma vez mais se poderia imaginar, ei-los portanto, os big fish a comerem-se uns aos outros e com isso é todo o sistema ecológico que se está a destruir e é a estes afinal que o senhor Primeiro Ministro com as suas políticas  está a prestar a mais rigorosa vassalagem. Também o senhor, tal como o nosso país, será por estes big fish comido, a menos que nas ruas , movimentos como os de Rabat, Tunísia, Cairo, Telavive, Londres, Madrid, Atenas e agora Nova Iorque  o venham a si e a nós também salvar.


Senhor Primeiro Ministro,  pelo lado da juventude, se não olhamos por ela, se não a protegemos, se não lhes garantimos condições de futuro, continuamos então a criar uma sociedade de medos, de precariedades, continuamos a criar uma sociedade explosiva, disso esta realidade  generalizável a muitos milhares de estudantes que trabalham a fazer estágios gratuitos para aprenderem a trabalhar e generalizável a quase todos os cursos superiores leccionados em Portugal, é um exemplo do que é passível de rebentar ao mínimo acidente de percurso, disso tenho a certeza. Parafraseando o texto que segue, sobre os Indignados de Wall Street, os OWS :

 

“OWS pode (e esperamos que assim seja,) aglutinar numa  agenda comum, ajudando a actual configuração política e institucional a retomar o caminho correcto. Alternativamente, pode fragmentar-se, falhando então em  fazer a difícil transição a partir de um movimento de protesto para  um agente eficaz para a mudança que é profundamente necessária.

Isto é onde os media  e os políticos chegam.  Em vez de  considerar  o movimento  OWS como um  “ruído”, deveriam antes  ouvi-lo  como um “sinal” dos desafios que a América enfrenta como uma sociedade de quem se deve ter pena, e como uma democracia construída sobre a importância da equidade e das oportunidades.”


Em contraponto à sua ignorância sobre mercados em equilíbrio ou em desequilíbrio deixem-me apresentar-vos um texto do actual co-director executivo  da Pimco, Mohamed A. El-Erian, nas antípodas do seu discurso e das suas políticas, senhor Primeiro-Ministro, e a pergunta mantém-se: de que mercado está a falar, pois o texto aqui apresentado é escrito de um dos mais emblemáticos operadores nestes mercados de que é suposto estar a  falar?


Curiosamente porque estamos em lados diferentes dos mercados, o senhor e o seu Governo, eu e  Mohamed A. El-Erian, podemos então afirmar que é  então contra aqueles que ao senhor podem vir também a salvar que o senhor Primeiro-Ministro e o seu Governo, quer que as suas polícias, os seus militares, estejam sobre eles prontos a disparar.

 

Porque estamos em lados  diferentes dos mercados aqui deixo aos visitantes de A Viagem dos Argonautas, um  texto de Mohamed A. El-Erian que algum deles ao Primeiro-Ministro deste país poderá levar .

 

Coimbra, 12 de Outubro de 2011

 

Júlio Marques Mota

…………………………….

Escutem o movimento  Occupy Wall Street

 

Mohamed A. El-Erian

 

Para aqueles que querem saber se devemos  prestar atenção aos protestos “Ocupar Wall Street” (OWS), a resposta é sim. Isto não é  apenas um movimento nascente que vai crescer nas próximas semanas e durante os próximos meses . Este faz  parte de um movimento  mundial para uma maior justiça social.

 

Como exemplos recentes de uma base de protestos pacíficos – como aqueles que deram origem das  revoluções do Egipto e da Tunísia até às  gigantescas manifestações de rua em Israel – o movimento OWS apanhou muita gente de surpresa. Em apenas algumas semanas, um grupo auto-organizado de diversos indivíduos pôs  a semente para o que se está a tornar  um movimento nacional que  está a  ganhar energia e visibilidade de modo, diríamos, exponencial.

No entanto, alguns observadores parecem estar a repetir o mesmo erro que muitos deles fizeram no Egipto, em Israel e na Tunísia – o erro  de ficarem  reféns de uma antiquada  forma de pensar sobre os movimentos aparentemente sem liderança.

Estes observadores são rápidos em minimizar  OWS porque o consideram  um movimento fragmentado e a não ter um caderno  detalhado de exigências. Estes observadores argumentam que os OWS estão  muito  virados sobre  as críticas do  tempo passado e muito pouco virados sobre as  soluções para o futuro. Eles consideram que o movimento  não está estruturado para ser capaz de enfrentar  a configuração política actual. Assim, concluem este críticos que o impacto será transitório e inconsequente.

Enquanto essas reações são compreensíveis, as  conclusões  sobre OWS são susceptíveis  de se mostrarem erradas, uma vez que ignoram uma poderosa  realidade: um  movimento  pacífico de maior justiça social pode unificar as pessoas de diferentes origens culturais, de diferentes filiações políticas, de diferentes religiões ou  classes sociais.

Se houver duvidas, pergunte-se aos governos árabes derrubados  por forças seculares que eram lentas na compreensão e de grande inépcia  na capacidade de reacção. Pode-se também perguntar ao governo de Israel, governo   que recentemente foi forçado a modificar a sua política numa tentativa de pacificar um movimento nacional que, apenas alguns meses atrás, nem sequer aparecia em nenhum registo nos ecrãs  dos seus  radares.

OWS pode parecer uma fraca imagem em comparação com os exemplos destes países; acrescente-se porém que será loucura  ou arrogância  ignorar as seguintes semelhanças: 

Primeiro, o desejo de uma maior justiça social é uma conseqüência natural de um sistema que se mostrou brutalmente injusto na sua forma de ser e de actuar e que, para tornar as coisas ainda piores, foi incapaz de, responsabilizar posteriormente as pessoas e as instituições.


Nos EUA, trata-se de um sistema em que se  privatizaram os ganhos em massa e, em seguida, se socializaram enormes prejuízos; foram  permitidos os resgates dos  bancos para retomar o comportamento passado com consequências aparentemente pouco reguladas  e sem consequências legais, trata-se de um sistema que  está paralisado quando se trata de aliviar o sofrimento das vítimas das situações criadas, incluindo milhões de desempregados (muitos dos quais se estão a tornarem-se  desempregados de longa duração, a deslizarem para situações de  pobreza  e a perderem também  o direito de acesso às linhas de Segurança Social). O resultado é uma desigualdade bem visível e crescente entre os ricos e os pobres na América de hoje.


Em segundo lugar, os adeptos de  OWS vão  crescer à medida que a nossa economia continua a ter apenas um crescimento lento, com volumes de desemprego persistentemente elevados e pressões orçamentais que limitam os gastos com serviços sociais básicos (como a educação e a saúde). Adicionalmente outras questões  internas e externas também vão  desempenhar o seu papel.

Nos Estados Unidos, os nossos representantes eleitos como grupo parecem incapazes de responder adequadamente aos  graves desafios económicos e sociais presentes. A contínua (e cada vez mais desagradável) briga política prejudica o caminho para se alcançarem objectivos comuns, a visão  comum, e  a necessidade de aceitar a partilha de  sacrifícios comuns de  curto prazo para uma obtenção de benefícios generalizados de longo prazo.


Internacionalmente, o aprofundamento da crise da dívida  pública  na Europa amplifica os ventos contrários que minam  uma economia americana já fraca e que, na ausência de melhores políticas como resposta, está à beira de uma nova recessão.


Possa a economia melhorar e vir à tona de água, as implicações sociais criadas  seriam já  profundas  dado que já temos uma elevada taxa de  desemprego , um grande défice orçamental,  e, com a política de taxas de juros já a atingirem o mínimo, isto é zero, é muito pouca a  flexibilidade política para a resposta à crise.


Em terceiro lugar, os avanços nos meios de comunicação social ajudam a superar os problemas de comunicação e de coordenação que rapidamente descarrilaram em protestos semelhantes no passado mais longínquo.

Facebook e Twitter são instrumentos de apoio de um movimento enorme que é alimentado  por legítimas preocupações populares sobre as desigualdades.  Particularmente na sua  fase  inicial o movimento  OWS tenta  compensar a sua falta de estrutura de liderança, de recursos financeiros e de acesso aos meios de comunicação tradicionais.

Por todas estas razões, OWS provavelmente vai ganhar força nas próximas semanas, crescendo em tamanho e em objectivos. Irá desenvolver raízes mais profundas e em mais ramos,  irá incentivar protestos semelhantes noutros  países ocidentais.


Na verdade, a questão aqui mais importante  não é saber se  OWS se irá modificar, é a de saber em que sentido. A julgar pela experiência internacional, há duas principais alternativas.

OWS pode (e esperamos que assim seja,) aglutinar numa  agenda comum, ajudando a actual configuração política e institucional a retomar o caminho correcto. Alternativamente, pode fragmentar-se, falhando então em fazer a dificil transição a partir de um movimento de protesto para  um agente eficaz para a mudança que é profundamente necessária.

Isto é onde os media  e os políticos chegam.  Em vez de  considerar  o movimento  OWS como um  “ruído”, deveriam antes  ouvi-lo  como um “sinal” dos desafios que a América enfrenta como uma sociedade de quem se deve ter pena, e como uma democracia construída sobre a importância da equidade e das oportunidades.

É importante compreender melhor e participar apropriadamente no movimento  OWS. Através da colaboração construtiva, a energia do movimento e a sua intensidade podem – e espero sinceramente que assim seja –  combinarem-se  com outras influências para formular futuras soluções para uma América que deve desesperadamente recuperar o seu vigor económico, deve criar  mais empregos e deve conseguir realizar melhor o seu compromisso tradicional para conseguir a  justiça social e a  igualdade de oportunidades.


Mohamed A. El-Erian: Listen to the Occupy Wall Street Movement , 11 Outubro de 2011,  disponível em:


 The Huffington Post [dailybrief@huffingtonpost.com]

 

Leave a Reply