As Revoluções e as Desigualdades – 1. Texto de Paul B. Farrell e gráficos seleccionados por Júlio Marques Mota

 Oh  estúpido, isto é a desigualdade


Para os visitantes de A VIAGEM DOS ARGONAUTAS  retomamos um texto publicado em  Estrolábio  e sugerimos  a releitura do texto  de Farrel sobre os 1% mais ricos nos Estados Unidos e publicado pelo WSJ e igualmente  um olhar atento para os quadros que se seguem a este texto.


Depois  do texto de Farrel sobre o comportamento dos 1% mais ricos dos Estados Unidos, recebemos a compilação  de alguns dados da economia americana  feita por organismos oficiais  dos Estados Unidos.


O texto de Farrel, ao cidadão médio português  que anda a pagar e bem  por uma crise para a qual não contribuiu em nada e da qual não vê nenhuma saída, pode dar um  certo “ar” de muito à esquerda e merecedor de algum descrédito. Ao pensarem assim, lembro que o texto é publicado pelo  Wall Street Journal  e que eu saiba  por  aí e pela  natureza   que lhe é bem própria, a esquerda anda bem arredada. Deixemos cair então essa hipótese “de ar de muito esquerda”. Significa então que uma certa burguesia  bem esclarecida americana percebe claramente que o modelo neoliberal  em vigor pode levar  a nação americana para convulsões sociais de efeitos políticos muito complicados. o que por aqui ninguém fala. Aliás, na velha Inglaterra, posição semelhante tem Martin Wolf, a  figura de proa do Financial Times, a bíblia da City, e a City, sublinhe-se, é o maior paraíso fiscal do mundo. Entretanto, por cá, a desigualdade gerada pelas políticas actuais é coisa que nem a Comissão Europeia, nem o Banco Central Europeu, nem o FMI, nem nenhum dos governos nacionais quer ver em discussão porque cada um deles afinal só pensa é  na sua eleição. 


As estatísticas acima referidas,   recebidas   poucos dias da publicação pelo Estrolabio do texto de Farrel, ilustram  à evidência  e diríamos mesmo, milimetricamente, o artigo em questão pelo que decidimos voltar agora a publicar o referido artigo com os gráficos que elucidam a situação americana quanto às desigualdades sociais, quanto às desigualdades de  rendimento.


Alias ainda hoje, os dados comunicados pelo Boston Consulting Group sobre a evolução da riqueza sob gestão à escala dos países, das regiões, do mundo, diz-nos o seguinte: impulsionado pelo crescimento em quase todas as regiões, a riqueza global continuou uma sólida recuperação em 2010, com  um aumento de 8,0 por cento, ou seja de 9 milhões de milhões de dólares , para um recorde de 121.8 milhões de milhões de dólares . Esse nível foi cerca de 20 milhões  acima do valor alcançado  apenas dois anos antes, durante o aprofundamento  da crise financeira, segundo um novo estudo de  Boston Consulting Group (BCG).


A América do Norte teve o maior ganho absoluto de um mercado regional quanto ao aumento  de riqueza em activos sob gestão (Assets under management-AUM), em $ 3,6 milhões de milhões  e  a segunda maior taxa de crescimento, cerca de 10,2 por cento.


A crise portanto para os outros, para os países periféricos e para os contribuintes menos favorecidos de um lado e do outro do planeta, na Europa como nos Estados Unidos e estes são pura  e simplesmente a maioria dos trabalhadores. O silêncio é de ouro, enquanto as fortunas vão crescendo na razão directa  em que cresce igualmente a pobreza. Tudo isto dá que pensar!

 

Júlio Mota

 

Coimbra, 1 de Junho de 2011.

 

Um texto, vários gráficos.

 

Nota de entrada

 

De Wall Street escrito, com ternura,  da Main Street enviado, com  esperança, e do Estrolabio ah, daqui, escutada, com temor,  a reacção de que os super-ricos da Troika este conselho não queiram mandar executar  nem, talvez,  sequer escutar. Se assim for, é pena, cabe-nos a nós a outra resposta. Acordemos, oh, gente, é assim que acaba o artigo.

 

Júlio Marques Mota

 

 

Tributem-se  os ricos ou então enfrente-se  uma revolução: o delírio dos super-ricos está-nos a levar para a ruína.

 

Paul B. Farrell, Market Watch, Wall Street  Journal

 

San Luis OBispo, Calif. (MarketWatch) — Sim, tributem-se os 1% mais ricos, os super-ricos. Tributem-se já.  Antes que os  outros 99 % restantes se levantem, desencadeiem  uma nova revolução na América, o caos social e a segunda Grande Depressão.

 

As revoluções são construídas durante longos períodos de tempo  – atinge-se a massa crítica, um simples acidente, um detonador. Então, tudo se  inflama, de repente, de forma imprevisível. Como o Egipto, que começou na página do facebook de um jovem executivo,  no Facebook da  Google . Então torna-se virose, mudando de forma de forma incontrolável. Não pode ser parada . Aqui na América   o detonador podem ser a massa de delirantes super-ricos. ” Os protestos dos trabalhadores na Inglaterra são violentos” dizem.

 

Um grupo dissidente na manifestação é acusado de partirem janelas  e atacarem a polícia enquanto dezenas de milhares protestam contra os cortes do governo.

Sabemos que os super-ricos não se importam. Não, não se importam nada  com cada um de nós. Nem com o público americano. Eles não podem ver, não podem ouvir.  Mantêm-se apanhados pela  sua  posição na  classificação dos ricos na Forbes-400. Estão isolados por uma câmara de eco. Eles vêem o público, como trabalhadores sem rosto, clientes, contribuintes. Vêem o poder do Partido Republicano em ascensão. A Reaganomics está de volta. Os sindicatos  estão na corrida. Vêem as  massas mal informadas como sendo facilmente manipuladas. Mesmo Obama está secretamente a trabalhar  com o Partido Republicano, nunca irá  tocar nos seus doadores super-ricos.  Sim, o delírio  dos super-ricos é de tal modo forte que está a contagiar toda a América. 

Veja como um insider esclarecido nos descreveu este delírio dos super-ricos: “Os 1% mais  ricos vivem de modo  privilegiado, não estão preocupados com muita coisa.  As famílias passam férias nos melhores e mais caros locais. As suas maiores preocupações estão centradas em encontrar o melhor professor de ginástica, o melhor massagista, os  melhores cirurgiões, as melhores escolas particulares. Eles não estão nada preocupados com a degradação da base social da América ou do mundo, excepto em abstracto, porque não são directamente afectados por nada disto. Isso não quer dizer que não sejam simpáticos, conscientes ou que não falem  sobre as questões que nos trazem preocupados. Eles são amplamente empenhados nas questões ligadas à protecção e em melhorarem  a sua posição socioeconómica,  garantindo que as  suas famílias vivam bem. E nada do que eu venha a escrever sobre isto mudará as coisas. ” 

Atenção, sinal de alarme em 2011, essa atitude é delirante, fatal, mas muito difundida nos Estados Unidos. 

Os super-ricos  estão a repetir os tempos de  “Great Gatsby”, e talvez  só o venham a saber  demasiado tarde. 

Os nossos Top 1% sinceramente acreditam  que  estão imunes, protegidos das consequências involuntárias que estão a atingir  o americano médio desde há três décadas com o mercado livre, com as doutrinas do trickle-down dos tempos de Reagan que fizeram deles os  super-ricos. 

Eles acreditam honestamente que estas mesmas doutrinas irão protegê-los na próxima depressão. Porquê? Porque eles têm fortunas bem escondidas. Provisões para muito tempo. Vivem em condomínios fechados guardados por  mercenários protegendo-os. 


Eles acreditam que vai continuar a viver muito bem numa situação de  depressão económica. Mas nós não vamos. Nem as nossas pensões de reforma . Nem o resto da América. E os super-ricos não se importam com nada disso “, excepto em abstracto, porque não são directamente afectados.”

Atenção: O delírio  dos  super-ricos  levou-nos à beira de um grande precipício: Lembremo-nos  dos ruidosos anos 20? O crash de 1929? A Grande Depressão? Poucos dias antes deste desastre, um grande economista, Irving Fisher, previu que os alvores bolsistas tinham  “alcançado o que parece ser um patamar permanentemente alto”.

 

(Continua)

Leave a Reply