MARIA CECÍLIA CORREIA OUVINDO GASPAR CASSADÓ – por Clara Cstilho

 

Do livro acima indicado podemos retirar um texto que, de alguma forma, tem a ver com o que tenho vindo a publicar sobre música.

 

“ GASPAR CASSADÓ

 

Anos atrás, ele encheu uma sala bem trajada – a rigor, digamos – emocionando uns, aborrecendo outros, mas legítimo argumento para roupas preparadas com semanas de antecedência.

 

Enquanto ele tocava, olhei para a plateia no escuro e senti o choque com o palco iluminado. Pareceu-me ver uma veste branca, luminosa. Flutuando num covil de lobos.

 

O que me parecia ser a veste branca? O violoncelo, a música? Não. a veste era visível, resplandecia, mas não nascia das coisas concretas. Existia talvez porque era oposta a nós. Liberta de um lado, flutuando, enquanto nós, pelo contrário, estávamos amarrados no lado oposto – covil dos lobos – às cadeiras, aos hábitos, sem evasão possível.

 

 

 

E o seu sorriso, ainda o guardo comigo. Completamente inesperado, desproporcionado connosco, a plateia, ignorando o teatro velho, os camarins mal-cheirosos, o afectado e a ignorância da terra. Ele sorria como se todos nós fossemos iguais; com limpidez, a confiança e a bondade de quem partilhava connosco o seu mundo próprio. O seu sorriso não aceitava (porque não a compreendia) a nossa mesquinhez.

 

Esse sorriso, em mim, fez o milagre: levou-me para o seu lado, para a “veste branca”, fazendo com que eu fosse halo também, e flutuando. Escrevi depois:

 

Te fuiste, pero mis manos llenaste de rosas.

 

Rosas cujo perfume não acabou ainda…e hoje ponho na sua campa.”

 

Nota: Gaspar Cassadó (1897-1966) foi um violoncelista nascido em Barcelona. Aos 9 anos de idade Pablo Casals ouviu-o tocar e fez dele seu discípulo. Deu espectáculos em vários países e foi também compositor – os seus “Requiebros”e o Concerto em D Minor são das obras mais conhecidas e tocadas.

 

 

 

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