Entrevista a Delors
Antigo presidente da Comissão Europeia (1985-1994), Jacques Delors nunca deixou de defender uma União melhor equilibrada. Propõe corrigir os defeitos de construção da zona euro transformando-a em zona de cooperação reforçada, o que a dotaria com uma capacidade muito maior de decisões e meios.
O euro está perigo?
Disse este Verão que o euro estava à beira do abismo. Estou francamente desolado por ter tido razão. Os Europeus têm reagido sempre demasiado tarde, muito pouco e num clima de cacofonia. Depois do acordo de 21 de Julho, que eu considerava mais à altura dos problemas postos, pensei que se iria convocar urgentemente os Parlamentos dos dezassete países da União monetária de modo a que as medidas fossem operacionais a partir do mês de Agosto. Nada disso!
Que pensa da recapitalização reclamada aos bancos europeus?
É um golpe de poker com um pequeno lado “jogo arriscado”. Joga-se o jogo de depois – com a recapitalização dos bancos – sem se ter terminado o jogo anterior – a aplicação do acordo de 21 de Julho.
Tento compreender. O economista Patrick Artus, partindo da hipótese de um incumprimento na ordem dos 50% para a dívida da Grécia, concluiu que o fogo não chegaria ao lago mesmo se fosse necessário, certamente, passar para as regras de Basileia III e reforçar a solidez dos bancos. Não seria do mesmo modo se a ameaça se estendesse a outros países do Sul da Europa. A menos que, de acordo com a fórmula de um famoso humorista, “não se nos diga tudo”? Atenção ao efeito dominó! O assalto de uma especulação irracional pode ser parado através de recursos racionais e de aplicação difícil como a recapitalização dos bancos? E em que prazos para impôr a nossa credibilidade aos mercados?
Qual é a origem da crise?
A crise do euro é ligada à crise financeira mundial, mas também ao vício de construção do sistema do euro.
Em 1997, depois de ter deixado a Comissão, tinha proposto, no espírito do relatório Delors de 1989, criar ao lado do pólo monetário (o Banco central independente e um Pacto de Estabilidade) um pólo económico com um pacto de coordenação das políticas económicas. Se tal equilíbrio fosse realizado, o Conselho do euro ter-se-ia interrogado em tempo útil sobre a situação da Grécia, sobre a dívida privada que aumentava de maneira inquietante na Espanha, na Irlanda e na Itália. Teria podido reagir.
O tandem franco-alemão foi benéfico?
Se o jogo de poker tiver êxito, o que eu desejo, terá tido um papel útil na medida em que os mercados terão reencontrado a calma. Mas vejo que os outros países começam a protestar contra o “ MERKOZY” ou a política do facto consumado. É tempo de voltar a dar o seu papel central ao método da Comunidade para preparar as decisões e a elas.
Que pensa dos remédios impostos à Grécia?
Assiste-se ao regresso em força do espírito do consenso de Washington e das antigas práticas do FMI: “Ensinar aos países em dificuldade a morrerem quando curados “. Em três anos, a Grécia terá perdido mais de 10% do seu produto interno bruto (PIB). Que esforço razoável pode realizar nestas condições para reduzir o seu défice?
Pede-se-lhe para privatizar, mas que não conhece os vampiros do mercado? Como é que se pode querer que um país atirado às feras dos mercados negocie o melhor possível as suas privatizações? Teria sido necessário pôr as suas empresas públicas numa estrutura, avaliá-las a um preço razoável, dar o dinheiro correspondente aos Gregos e consolidar estes activos e vendê-los depois, em boa altura. . É uma questão de bom senso.
O salvamento da Grécia vai ser doloroso.
Com efeito, este país está presente apenas em algumas actividades económicas dominantes no comércio internacional. O seu problema de competitividade é por conseguinte muito específico. É necessário ter isso em conta, porque salvar o soldado grego, é salvar o euro. É o preliminar.
As reservas da Finlândia ou da Eslováquia para ajudarem a Grécia anuncia um retrocesso nacionalista?
O ambiente não é bom e recorda os anos 1930. O nacionalismo em ascensão, o populismo agressivo, o medo da globalização, tudo isto põe em causa o contrato de casamento europeu.
Portanto, face às ameaças sobre o euro, como aos riscos de recessão, a resposta é imediata, é, por si evidente. Aos Estados-Membros, o rigor incontornável, à União, as acções de relançamento. Infelizmente, vêem as reticências sobre os meios orçamentais ou sobre os eurobonds que até os próprios mercados já reclamam!
É necessário alterar o tratado?
Considero animador a posição de a senhora Merkel ser a favor de um novo tratado. Pelo meu lado, daria a prioridade à transformação da eurozona em cooperação reforçada (como o autorizam os tratados), o que permitiria dotar a UEM (União Económica e Monetária) de uma bem maior capacidade de decisão e de novos meios de cooperação de acções comuns (incluindo um fundo de regulação conjuntural) e também de sanções.
Neste novo tratado, dever-se-ia prever a possibilidade de um país poder sair da zona euro com uma maioria qualificada de 75%. Se esta cláusula existisse, os Finlandeses e os Eslovacos teriam reflectido duas vezes antes de atrasarem as decisões. Ter uma moeda comum implica com efeito deveres mais exigentes.
Que pensa da acção de Jean-Claude Trichet à frente do Banco Central Europeu (BCE)?
Tivemos divergências, mas tiro-lhe o meu chapéu. Quando a cacofonia dominava, interveio no mercado, chamou à ordem a Itália e instaurou uma política astuciosa de refinanciamento de uma parte limitada da dívida soberana. Salvou o euro. A lição a tirar é a de que um banco central deve ter dois princípios directores: a estabilidade dos preços e o controlo da dívida privada e pública. É este segundo princípio que tinha sido esquecido desde 1999.
Acredita na tese da conspiração anglo-saxónica contra o euro?
Em Washington, alguns temem que o euro prejudique o imperium do dólar. Outros, mais teóricos, consideram que uma moeda não pode existir sem um Estado (federal, no caso). Mas os membros da União não quiseram ir mais longe nos abandonos de soberania.
O que espera do G20?
Que tome decisões fundadas sobre um acordo claro: o reforço dos meios do FMI, a regulação do sistema financeiro, e, em especial, as exigências de garantias para os bancos “too big to fail” e a distinção entre bancos de depósitos e bancos de negócios. Seria já uma primeira e substancial etapa.
Respostas recolhidas por Alain Faujas e Claire Gatinois
Jacques Delors dénonce le “coup de poker” de Sarkozy et Merkel, Le Monde , 18 de Outubro de 2011.
