Esta é a primeirra crise verdadeiramente global – diz Eduardo Lourenço

No passado dia 17 de Outubro, num colóquio de homenagem que decorreu no novo Centro Cultural Calouste Gulbenkian em Paris,  Eduardo Lourenço, que vive em França há quase cinquenta anos, afirmou que “Portugal e a Europa estão mergulhados na “primeira crise verdadeiramente global” e que a indignação “não é uma arma, é um sintoma”. “Nós somos uma parte dessa crise e, talvez por isso, não estamos tanto em pânico como devíamos estar”.Sobre a crise actual, Eduardo Lourenço usa a imagem de “uma barca, em que nós entrámos com a adesão à Europa. Íamos para um cruzeiro à mesa dos grandes e, de repente, acontece uma coisa monstruosa, um filme de terror. “Não tivemos a responsabilidade. Esta é a primeira crise verdadeiramente planetária. E o planetário aqui quer dizer que desta vez não são os fantasmas só do Ocidente e não estamos no caso da ‘Queda do Ocidente’. O conteúdo dessa crise é que o Ocidente está lá metido na sua totalidade, incluindo os Estados Unidos”, defende o ensaísta português.

 

Eduardo Lourenço rejeita a indignação como “arma”, sublinhando que “a indignação é um sintoma”, embora confesse a sua admiração pelo ensaísta francês Stéphane Hessel, antigo resistente à ocupação nazi e inspirador do movimento global dos Indignados: “Não sou um apóstolo do caos. Lembro-me muito bem dos caos regeneradores, da mitologia do caos wagneriano e da defesa de que o caos regenera”, sublinha Eduardo Lourenço.

 

O ensaísta defende aliás que “a Europa não tem hipótese nenhuma. Já teve. O problema da Europa é que o século XX foi-lhe fatal”, com duas guerras mundiais.” (…) “A Europa nunca mais se compôs. Destas duas guerras, a mais absurda é a Primeira, que foi uma guerra de puro confronto, de conquista de mercado, não tanto na Europa mas no resto do planeta que estava acessível ao novo tipo de imperialismo ocidental (inglês, francês, alemão e russo)” (…)“Essa herança imperial, o esquema [imperial] romano, deixou de funcionar na Europa, e passou a ser herdado nos Estados Unidos”.

 

O ensaísta nota que “as novas gerações pensavam que íamos entrar numa História dominada, o mais racional possível, e, de repente todas essas linhas nos escapam. Não sabemos como exatamente como é que esta coisa sucedeu”. Eduardo Lourenço acrescenta que, além das explicações historiográficas próprias do século XIX, o “recurso fácil” do pensamento marxista já não é válido.

 

“Karl Marx é o último europeu. Ele até pensava que o país que tinha que fazer a revolução era a América. Mas [a situação] escapou-lhes. Os Estados Unidos estão na situação de comando, mas a centralidade da crise está neles” (…) “A revolução não é solução. O mínimo é o exercício da democracia. Mas não era aquilo que se esperava”, concluiu Eduardo Lourenço.

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