A economia em risco de uma queda rápida – 1, por Satyajit Das. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

Nota de Introdução

 

Satyajit Das é um autor que dispensa apresentações e é já bem conhecido dos visitantes, dos leitores de Estrolabio e de agora A Viagem dos Argonautas.  Deste autor relembramos A cavalgada wagneriana para o abismo tema que agora é de novo retomado não a partir de Wagner mas sim a partir de aviões em risco eminente de um crash em terra. E os nossos dirigentes europeus tão preocupados em gerar rumores, que se transformam em temores, em pânico , em tumores,  correm o risco de não dar pelos sinais de alarme de que o avião, a economia europeia,  está em risco de queda quase eminente, de crash.


Boa leitura

 

Júlio Marques Mota 

 

A economia em risco de uma rápida queda

 

Satyajit Das

2011/09/28

Os voos dos aviões exigem que o fluxo de ar sobre as asas seja suave e a a uma determinada velocidade. Fluxos de ar irregulares ou lentos podem provocar a queda do avião . Os aviões mais modernos estão equipados com um “stick shaker” – um dispositivo mecânico que vibra de forma rápida e ruidosa enviando um sinal de alarme para avisar os pilotos de uma forte perigo ou mesmo de queda eminente.


A economia global também tem necessidades de fluxos de ar suaves para que haja um crescimento económico, continuado e forte. Infelizmente, o mecanismo do avião, o stick shaker , está a vibrar de forma ruidosa e violenta a avisar que a economia global está em perigo de queda eminente.

 

A crise financeira global nunca deixou de estar presente

The GFC Was Never Really Over…

 

A causa próxima da recente volatilidade é a degradação da notação de crédito dos EUA (irrelevante) e a continuação dos problemas da dívida da Europa (relevante). A causa mais profunda é a percepção de que o futuro crescimento será baixo e de que estamos perante uma falta de opções políticas.


Em 2008, os governos entraram em pânico e os bancos centrais injectaram enormes quantidades de dinheiro na economia, na forma de despesas pública, concessões fiscais, taxas de juros muito baixas assim estratégias monetária e “não convencionais” – código para a impressão de dinheiro. As acções políticas fizeram afastar uma segunda Grande Depressão temporariamente, convertendo tudo isto numa profunda recessão da economia dos EUA que reduziu o valor do PIB em 8, 9% em 2008.

Tal como os indivíduos as empresas reduziram a sua dívida os bancos cortaram no fornecimento de crédito, os governos aumentaram os seus empréstimos apoiando a procura para manter o jogo e procurar deixando para mais tarde a resolução a situação presente. Estas acções levaram tempo a levar à prática. Mas os decisores políticos não utilizam o tempo para preparar a economia global para uma redução ordenada da dívida. Houve poucas tentativas para enfrentar os problemas estruturais, tais como os persistentes desequilíbrios entre a China e os Estados Unidos ou no interior da Europa ou ainda problema do dólar como moeda global de reserva.


Os governos apostaram num retorno ao crescimento e à inflação, resolvendo todos os problemas.E esta aposta falhou.

 

Zero paciente . . .

A Grécia foi desde sempre considerada como o Paciente Zero no interior duma crise soberana, com destaque para os problemas profundos nas contas públicas das nações desenvolvidas. Enquanto a profunda contracção económica foi um factor, os problemas financeiros do governo foram estruturais. Numa grande parte da dívida pública total resulta no acumular de dívida que se realizou ante das crise , como resultado do facto de que os gastos públicos financiados por empréstimos aumentaram mesmo muito.

Tal como os indivíduos e as empresas, os governos nem sempre usam o dinheiro emprestado para fins produtivos, alimentando o consumo e fazendo investimentos de fraca rentabilidade. Conscientes de que muitos governos europeus têm um elevado nível de dívida que poderá não ser reembolsado, os investidores aumentam fortemente o custo dos empréstimos e, em seguida, cortam o acesso ao financiamento.

 

Em vez de tratar a situação como um problema de solvência e reduzir a dívida para níveis sustentáveis, os países mais fortes na União Europeia juntaram-se para emprestar aos países em dificuldades o dinheiro que eles precisavam. Dentro de um período de cerca de 12 meses, a Grécia, a Irlanda e Portugal precisarão de resgates financeiros cujos valores em causa serão no total, aproximadamente de Euro 400 mil milhões. Muitos bancos europeus, expostos a esses países devedores irão também perder o acesso ao financiamento comercial tornando-se então dependentes do Banco Central Europeu (“BCE”) quanto à tomada de empréstimos. A necessidade de garantir a dívida dos países mais fracos, inevitavelmente, trará um aumento das responsabilidades dos países mais fortes, enfraquecendo-os.

 

A Grécia, Irlanda e Portugal irão precisar de reestruturação da sua própria dívida. A Espanha e a Itália estão agora seguramente na mira dos mercados. A estratégia de resgate financeiro não pode continuar a ser feita sem com isso deixar de afectar a credibilidade da França e da Alemanha. Na ausência de um resgate contínuo , o sistema bancário europeu, incluindo o próprio BCE, ficará vulnerável e irá precisar de capitais públicos, economic catch 22, ou seja, hipótese absurda, pois o problema surge exactamente pela fragilidade dos próprios Estados face aos mercados !

A expansão de uma virose . . .

O problema da dívida soberana é global. Os EUA, o Japão e outros países também, devem todos eles mais do que o que podem pagar.

 

A recente degradação da notação dos EUA não deve desviar a nossa atenção da verdadeira questão – o montante da dívida pública dos Estados e a capacidade permanente para financiar a América. O valor da dívida pública americana actualmente totaliza mais de US $ 14 milhões de milhões.

O comentador David Rosenberg descreveu o problema apaixonadamente: “Nos últimos três anos . . . tivemos a explosão da dívida pública dos EUA em 5 milhões de milhões – o país existe há 244 anos e cerca de um terço da dívida pública foi criada somente nos últimos três anos . . Incrível. O governo dos EUA agora gasta cerca de $ 1, 60 em bens e serviços por cada dólar que recebe de receita pública o que é inédito – esta relação nunca ficou muito acima de 1, 20 dólares, nem mesmo durante os últimos graves reveses económicos no início de 1980 e início de 1990. “

 

 

A América tem-se capaz de assumir grandes duplos défices, défice orçamental e défice na balança de pagamentos, porque não tinha problemas em encontrar investidores disponíveis para fazerem aplicações em títulos do Tesouro, devido ao estatuto especial do dólar dos EUA ser uma moeda de reserva à escala global. Nos últimos anos, o próprio Federal Reserve também comprou cerca de 70% das emissões, na base dos programas quantitative easing, ou seja política monetária expansionista acoplada a uma política orçamental também ela expansionista. Como os investidores estrangeiros, especialmente a China, se têm tornado cada vez mais cépticos sobre a capacidade da economia dos EUA em entrar na ordem, o poder da América para se financiar pode não estar garantido.


A dívida do governo japonês relativamente ao Produto Interno Bruto (“PIB”) é mais de 200%. As receitas fiscais são cerca de metade da despesa, o restante deve ser obtido por empréstimo. O maior pool de poupança a nível mundial tem permitido que o Japão tenha sido capaz de gerir esta situação até agora. O envelhecimento da população e uma relacionada redução do pool de poupança a nível mundial irá tornar esta possibilidade de o Japão se poder financiar no futuro, cada vez mais difícil.


A proporção da dívida na China relativamente ao PIB é de cerca de 17% (cerca de US 1 milhão de milhões de dólares) é enganosa. Se a dívida pública dos governos locais, empresas estatais, dos seus bancos estatais controlados e outros organismos suportados pelo governo estivesse incluída, então os níveis de dívida aumentariam para 60% (US 3, 5 milhões de milhões de dólares), em comparação com 93% do PIB da América. Alguns comentadores argumentam que o nível real da dívida da China, na realidade é, na verdade, actualmente maior, bem acima dos 100%.

Na melhor das hipóteses, as despesas governamentais serão cortadas ou os impostos aumentados para estabilizar a dívida pública como se o problema da solvência do sector público se tenha tornado a prioridade das prioridades. A redução nas despesas públicas vai desacelerar o crescimento, tornando a tarefa de recuperar o controle das finanças públicas ainda mais difícil. Isso pode exigir cortes ainda mais profundos nas despesas públicas e impostos cada vez mais altos, afundando o mundo desenvolvido numa situação de um baixo crescimento durante um longo período.


Na pior das hipóteses, alguns governos oprimidos pelas suas dívidas poderão entrar em situação de incumprimento, provocando uma grande ruptura nos mercados financeiros, e talvez mesmo a poder desencadear uma profunda recessão global. 

 

(Continua)

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