O saudoso tempo do fascismo -32 – por Hélder Costa

Uma conversa entre pai e filho

 

Não, meu filho, abre os olhos.

 

É evidente que temos de continuar a amaldiçoar o 25 de abril, por uma questão de tradição e até de respeito por nós próprios e pelos nossos avós e bisavós., pessoas simples, mas obedientes e tementes a Deus.

 

E a verdade é que esses malandros que estragaram este país também nos queriam prejudicar, e se não nos fizeram pior foi porque eu me fiz amigos deles, passados uns tempos já havia aquela conversa “o que lá vai, lá vai”, “somos todos portugueses”, “temos é de olhar para o futuro “…. como se essa gente tivesse esperteza para ter algum futuro!

 

Eu é que percebi logo que a liberdade e essa coisa da democracia que eles andavam para aí a apregoar era para quem tivesse unhas para tocar guitarra, e que eu saiba, ainda ninguém me bateu a cantar o fado.

 

Claro que eu gosto que tu tenhas essas ideias, mas tens de abrir bem os olhos, para veres como é que hás de ganhar, ganhar sempre.

 

Olha que a nossa vida antigamente, e até eramos dos mais ricos, era uma miséria: sopas de pão com leite ou café, um peixe frito, um naco de carne de porco, um pêro e pouco mais. O ano inteiro. O dinheiro servia para juntar, para guardar, porque “nunca se sabia o dia de amanha”, podia haver uma doença, um azar na vida, um parente que nos roubasse ou enganasse, era uma vida desgraçada.

 

Tu nem podes imaginar o que a geme penava. E depois, nunca saíamos daqui, não conhecíamos o mundo, passávamos a vida com inveja da vida dos reis e princesas do Estoril, o nosso dinheiro nunca crescia coisa que se visse.

 

Hoje, tudo é diferente. Nunca ganhei tanto, nunca fui tão rico, nunca gozei tanto como agora. Assim está bem, assim é que é vida.

 

E também é bom que haja estes governos que acham que têm de ajudar toda a gente. Temos é de ter os olhos bem abertos para também nos calhar algum. Tu estudas, ou finges que estudas que é a mesma coisa, felizmente nunca hás de precisar dessa porcaria desses cursos para nada, comprei-te um Ferrari para fazeres figura lá na Faculdade, e não pagas propinas … julgas que isso cai do Céu?

 

É preciso conhecimentos, bons conhecimentos, e dinheiro, está claro, que isto hoje ninguém faz favores a ninguém, para os gajos do fisco não nos apanharem. Também nos ajudam na saúde, na crise das fábricas, nas reformas.

 

 Achas mal?

 

Ah, achas que é dinheiro mal empregado para chulos, pretos, ciganos, gajos que não trabalham … Oh rapaz, isso é conversa que a geme diz para enganar os paro¬los … as boas ajudas vêem para a gente e não para essa gentalha … para esses vão umas migalhas, e ficam logo todos satisfeitos a votar onde nós dissermos.

 

Bem,.também é preciso dizer que a vida antigamente era uma desgraça completa, e eu não gosto de ver gnte na miséria.

 

Nem na miséria, nem bem desafogados.

 

Nem oito, nem oitenta.

 

O que é bom é tê-los na mão. Para eles perceberem que sem a gente, nunca se safam. Quando estão com a corda na garganta, dá-se lhes uma ajudinha, eles ficam todos comentes, calam-se, e até agradecem a Deus por nós sermos tão boas pessoas. Agora, outra coisa: claro que não podemos ficar parados só à espera do que a gente saca a esses palermas do Governo.

 

Também temos de fazer pela vida.

 

Olha para o teu avô. Como sabes, todos os dias de manhã o levo para pedir esmola à freme daquela charcutaria fina. Não custa nada. Paro o Audi, abro a mala, tiro o banquinho, ele senta-se, põe aquele ar de boa pessoa, e é só estender a mão.

 

Por volta da uma hora vou buscá-lo, come qualquer coisa, pouco, que ele nunca foi homem de grandes cornezainas -,e muitas vezes volta para o seu posto.

 

Eu até lhe digo que ele gosta de trabalhar por rumos … ah, ah, ah … bem, tira uma média de 100 contos por dia, mesmo esta porcaria estando em crise. Já fizeste as contas? 500, 600 contos por semana, sem impostos, retenções na fonte, Ivas, essas vigarices todas!

 

É isto que tens de meter na cabeça: há muito dinheiro a ganhar, é preciso é inteligência.

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