Quantas pessoas falam mirandês? (O mínimo sobre a língua mirandesa – 3), por Amadeu Ferreira

 

 

 

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA

 

 

     por Amadeu Ferreira

 

 

(continuação) 

 

 

3. Quantas pessoas falam mirandês?

 

 

 

Não existe um cálculo rigoroso do número de falantes de mirandês, tendo esse número evoluído quer por razões demográficas quer por razões sócio-linguísticas.

 

 

José Leite de Vasconcelos, por volta de 1900, calculou que seriam, em termos gerais, 15 000 falantes, baseado nos censos populacionais da época e tomando como boa a ideia de que era de 100% a percentagem de falantes nas aldeias identificadas como falando a língua mirandesa. Essa consideração deve considerar-se como correcta, apesar de os mirandeses serem, já na altura, bilingues, pois eram obrigados a usar a língua portuguesa em situações de relação institucional, quer de natureza política (mais ocasional) quer de natureza religiosa (contínua desde o século XVI). Até há relativamente pouco tempo,esse número tem vindo a ser repetido, porém a situação alterou-se profundamente. Se outras razões não existissem, bastaria ter em conta a diminuição da população, a partir de meados dos anos sessenta do século XX, para que tal número não possa já ser aceite. 

 

 

Recentemente têm-se apresentado números que variam entre um mínimo de 5000 falantes, contando apenas os residentes na região de origem, e um máximo de 10000, contando também os imigrantes e emigrantes. Na fixação desses números tem-se também em conta o menor ou maior conhecimento da língua e o seu uso menos ou mais regular. Se nos fixarmos num número entre aqueles dois acima referidos, poderemos não andar muito longe da realidade do número de falantes, isto é, de conhecedores da língua. Porém, se atendermos estrictamente ao uso regular da língua em situações de vivência social e familiar, o número de pessoas que a usam com regularidade poderá ser um pouco inferior.

 

 

Um facto notório e por todos reconhecido é o da diminuição do número de falantes ao longo de todo o século XX, em particular a partir dos anos sessenta, erosão que ainda não se pode considerar estancada. Essa erosão tem levado muitos autores a anunciar a extinção da língua mirandesa para muito brevemente, chegando mesmo a dizer-se que não iria além dos anos 80 do século XX, mas a verdade é que ela continua viva e as profecias têm-se revelado apressadas.

 

 

Apesar de viva, a língua mirandesa tem vindo a sofrer alguma erosão, em particular desde meados do século XX, perdendo em número de falantes para a língua portuguesa que, por razões várias, não tem cessado de aumentar a sua pressão sobre a língua mirandesa, a construção das barragens do Douro internacional (Picote, Miranda do Douro e Bemposta), trouxe à região de Miranda milhares de falantes de português, que passaram a viver nas aldeias, até aí exclusivamente falantes de mirandês, forçando a que o português passasse a ser usado com regularidade nos actos externos da comunidade e inibindo a fala pelo uso de chacota em relação à língua mirandesa; um segundo momento deu-se com a generalização do ensino, primeiro ao nivel da escola primária, até aos anos 50, e depois até ao ensino secundário, o que ocorreu ao longo dos anos 60 e 70 do século XX; por esta altura também se generalizou em todo o país o uso do rádio e da televisão em português; ao longo dos anos sessenta daquele século, praticamente todos os jovens foram incorporados no exército por períodos muitos longos, devido à guerra colonial, facto que foi decisivo para que o português ganhasse terreno e profundidade como língua do dia a dia, pois muitos desses jovens passaram a ter mais competências em língua portuguesa do que em língua mirandesa; por fim e, em geral, deu-se uma melhoria das condições de mobilidade das pessoas, aparecendo outros sectores de actividade económica como alternativos à agricultura, onde o emprego exigia o domínio falado da língua mirandesa, facto que foi essencial para que o mirandês tivesse vindo a perder terreno como língua de primeira escolha da família.

 

Hoje, a língua mirandesa é ameaçada na sua sobrevivência tanto por factores internos, em particular a desertificação da região onde se fala e o enfraquecimento do modo de transmissão familiar, como por factores externos, em particular os resultantes da pressão exercida pelos meios de comunicação social, pela escola e pelos meios considerados de sucesso económico, em particular a empregabilidade, continuando, em cúmulo, e essa é uma questão essencial, excluido como língua das instituições, em particular das instituições políticas locais.  

  

 

 

     (continua – 4. Qual a origem da língua mirandesa?)

 

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