DIÁRIO DE BORDO, 20 de Outubro de 2011


 

Submersos pela grande vaga do orçamento (verdadeiro tsunami!), começamos contudo a discernir alguns casos de surfistas que vão cavalgando a onda. Olhando bem, são os mesmos de sempre. O caso agora são as pensões dos chamados políticos, que não vão ter a bênção do Gaspar (já repararam que ele parece um bispo a falar?). Como se sabe, uma data destes senhores (e senhoras!), após uma vilegiatura em organismos públicos, geralmente não muito longa (para não se cansarem, claro), são mandados embora com uma pensão choruda. E parece que não vão levar com a tesoura da austeridade. Outro caso será o do Banco de Portugal, que tem, entre outras funções, a responsabilidade pelo supervisão da actividade bancária, e a cujos quadros pertencem, ou já pertenceram, alguns destacados políticos e opinadores. Será um prémio pelos resultados? Pelo caso do BPN?

 

Vasco Pulido Valente, na sua crónica de sexta-feira passada, 14 de Outubro, comenta as profecias de António Barreto, a semana passada, sobre Portugal vir a perder a sua independência. Confessa que não percebeu nada. Mas aventa três possibilidades. Uma, a de Barreto se estar a referir a Portugal como nação, como língua própria, história longa, sem diferenças étnicas significativas. Neste caso, Pulido Valente, tranquiliza-nos: ninguém está para nos aturar. Segunda possibilidade: Barreto referiu-se a Portugal com estado soberano. Aqui Pulido Valente diz que desde o princípio do século XIX a meados do século XX Portugal foi um protectorado inglês, pouco mais que uma colónia, e que desde essa altura Barreto não tem razão. Terceira possibilidade: autonomia económica. Nunca a tivemos, “excepto na indigência sub-humana da ditadura”, diz Pulido Valente.

 

No meio desta tragédia, Pulido Valente quase nos dá vontade de rir (é uma qualidade). Mas o facto é que ele não se interroga sobre as causas da “nossa atávica dependência do défice e da dívida”, como ele lhe chama. O caso dos surfistas acima levanta a ponta do véu. Terá sido André Brun quem referiu que temos uma data de almirantes a querer a cana do leme, mas quando lá chegam, em vez de governar o barco, invariavelmente servem-se da cana para malhar nas costas do parceiro. Notemos que estes almirantes de agora, lá malhar, malham, e bem. Sempre nos mesmos.

Leave a Reply