A Parábola – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  A Parábola

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Levantei-me cedo. Esperavam-me umas pencas que cresciam viçosas no quintal, fortalecidas pelo rego da água da mina, e uns diospiros vermelhinhos no meio das folhas verdes da árvore. Estranha que está a natureza que dá frutos antes da folha amarela caduca e faz florir as japoneiras de camélias brancas esperadas lá só para Janeiro ou Fevereiro!

 

Ia de carro a pensar nas pencas e liguei o rádio na Antena 1. Um diálogo interessante, em que um dos falantes, um professor doutor, conhecido do nosso público, se referia, para adornar o seu discurso, à parábola que diz que é mais fácil fazer passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Dizia então o senhor professor, mais ou menos nestes termos : é mais fácil imaginar um animal desses corpulentos passar pelo fundo de uma agulha…

 

Já várias vezes tenho ouvido esta hipérbole mal articulada. Doutas bocas, incluindo a de um padre que, no auge do seu sermão, dizia : imaginem o que é um camelo com a sua bossa a passar pelo buraco estreito de uma agulha…E os fiéis sorriam, talvez para fazer jeito ao padre, pois era impossível que tal imagem não lhes fizesse confusão. A mim fez-me confusão e era eu bem pequenita. Fui educada religiosamente pela minha mãe. O meu pai era ateu, mas foi ele quem me explicou que um camelo era uma corda muito grossa com que se amarravam os barcos ao cais.

 

Parece, no entanto, que a palavra camelo, animal, tido como o maior animal da Palestina de então, poderia, segundo alguns, estar na origem da hipérbole, mas referindo-se a agulha a uma suposta portinhola lateral, muito estreita, nos muros de Jerusalém, chamada fundo da agulha, pela qual passavam os pedestres quando os grandes portões da cidade já estavam fechados. Um camelo passaria ali com muita dificuldade, mas depois de despojado de toda a sua carga. Pessoalmente não acredito nesta versão.

 

Claro que o professor e o padre, pura e simplesmente, ignoravam. Mas seja qual for a imagem, tem de dizer a letra com a careta, isto é, o fundo de uma agulha é o buraco de uma agulha, e por analogia e comparação com a linha que habitualmente o atravessa, é de uma corda grossa (camelo) e não de um camelo, animal, que se trata nesta história.

 

Pena é, porém, que a Igreja deixe passar muitos camelos pelo cu da agulha e às vezes até dê uma ajuda ou um empurrão. Mas… isso é outra questão.

4 Comments

  1. Ai, que giro Eva, eu também julgava que era um camelo sério :)) Aulas da catequese onde nos diziam cada coisa mais estranha de perceber! Sempre me fez uma confusão haver um pai, um filho e um espírito santo, que nunca tinha visto em lado nenhum, serem só um. E ninguém me conseguiu, até hoje, fazer entender. Por isso, desisti e conformei-me com o camelo, animal, a passar pelo fundo duma agulha. Estranho por estranho…

  2. pai, filho e espírito santo são os três ângulos de um triângulo. Não é difícil. O pai manda no filho e no espírito santo, o filho manda no pai e no espírito santo, o espírito santo manda no pai e no filho, É uma salgalhada e uma puca vergonha.

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