O saudoso tempo do fascismo – 33 – por Hélder Costa

Teatro e animação cultural- I

 

Sobre teatro, há mil histórias para contar.

 

A minha estreia como encenador, sem saber bem o que isso era, deu-se em Grândola, na terra onde nasci.

 

Foi em 1964, na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (nome suspeito para a época, e talvez ainda hoje), mais conhecida por “Música Velha” . Nessa época, o país andava em polvorosa e percebe-se bem porquê.

 

Em 1958 o general Humberto Delgado tinha abanado o regime com a célebre frase dedicada ao inamovível ditador Salazar: (se eu ganhar as eleições), “Obviamente, demito-o!”

 

Depois, houve o assalto ao quartel de Beja, o rapto do Santa Maria, a crise estudantil de 61, o início da Guerra Colonial, as lutas dos camponeses no Alentejo … A contestação à ditadura alastrava e abarcava todos os campos da sociedade.

 

As sociedades de recreio eram espaços naturais de convivio, debate, e de formação cívica. Aliavam o lúdico à formação e instrução, ensinando musica, organizando escolas nocturnas, formando grupos de teatro, convidando escritores para lança-mento de livros, exposições de pintura, ciclos de cinema, e rudo o que mais se inventasse para provocar o encontro da Cultura com as massas populares.

 

Em Grândola, a acção da Musica Velha era exemplar.

 

Foi visitada por inúmeros escritores, actores, cantores e grupos corais, de que cito ao acaso, Romeu Correia, Antunes da Silva, Lopes Graça, Sá Nogueira, Adriano, Rui Mingas, o Cénico de Direito, Grupo de Campolide, Armando Caldas, Ivone Chinira, José Saramago (muitíssimo antes do Nobel.;.), etc.

 

E” destaquemos, porque é justo, uma sessão memorável e luxuosa com Carlos Paredes na P parte, e José Afonso, na la, a encerrar uma noite cantando inéditos (Catarina, coro da Primavera … ) perante um público que encheu a colectividade e a rua, devidamente enquadrado por atenciosos guardas Republicanos.

 

A vinda do Zeca era muito especial, porque era a sua estreia perante uma assistência não estudantil. Eu conhecia o Zeca de Coimbra, recordo ainda uma das minhas primeiras noites de caloiro em que ouvi uma voz lindíssima entoando uma balada sobre o Choupal e amores de estudantes. Fui, fomos à janela, e sozinho na noite, caminhando em direcção à Sé Velha, o trovador de cabelo desalinhado desafiava o silêncio.

 

– É o Zeca Manso, o gajo canta bem que se farta, sentenciou um veterano. Tempos depois o conhecimento deu-se, por vezes dormia na Pra-kys-tão, outras vezes na Ras-te-parta, chegou a ser gozado porque começava a alinhar as primeiras notas de “O meu menino é d’oiro”, e subitamente deixou de ser um ídolo do canto e da poética para se transformar num símbolo de resistência e dignidade. Eu conto.

 

Na crise de 62, o luto Académico dominou a cidade. A Universidade parou, e a cidade foi solidária com os estudantes.

 

Nisto, vem um convite para o Orfeon ir aos Estados Unidos. O apelo do tio Sam foi mais forte do que o luto Académico, e muitos cederam (na altura dizíamos traíram, mas como essa palavra parece hoje muito radical e esquerdista, corrigi o que me ia na alma).

 

E o Zeca foi convidado para ir, dado o cartaz especial que a sua participação pres¬supunha. Ofereceram-lhe molhos de notas, mais a garantia da edição de dois dis¬cos, e o Zeca, eternamente teso, que nos aconselhava a comer bolos com Creme porque tinham mais vitaminas, recusou essa oferta “Divina”.

 

Foi esse Zeca que se entusiasmou com o convite para ir à Música Velha, que ficou abismado com o ambiente que o recebeu e que agradeceu enviando a letra de “Grândola, vila morena” ao José da Conceição, director da colectividade, com o inesperado resultado histórico de se vir a transformar na canção do derrube do fascismo.

 

E foi nesse caldo de Cultura e agitação, que se organizou um grupo de teatro, com a gente da terra, empregados de comércio, operários da cortiça, ferreiros, electricistas, costureiras, e um ou outro estudante.

 

Como eu tinha a paixão pejo teatro, tinha estado no CITAC em Coimbra e nesse tempo pertencia ao Cénico de Direito, convidaram-me para fazer uma peça. Propus “Gota de mel” de Leon de Chacerel, uma peça curta do estilo coral, a favor da Paz.

 

A peça foi feita, no fim o público pediu “bis”, os actores disseram que sim e repetiram a peça! Com este êxito, foram convidados para outras terras, e depois, logicamente, a peça foi proíbida. Nem outra coisa seria de esperar de uma peça que estava contra a guerra, na altura em que o decrépito regime através do seu porta-voz Salazar ordenava: para Angola, rápidamente e em força! É desse tempo e dessa experiência que eu guardei uma lição para a vida. Foi a certeza de o teatro ser uma arma fantástica de comunicação, que convém tratar com delicadeza e sem ambiguidades.

 

 

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