OS HOMENS DO REI – 49 – por José Brandão

D. ANTÓNIO (reinou de 1580 a 1580)

 

D. António nasceu em Lisboa, em 1531, filho ilegítimo do infante D. Luís e duma Violante Gomes, mulher plebeia conhecida pela «Pelicana». Neto de D. Manuel, sobrinho de D. João III e do cardeal D. Henrique, representava D. António, em 1580, por varonia, embora de linha bastarda, a dinastia de Avis, como seu último descendente português. Seu pai, príncipe de alta cultura e nobre carácter, tomando-lhe particular afeição por ter ficado celibatário, reconheceu-o oficialmente como filho, e, para deixá-lo ao abrigo da mácula da bastardia, deu-lhe uma educação eclesiástica a fim de preparar-lhe a sucessão do priorado da Ordem Militar do Hospital, em que seu irmão D. João III instituíra a ele próprio, talvez, como compensação de todas as pretensões matrimoniais ou políticas que sistematicamente lhe frustrara.

 

Fez, pois, D. António na idade própria, seus primeiros estudos no Mosteiro da Costa, em Guimarães, de onde seu pai o transferiu para o dos Cónegos de Santa Cruz, em Coimbra, de mais alta categoria pedagógica e, findos esses preparatórios elementares, mandou-o cursar na Universidade Católica de Évora, de cujo arcebispado era titular o infante D. Henrique, depois cardeal e rei, a cujos cuidados e tutela ficou, desde então, confiado, de muito má vontade, esse sobrinho indesejável, filho do pecado e de cristã-nova.

 

Por morte do pai, em 1555, sucedeu-lhe, pois, D. António, aos 24 anos, no Priorado dessa ordem de freires militares do Crato e o fanático cardeal, seu tio, ordenou-lhe logo que tomasse ordens de presbítero, como era da regra, embora facultativo, aos Priores do Crato. O moço, porém, acalentando outras ambições, recusou categoricamente, e daí a aversão permanente que se cavava definitivamente entre os dois últimos descendentes da dinastia – um tio cardeal e um sobrinho inconformista e bastardo, cristão-novo. Começou-lhe a perseguição em 1566, logo que, por intrigas dos jesuítas, o cardeal assumiu a regência do reino, na menoridade de D. Sebastião, em vez da rainha-viúva D. Catarina, a quem D. João III por testamento, deixara regente em nome do neto, criança de três anos.

 

Um dos primeiros actos de D. Henrique, regente, foi irradiar D. António da corte, ordenando-lhe nesse ano que fosse residir no Crato, sede da Ordem. Dois anos, apenas, lhe durou o desterro, porque, em 1568, quando D. Sebastião, atingida a maioridade real dos catorze anos, assumiu de direito e de facto a governação do reino, hostil por seu turno ao tio cardeal, chamou à corte esse primo D. António, em quem reconhecia méritos militares, e incitou-o a ir servir nas praças portuguesas de Marrocos.

 

A derrota de Alcácer Quibir mergulhara a Nação, como é sabido, na mais sombria das tragédias históricas. Sobre todas as lúgubres desgraças de então – pestes, fome, penúria, a perda do rei e da flor da mocidade do reino, morta ou cativa em reféns – avultava o problema crucial da sucessão, pela morte do moço rei, agravada pela senilidade do seu forçoso sucessor, de quem não era de esperar, nem longa vida nem descendência, mas a quem cabia aliás o encargo de designar o herdeiro da coroa. Entre os pretendentes propunha-se o Prior do Crato, D. António, preferido do povo, mas sobre quem pesava a tacha de bastardia e que o cardeal-rei, no seu inveterado rancor, excluiria da sucessão por todos os meios. Repetia-se, nas circunstâncias mais trágicas, a crise dinástica de 1383-1385, e D. António cria sinceramente estar-lhe traçado, a dois séculos de distância, o mesmo heróico destino histórico dum outro bastardo real, o Mestre de Avis.

 

Por desgraça, porém, o Portugal de 1580 não era, como o de 1383, um povo robusto e sadio, pujante de energias e como que previdente do seu destino histórico. Pelo contrário, era já uma nação exausta, moral e materialmente pela epopeia dos Descobrimentos e pela prostração da derrota, nos areais de África. O impotente sexagenário cardeal-rei resistia no íntimo por imperativo hereditário, por dever do cargo, ao temível concorrente Filipe II, de Espanha, como se depreende da sua correspondência com esse outro sobrinho, e, por descargo de consciência, convocou, em fins de 1579, Cortes gerais em Almeirim, onde se refugiara da peste que enlutava Lisboa.

 

Em Santarém, o povo amotinou-se e aclamou D. António rei de Portugal e defensor do reino. As Cortes de Almeirim, ainda reunidas, sancionavam essa aclamação, votando um subsídio para a defesa do País pelas armas. Mais alentado por esse apoio, D. António correu a Santarém, alistou alguns corpos de peonagem e de cavalaria, e marchou sobre Lisboa convencido, como outrora o Mestre de Avis, de que quem tivesse Lisboa teria todo o reino. D. António, depois de comunicar a aclamação a todo o reino, dirige-se a Lisboa. Faz a sua entrada dirigindo-se à Sé, é aclamado e presta o tradicional juramento na Câmara e instala-se no Paço da Ribeira. Sobretudo na capital contava com apoio popular, o único de que dispunha. E aí estavam os organismos fundamentais da administração que podiam concretizar a autoridade da sua realeza.

 

Não poucas cidades e vilas do reino aclamam o novo rei. Falta-lhe, contudo, o suporte dos bispos, dos grandes e senhores, quase todos passados para Filipe II. Tem por si o bispo da Guarda e o conde de Vimioso. Perturbações sociais, não generalizadas, estão por detrás de alguns motins que então ocorrem. Só em Maio, Filipe II ordenou ao duque de Alba a invasão de Portugal pelo Alentejo, como era já tradicional, apoderando-se logo de Elvas, enquanto a esquadra espanhola ia submetendo, sem resistência, todo o litoral do Algarve e do Alentejo até Setúbal. A invasão do Alentejo pouco mais foi que um passeio militar, à excepção de Estremoz e sobretudo Setúbal, que ofereceram alguma resistência.

 

Cidades e vilas iam capitulando sem combate. Os governadores nomeados por D. Henrique abandonaram Lisboa para Setúbal e aqui embarcaram para Ayamonte, tendo expedido de Castro Marim uma proclamação aos povos para reconhecerem Filipe II como herdeiro legítimo do trono. Perdido o apoio da Inglaterra, já desenganada também pelos sucessivos revezes, voltou D. António a Paris em 1590, já sexagenário, mais quebrado de energias, mas, apesar de todos os infortúnios, agruras, angústias e esforços perdidos, decidido ainda, a organizar em França uma nova expedição, apelando para o apoio do rei. No decurso dessas negociações, colhia-o a morte em 1591, na sua casa dos subúrbios de Paris. Diogo de Meneses e Duarte de Lemos foram homens do rei D. António.

 

Diogo de Meneses (1520-1580)

Militar. Serviu no Oriente, tendo sido governador da Índia de 1577 a 1578. No ano seguinte, regressou a Portugal para se tornar capitão-mor do Alentejo. Chefe das tropas de D. António, prior do Crato, com reduzidas forças opôs-se, em Cascais, ao exército do duque de Alba. A importância estratégica de Cascais e da sua baía fica bem patente no episódio da sua conquista pela armada do Duque de Alba, em 1 de Agosto de 1580. Nesse ano de 1580 as tropas espanholas, sob o comando do Duque de Alba, desembarcam em Cascais, conquistando a fortaleza e saqueando a vila.

 

Também sob o domínio filipino, em 1589, aquando da tentativa gorada da conquista de Lisboa conduzida por D. António, Prior do Crato, os soldados ingleses que o acompanham pilham a povoação. O prior do Crato, D. António, estando em Lisboa, nomeara D. Diogo de Meneses, herói da Índia, para o comando da fortaleza de Cascais. Bem sucedidas no desembarque na Marinha Velha, actual Quinta da Marinha, as forças espanholas tomaram a fortaleza em pouco tempo, depois de escassa resistência.

 

D. Diogo de Meneses subiu ao patíbulo na tarde seguinte. O exército espanhol parte depois dali, a caminho de Lisboa, submetendo sucessivamente as fortalezas ao longo do Tejo: S. Julião, Bugio, Torre de Belém. A 24 de Agosto derrota inexoravelmente as forças do prior do Crato na Ribeira de Alcântara, colocando no trono português a dinastia Filipina. Em 1580 o duque de Alba atravessa a fronteira no Caia e chega doze dias depois a Setúbal. Decidido a dominar Lisboa, o duque esperou a chegada da armada vinda de Cádis que fundeou em Cascais, localidade que se rendeu, seguida das fortalezas de São Julião, de Belém e da Caparica. Apenas lhe fizeram frente as tropas que o prior de Crato reunira e o esperavam na margem esquerda da ribeira de Alcântara, no dia 25 de Agosto de 1580.

 

Enquanto D. António acorria ao combate, a ala esquerda das tropas castelhanas rapidamente desfez as instáveis fortificações portuguesas. Ferido o Prior do Crato, e obrigado a abandonar a luta, a batalha acabou meia hora depois de ter começado. Estava assim aberto o caminho para a entrada triunfante de Filipe II de Espanha (agora também Filipe I de Portugal) no seu novo reino. Filipe I, depois de aclamado nas cortes de Tomar, vem para Lisboa e visita Cascais em 28 de Setembro de 1581. Escreve então a suas filhas: «Entrámos na galera e fomos a Cascais, que são cinco léguas, em três horas, que nos fez bom tempo, e fomos à vela…». Da dinastia filipina, Cascais guarda ainda memória da passagem da Armada Invencível, que deixou o Tejo a caminho da Catalunha em 27 de Maio de 1588, e da ocupação pelas tropas inglesas do corsário Francis Drake, apoiando novamente as pretensões do prior do Crato, em 1599.

 

Consciente das deficiências defensivas da região, D. Filipe I mandará levantar a Fortaleza de Santo António do Estoril e abaluartar a antiga torre joanina de Cascais, que passa a ser conhecida por Fortaleza de Nossa Senhora da Luz. De entre as estruturas então levantadas importa destacar a Cidadela de Cascais que, construída junto à Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, reforça consideravelmente a defesa deste ponto estratégico da costa. Como é sabido, o experiente duque de Alba entrara em Portugal em Julho de 1580 e rapidamente destroçara o débil exército português comandado por D. Diogo de Meneses. Obrigado a render-se a 2 de Agosto de 1580, D. Diogo de Meneses, sem processo formado, foi decapitado em praça pública.

 

A seguir: Duarte de Lemos

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