O saudoso tempo do fascismo – 34 – por Hélder Costa

Teatro e animação cultural II

 

 

Essa concepção de o teatro se afastar de uma “feira de vaidades” já vinha do trabalho com Luís de Lima no CITAC, e da participação nas lutas estudantis.

 

Obrigado pelo inspector Saccheti a zarpar para Lisboa na sequência das lutas de 62 em Coimbra, rapidamente me integrei num, digamos “grupo de opinião”, que juntava uma agradável mistura de estilos e experiências de malta de Lisboa e Coimbra. Uma das primeiras acções foi preparar uma edição do “Quadrante”, o jornal da Faculdade de Direito. Eu e o Rui Namorado escrevemos o artigo da capa: “Da Universidade caduca à Universidade nova”, convenientemente ilustrado com um desenho do Bordalo Pinheiro que retratava um lente com orelhas de burro, e entre outros artigos, nas páginas centrais uma verdadeira bomba, “Autópsia do ensino” de Almeida Faria e Nuno Brederode Santos. A edição foi um êxito, o director do jornal, o Domingos Almeida Fernandes foi suspenso, e o ” Quadrante” foi proibido ad eternum… ‘

 

Tempos depois falou-se em reanimar o Cénico de Direito. Fernando Gusmão assumiu a direcção artística, houve muitas adesões de alunos de várias Faculdades e assim recomeçou a luta de tornear a Censura.

 

Tivemos a felicidade de recebermos convites para o Festival mundial de teatro Universitário de Nancy e Festival de Lyon da UNEF no ano do nosso recomeço em 1964, o que nos possibilitou um contacto inestimável com o “outro teatro” que estava a nascer internacionalmente. E em 1966, com “Os Raros”, peça de Alexandre Oliveira e Almeida Faria, ganhámos uma menção honrosa na modali¬dade “tema imposto”.

 

A apresentação dessa peça foi um êxito extraordinário e dias depois eu fui chama¬do para uma reunião com o júri do Festival. Grandes nomes da intelectualidade Europeia da época, Paolo Grassi da RAI, Guy Dumur, Robert Abirached do ” Nouvel Observateur”, elogiaram-me o nosso trabalho e anunciaram-me que tinha decidido dar-nos o Grande Prémio do Festival. Aflito, respondi que isso não era possível porque um êxito assim nos obrigaria a mostrar a peça em Lisboa o que nos causaria inevitáveis problemas com a polícia.

 

– Com a polícia? Mas porquê? Perguntou alguém, candidamente.

 

– É que os autores da peça apresentaram um texto para ser aprovado pela Censura que não tem nada a ver com este.

 

-Ah, bom.

 

E assim tivemos uma menção honrosa repetida no ano seguinte com “Auto de Natal” da Fiama e direcção de Luís de Lima.

 

É de notar que alguns elementos do grupo acabaram por seguir carreiras profis-sionais – Cármen Santos, Eduarda Pimenta, Manuela de Freiras, José Gomes, Melim Teixeira, Francisco Pestana -, participando assim na progressiva valorização do nosso mundo teatral.

 

Todo este trabalho criava uma progressiva consciencialização política, baseada essencialmente, convém não esquecer, no culro da Liberdade e no direito à polémica e confronto de opiniões. Ideias que se cultivavam entre nós e que tentávamos transmitir para fora da Universidade.

 

No Cénico de Direito vários dos elementos participaram em sessões de poesia na margem Sul – Moira, Baixa da Banheira – e em várias colectividades de bairros populares em Lisboa.

 

Foi esta procura da relação com o publico e dos temas que interessam à sociedade e ao mundo em que se vive que nos levou à definição de uma estética e à compreensão do trabalho de actor, consciente do que vai fazer para ser credível na sua comunicação.

 

É essa linha de trabalho que me convenceu, desde sempre, que a animação cultural só será verdadeiramente conseguida com a integrame teatral. Porque o grupo de teatro não está a criar exclusivamente actores, técnicos, encenadores ou dramaturgos. Antes de mais, está a criar pessoas com disponibilidade e curiosidade cultural.

 

 Está a criar cidadãos de corpo inteiro.

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