ALVES REDOL NO PRIMEIRO CONGRESSO DOS INTELECTUAIS PARA A PAZ – WROCLAW, POLÓNIA, 1948 – por Clara Castilho

 

(…) Lá estávamos nós todos, os da delegação portuguesa, com o verniz de trinta anos atrás. Dentro de um avião, o António entre o Fernando Lopes-Graça e o Paul Éluard; no jardim da casa de Chopin, estávamos os dois com o Fernando; …Irene Curie, Jorge Amado, Henri Wallon e outros, cujos nomes se me varreram da memória.

 

 

  

(…) Apresentei o Alves Redol ao Wallon, em Wroclaw e o movimento de simpatia que se estabeleceu entre eles foi imediato. A partir de então, sempre que Wqllon me pedia notícias de Portugal, acrescentava: “E o seu amigo escritor?”(…) Foi através de Wallon que eu e a Hermínia fomos convidados para ir ao congresso que era organizado pela Universidade de Paris e Cracóvia. (…) Alves Redol, Lopes-Graça e Ferreira de Castro, que não aceitou, foram segundo creio, convidados pela União dos Universitários Franceses.

 

(…) Recordo-me do mais extraordinário convívio da minha vida e da vida que vivi com o António Redol e os outros bons companheiros e amigos portugueses…. Num envolvimento de cerca de trezentas pessoas das mais diversas culturas, continentes e países, vivemos num turbilhão de gentes que nos entrou no sentir e nos ficou na memória. …. Frequentámos também muito o grupo francês com Pablo Picasso sempre numa disposição de se escangalhar a rir com os ditos dos outros e com os seus; Paul Éluard a poesia em pessoa; Irene Joliot-Curie, a positiva cientista, amiga dos Valadares e com Henri Wallon.

 

O Grupo Português

(...) É estranho, mas emocionante, como ao evocar Redol encontrei Wallon e como ao descrever a faceta social mais atraente da personalidade de Wallon, encontrei de novo Redol. Mais meridional e portanto mais exuberante.; também mais artista e portanto menos sábio; menos tímido, Redol era, como Wallon, um extraordinário contador de histórias…. A verdade é que nos dois homens, como noutros escritores, encontrei o mesmo bom humor para aproveitar do quotidiano os pequenos acontecimentos adversos e para deles fazer uma divertida e significativa história….Em Henri, como em António, o riso era para trocar com os que se encontravam reunidos para saborear uma conversa de amigos, não para expandir para além do espaço íntimo…. As histórias que contavam não tinham a intenção de fazer humor ou de impressionar os auditores. Eram acidentes de percurso num diálogo vivo e muito directo. 

 

 

                    Excertos do texto “O FUMO DAS CHAMINÉS NÃO ALTEIA” , do livro do psicanalista João dos Santos “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007, também publicado em Alves Redol: Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Org. de Maria José Marinho e António Mota Redol, Caminho, Lisboa, 2001.

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