Uma guerra fundamental tem sido travada neste país desde a sua fundação, entre as forças progressistas a quererem puxar a América para a frente e as forças retrógradas a puxarem-nos para trás.
Estamos, de novo, a recomeçar a guerra.
Os Progressistas acreditam na transparência, na igualdade de oportunidades e na tolerância. Os progressistas assumem que estamos todos juntos neste projecto: todos nós beneficiamos com os investimentos públicos em escolas e em cuidados de saúde assim como em infra-estruturas. E todos nós estamos e fazemos melhor quando temos um bom sistema de Segurança Social, quando temos uma boa regulação sobre Wall Street e sobre os grandes negócios e somos igualmente muito melhores quanto temos um sistema fiscal verdadeiramente progressista. Os progressistas preocupam-se quando os ricos e os privilegiados se tornam suficientemente poderosos a ponto de poder minar a democracia.
Retrógradas são as posições opostas.
Eric Cantor, Paul Ryan, Rick Perry, Michele Bachmann e outros tribunos da direita republicana de hoje não são na verdade conservadores. O seu objectivo não é o quererem conservar o que temos. O seu objectivo é puxarem-nos para trás.
Eles gostariam de voltar a década dos anos 20 – antes de haver Segurança Social, seguro contra o desemprego, leis do trabalho, o salário mínimo, Medicare e Medicaid, leis sobre a segurança do trabalhador, a Lei de Protecção Ambiental, a Lei Glass-Steagall, a SEC , e a Lei dos Direitos de Voto.
Na década dos anos 20 Wall Street era livre, o rico ficava muito mais rico enquanto todos os outros se afundaram num mundo de dívidas e a nação fechou as suas portas aos imigrantes.
Em vez de conservarem a economia, estes retrógrados querem ressuscitar a economia clássica da década dos anos 20 – a visão de que as crises económicas são melhor enfrentadas se nada for feito até que a “podridão” seja colocada “fora” do sistema (como Andrew Mellon, secretário de Estado do Tesouro de Herbert Hoover, tão desavergonhadamente o afirmou).
Na verdade, se estes tivessem conseguido impor o seu caminho voltaríamos a estar no final do século XIX – antes da criação do imposto federal sobre os rendimentos , das leis antitrust, da Legislação sobre Alimentos e Medicamentos e do Banco Central, o FED. Um tempo em que os barões ladrões – caminhos – de ‑ ferro, financeiros e gigantes do petróleo – correram pelo país. Um tempo de violenta miséria para muitos de nós e de ostentatória e vergonhosa riqueza para uns poucos.
Ouçam com atenção a direita republicana de hoje e ouvem o mesmo darwinismo social norte-americano com que se alimentou o sistema desde há mais de um século para justificar a desigualdade de ferro numa época de grande fausto, a Gilded Age: a sobrevivência dos mais aptos. Não ajudar os pobres ou desempregados, ou alguém que caiu em situação de tempos difíceis, dizem-nos eles, porque isso só incentiva a preguiça. A América só vai ser forte se nós recompensarmos os ricos e punirmos os necessitados.
A direita retrógrada tem-se lentamente podido consolidar ao longo das últimas três décadas como os rendimentos e a riqueza a ter-se concentrado no topo. No final dos anos 70 os 1 por cento mais ricos dos norte-americanos recebiam 9 por cento do rendimento total e dispunham de 18 por cento da riqueza da nação; em 2007, tinham mais de 23 por cento do rendimento total e dispunham de 35 por cento da riqueza da América. Os directores executivos da década de 70 eram pagos a cerca de 40 vezes o salário médio do trabalhador enquanto que agora os quadros equivalentes recebem 300 vezes o salário médio dos trabalhadores “.
Essa concentração de rendimento e de riqueza gerou a força política para se desregular Wall Street e reduzir pela metade as taxas de imposição fiscal para os mais ricos. Estes têm financiado o chamado movimento Tea Party, e tornaram sua refém a Câmara dos Deputados e assim como muitos governos estaduais. Através de uma sequência de nomeações presidenciais também dominam o Supremo.
Scalia, Alito, Thomas e Roberts (e também, muitas vezes, Kennedy) afirmam que eles são juristas conservadores. Mas eles são militantes empenhados em derrubar o poder judicial de 75 anos de jurisprudência para ressuscitarem os direitos dos Estados, procurando mexer na Emenda 2, como se os EUA ainda estejam apoiados nas milícias locais, limitando a Cláusula de Comércio, considerando que as grandes empresas podem ser consideradas como equivalentes a pessoas singulares no que se refere aos apoios financeiros dados nas campanhas eleitorais [1].
No entanto, um grande período da história americana revela uma estrutura inconfundível. Sempre que os privilegiados e os poderosos conspiram para nos puxar para trás, a nação une-se, ganha forças e move-se em sentido contrário, para a frente. Às vezes é preciso um choque económico como o estouro de uma bolha especulativa gigante, às vezes é preciso chegamos a um ponto até que as frustrações dos americanos médios se transformam em acção.
Olhe-se para as reformas progressistas entre 1900 e 1916, para o New Deal dos anos 30, para a luta pelos direitos civis anos 1950 e 1960, para o alargamento das oportunidades oferecidas às mulheres, minorias, às pessoas deficientes e aos gays, e para as reformas ambientais da década de 70.
Em cada um destes períodos , as forças retrógradas reacenderam os ideais progressistas com os quais a América tem sido construída. O resultado foi uma reforma fundamental.
Talvez seja isso o que está a começando a acontecer novamente em toda a América.
Robert Reich
[1] No originial, calling money speech and corporations people. Robert Reich refere-se aqui à decisão do Supremo em que um Supremo tristemente dividido anulou dois precedentes importantes sobre os direitos das grandes empresas na Primeira Emenda e determinou aprovou que o governo não pode proibir gastos das empresas nas eleições de candidatos a cargos políticos .
Aprovada por 5 contra 4 votos a decisão era uma reivindicação, na opinião da maioria dos juízes que a aprovaram, acerca do mais básico princípio da liberdade de expressão da Primeira Emenda, de que o governo não tem nenhum direito de legislar e de regular sobre o financiamento dos candidatos a cargos políticos Os juízes opositores à decisão consideram que permitir que o dinheiro das empresas inunde o espaço político iria corromper a democracia.
Sobre esta matéria . o Presidente Obama chamou esta decisão de “uma grande vitória para as grandes empresas petrolíferas, bancos de Wall Street, companhias de seguros a trabalharem em seguros de saúde e outros poderosos interesses que espalharão o seu poder diariamente na capital dos Estados Unidos para abafar as vozes os americanos”.

Finalmente aparece alguém que coloca o darwinismo social no lugar exacto: uma oportunística extrapolação da teoria de Darwin ao campo social com o objectivo de justificar a riqueza de uns e a pobreza de todos os outros. Já aqui me referi mais do que uma vez a isto aquando de exposições feitas por alguns intelectuais da nossa praça que passaram por este tema, perdoem-me a expressão, como cão por vinha vindimada, sem criticamente se terem referido ao peso de ideologia de direita que este abuso do darwinismo trouxe à sociedade.