A ascensão da direita retrógrada e o despertar da América, por Robert Reich. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Uma guerra fundamental  tem sido travada neste país desde a sua fundação, entre as forças progressistas a quererem puxar a América  para a frente  e as forças retrógradas a puxarem-nos para trás.

Estamos,  de novo, a recomeçar a guerra.

Os Progressistas acreditam na transparência, na igualdade de oportunidades e na tolerância. Os progressistas assumem que estamos todos juntos neste projecto: todos nós  beneficiamos com os investimentos públicos em escolas e em cuidados de saúde assim como em infra-estruturas. E todos nós estamos e fazemos  melhor quando temos um bom sistema de Segurança Social, quando temos uma boa regulação sobre Wall Street e sobre os grandes negócios e somos igualmente muito melhores quanto temos um sistema fiscal verdadeiramente progressista. Os  progressistas  preocupam-se  quando os ricos e os  privilegiados se tornam suficientemente  poderosos a ponto de poder  minar a democracia.

Retrógradas são as posições opostas.

Eric Cantor, Paul Ryan, Rick Perry, Michele Bachmann e outros  tribunos  da direita republicana de hoje não são na verdade  conservadores. O seu objectivo não é o quererem  conservar o que temos. O seu objectivo é puxarem-nos para trás.

 

Eles gostariam de voltar a década dos anos 20 – antes de haver Segurança Social,  seguro   contra o desemprego, leis do trabalho,  o salário mínimo, Medicare e Medicaid, leis  sobre a  segurança do trabalhador, a Lei de Protecção Ambiental, a Lei Glass-Steagall, a SEC  , e a Lei dos Direitos de Voto.


Na década dos anos 20 Wall Street era livre, o rico ficava  muito mais rico enquanto todos os outros se afundaram num mundo de dívidas e a nação fechou as suas portas aos imigrantes.


Em vez de conservarem  a economia, estes retrógrados  querem ressuscitar a economia clássica da década dos anos 20 – a visão de que as crises económicas são melhor  enfrentadas se nada for feito  até que a “podridão” seja colocada “fora”  do sistema (como Andrew Mellon, secretário de Estado do Tesouro  de Herbert Hoover,  tão desavergonhadamente o afirmou).

 

Na verdade, se estes tivessem conseguido impor o seu caminho voltaríamos a estar  no final do século XIX – antes da criação do imposto federal sobre os rendimentos , das leis antitrust, da Legislação sobre Alimentos e Medicamentos e do Banco Central, o FED.  Um tempo em que os barões ladrões – caminhos – de ‑ ferro, financeiros e gigantes do petróleo – correram pelo país. Um tempo de violenta miséria  para muitos de nós  e de ostentatória e vergonhosa  riqueza  para uns  poucos.

Ouçam com atenção a direita republicana de hoje e ouvem o  mesmo  darwinismo social norte-americano com que se alimentou o sistema desde há mais  de um século  para justificar a desigualdade de ferro numa época de grande fausto, a Gilded Age: a sobrevivência dos mais aptos. Não ajudar os pobres ou desempregados, ou alguém que caiu em situação de tempos difíceis, dizem-nos eles, porque isso só incentiva a preguiça.  A América só vai ser forte se nós recompensarmos os ricos e punirmos os necessitados.

A  direita retrógrada  tem-se  lentamente  podido  consolidar  ao longo das últimas três décadas como os rendimentos e a riqueza a ter-se  concentrado no topo. No final dos anos 70 os 1 por cento mais ricos  dos norte-americanos recebiam  9 por cento do rendimento total e dispunham de  18 por cento da riqueza da nação; em  2007, tinham mais de 23 por cento do rendimento total e dispunham de 35 por cento da riqueza da América. Os directores executivos da década de 70 eram  pagos a cerca de 40 vezes o salário  médio do trabalhador enquanto que agora os quadros equivalentes recebem 300 vezes o salário médio dos trabalhadores  “.

 

Essa concentração de rendimento e de  riqueza gerou a força política para  se  desregular  Wall Street e reduzir pela metade as taxas de imposição fiscal para os mais ricos. Estes têm  financiado o chamado movimento Tea Party, e tornaram sua refém a  Câmara dos Deputados e assim como  muitos governos estaduais. Através de uma sequência de nomeações presidenciais também dominam o Supremo.

Scalia, Alito, Thomas e Roberts (e também, muitas vezes, Kennedy) afirmam que eles são juristas conservadores. Mas eles são militantes empenhados em derrubar o poder judicial de 75 anos de jurisprudência para  ressuscitarem os direitos dos Estados, procurando mexer na Emenda 2, como se os EUA ainda estejam apoiados nas  milícias locais, limitando  a Cláusula de Comércio, considerando que as grandes empresas podem ser consideradas como equivalentes a pessoas singulares no que se refere aos apoios financeiros dados nas  campanhas eleitorais [1].

No entanto, um  grande período  da história americana revela uma estrutura  inconfundível. Sempre que os privilegiados e os poderosos  conspiram  para nos puxar para trás, a nação  une-se, ganha forças e move-se em sentido contrário,  para a  frente. Às vezes é preciso um choque económico como o estouro de uma bolha especulativa gigante, às vezes  é preciso  chegamos  a um ponto até que  as frustrações dos americanos médios se transformam  em acção.

Olhe-se  para as reformas progressistas  entre 1900 e 1916, para o New Deal dos anos 30, para a luta pelos direitos civis  anos 1950 e 1960, para o  alargamento das  oportunidades oferecidas às  mulheres, minorias, às pessoas deficientes  e aos gays, e para as reformas ambientais da década de 70.

Em cada um destes períodos , as forças retrógradas  reacenderam  os ideais progressistas com os quais a América  tem  sido  construída.  O resultado foi uma reforma fundamental.

Talvez seja isso o que está a começando a acontecer novamente em toda a América.

 

Robert Reich


[1]  No originial,   calling money speech and corporations people. Robert Reich refere-se aqui à decisão do Supremo em que um Supremo tristemente dividido anulou dois precedentes importantes sobre os direitos das grandes empresas  na Primeira Emenda  e determinou  aprovou  que o governo não pode proibir gastos das empresas nas eleições de candidatos a cargos políticos .

Aprovada por  5 contra  4 votos a decisão era uma reivindicação, na opinião da maioria dos juízes que a aprovaram, acerca do mais básico  princípio da liberdade de expressão da  Primeira Emenda, de que o governo não tem nenhum direito de legislar e de regular sobre o financiamento dos candidatos a cargos políticos Os juízes opositores à decisão consideram que permitir que o dinheiro das empresas inunde o espaço político iria  corromper a democracia.


Sobre esta matéria . o Presidente Obama chamou esta decisão de “uma grande vitória para as grandes empresas  petrolíferas, bancos de Wall Street, companhias de seguros a trabalharem em seguros  de saúde e outros poderosos interesses que espalharão  o seu  poder diariamente na capital dos Estados Unidos para abafar as vozes os americanos”.

1 Comment

  1. Finalmente aparece alguém que coloca o darwinismo social no lugar exacto: uma oportunística extrapolação da teoria de Darwin ao campo social com o objectivo de justificar a riqueza de uns e a pobreza de todos os outros. Já aqui me referi mais do que uma vez a isto aquando de exposições feitas por alguns intelectuais da nossa praça que passaram por este tema, perdoem-me a expressão, como cão por vinha vindimada, sem criticamente se terem referido ao peso de ideologia de direita que este abuso do darwinismo trouxe à sociedade.

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