O saudoso tempo do fascismo – 37 – por Hélder Costa

O Fim Tragi-Cómico do Fascismo

Em Agosto de 1968, o ditador Salazar estava de férias no Forte de S. António no Estoril.

 

No dia 3 foi para o terraço e dirigiu-se à sua cadeira de lona, local preferido para apanhar sol. Sentou-se e a cadeira partiu-se.

 

Desamparado, bateu com a cabeça no cimento. Foi socorrido, e facilmente recuperou do que se julgou não passar de um susto.

 

Dias depois, sentindo fones dores de cabeça, foi levado de urgência para o Hospital da Cruz Vermelha, onde foi diagnosticado um hematoma no hemisfério esquerdo do cérebro o que obrigou a intervenção cirúrgica.

 

A operação durou duas horas e o boletim lido aos microfones da Emissora Nacional declarava, para não alarmar a população, “O presidente do Conselho de Ministros foi operado esta noite a um hematoma, com anestesia local, e encontra-se bem”.

 

No dia 16 de Setembro, novas dores de cabeça, novo derrame cerebral, desta vez no hemisfério direito. O dr. Vasconcelos Marques, chefe da equipa encarregada de vigiar a saúde de Salazar, foi categórico: “O Presidente do Conselho, ou não sobrevive, ou fica. inválido”.

 

No dia 26 de Setembro, O presidente Américo Tomás leu um comunicado em que reconhecia “os sentimentos afectivos e de gratidão” que o uniam a Salazar, mas devido ao seu estado de saúde seria “exonerado do cargo”, e para o substituir nomeava “segundo os preceitos constitucionais, o Doutor Marcelo José da Neves Alves Caetano”. Tudo se resolvia na paz e sossego da camarilha fascista, longe do povo e de qualquer força oposicionista.

 

Mas aconteceu que o ditador recuperou pane da sua lucidez!

 

E então, começou a grande farsa política digna desta ditadura de quase meio século. Alguns ministros iam ao palácio de S. Bento reunir com Salazar, apesar do chefe do Governo já ser Marcelo Caetano, e uma amiga lia-lhe os jornais “seleccionando os artigos e as notícias de maneira a ocultar-lhe a realidade polírica de POrtugal”; e chegaram a fabricar transmissões de televisão em circuito fechado para que Salazar tivesse a impressão de que continuava como chefe do Governo!

 

E a cereja do bolo foi conseguida pelo jornalista Roland Faure do diário Francês L’Aurore. Entrevistando Salazar e perguntando por Marcelo Caetano, o ditador respondeu: “Faz mal em não querer trabalhar no Governo, do qual, como sabe, ele não faz parte”!

 

Esta farsa triste de fim de regime é bem elucidativa do carácter e da ética dessa gente que oprimiu Porrugal durante dezenas de anos. Uns sabujos que nem tiveram vergonha de humilhar o homem – involuntariamente diminuído, note-se -, por quem rastejaram toda a vida. Gente sem espinha vertebral para defender as suas ideias e morrer por elas, como Mussolini, Hitler, e os Franquisras Espanhóis.

 

Aliás, o 25 de Abril demonstrou bem que esse bando não passava de um grupo de cobardolas que só pensou em fugir e virar a casaca quando alguém se levantou contra eles.

 

Fascistas? Sim, mas fascistas de meia tigela. Digamos que foram ladrões de colarinho branco com as mãos sujas de sangue. Esra é uma herança que pesa. A herança de não ter coragem para assumir opiniões e decisões. Que resulta, evidenternenre, num jogo de embuste, de logro, de falsificação. A esperteza parola com que essa gente tenra falsificar a história!

 

Há anos dirigi um espectáculo, “O Baile”, narração da História de Portugal, em dança e sem palavras, de 1930 aré 1988. A chegada do 25 de Abril foi simbolizada com uma actriz invadindo o espaço com a bandeira portuguesa e varrendo para fora de cena um Pide. Uma dita extrema – esquerda e gente da direita criticou a cena por esse acto ter sido praricado com a bandeira portuguesa. A paranóia dessa dita esquerda não tem importância; mas o facto de a direita me ter sugerido e exigido que a bandeira devia ser vermelha porque se tratava da revolução comunista, já tem a sua graça.

 

O 25 de Abril que foi uma virória sem um tiro dos militares ou de qualquer civil, uma data que ficou marcada pelos últimos assassinatos cobardes dos Pides na ntónio Maria Cardoso, um golpe militar que elucidou sem margem para duvidas que o regime estava podre e que ninguém o apoiava, passava a ser uma revolução dos perigosos e implacáveis “comunas”! A versão tem graça porque essa gente continuará sempre a fechar os olhos à realidade e a odiar o novo Portugal que se tenra construir.

 

São esses que dantes diziam que Portugal era “a nação orgulhosamente só” e depois só tinham reverências e beija-mão para os patrões internacionais, são os que afirmam que são patriotas mas fogem com capitais para off-shores, são os que lamentam não ter nascido noutro país “porque ai é que me davam valor” … são os que vão para a política para terem imunidades e impunidades e assim fugirem à justiça, são os falsificadores e pusilânimes de sempre.

 

São os que sempre adoraram “minorias absolutas” – ou seja, ditaduras em que só eles e os seus esbirros mandam -, e que hoje fingem gostar do voto do povo; são os que apelam ao fim da abstenção e ao mesmo tempo lançam boatos e campanhas de desprestigio contra a classe política para o povo morder a isca, dizer que “afinal, é todo farinha do mesmo saco”, e deixar de votar.

 

Porque a verdade é que essa gente não perde um voto; a avó entrevada, O doente da família, o marginal drogado e odiado, nesse sacrossanto dia do voto é arrastado para pôr o papelinho na urna para salvar a honra do velho mundo do privilégio e da diferença.

 

São os que imaginaram o logro a Salazar, hoje continuam a ludibriar o povo português, e continuarão eternamente a fazer o mesmo.

 

Até porque não sabem fazer mais nada.

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