Aceitação dos mitos da violência doméstica e variáveis preditoras – V, por Ana Afonso Guerreiro

V

 

À volta do amor…

 

«A pessoa é empurrada pela atracção por alguém especial, sente torrentes de emoção e de desejo sexual, torna-se desajeitada e preocupada, tenta aproximar-se da outra pessoa. Idealmente, a outra rapidamente começa a sentir o mesmo. Algumas pessoas preferem imaginar amor à primeira vista, enquanto outras gozam a gradual escalada da atracção. A presença do outro traz alegria e excitação. O casal passa cada vez mais tempo em conjunto, partilhando pensamentos e sentimentos, descurando outras preocupações e relações, e o seu mundo é completamente transformado pela descoberta desta necessidade imperiosa e por esta felicidade dominante. No auge desta experiência, a atenção está sobretudo focada no outro, e descobrem uma relação íntima dificilmente imaginável com outra pessoa. Celebram o seu amor através da união sexual e do compromisso pessoal mútuo. Tal é o sonho do amor…» (Baumeister e Wotman, 1992 cit. in Narciso & Ribeiro, 2009).

 

Sonho que, para se manter, diz Pasini (1992) exige na relação que o outro seja uma pessoa singularmente importante, ou seja, admirado pelo outro; que exista generosidade, não se contabiliza o que se dá e o que se recebe; a relação dos amantes é um tempo de desenvolvimento e crescimento, sobretudo com confiança e estima.

 

Assim, a felicidade conjugal só é possível se existir estima, amizade, admiração, conhecimento mútuo profundo, respeito mútuo, prazer na companhia do outro, expressão dos afectos…e é precisamente a estima que permite a continuidade da paixão (Gottman e Silver, 2000).

 

Stendhal, nome literário de Henri-Marie Beyle (1783-1842),  reputado escritor francês, ficou conhecido pela delicadeza na análise dos sentimentos dos seus personagens. Há mais de cento e setenta anos parecia afirmar que a paixão não desaparecia. Descreveu-a como um processo em sete estádios: Admiração – encontro com o outro e a atracção física e psicológica por ele; Antecipação – a imaginação de estar com o outro e dos prazeres daí decorrentes; Esperança – a reciprocidade desejada e esperada; o Nascimento do Amor instigado pela Esperança; Primeira Cristalização – a idealização do outro e a descoberta progressiva de novas perfeições gerando o delírio de ser amado por ele, e, simultaneamente, a incerteza e o medo de ser abandonado; Dúvida – nascida da incerteza e do terror do abandono; e Segunda Cristalização – após a dúvida, a confirmação de que se é amado pelo outro. Um momento de redescoberta do outro, de dúvida novamente e a busca por provas de amor. A oscilação entre certezas e dúvidas: «este caminho que toca por um lado, a borda extrema de um terrível precipício e, por outro lado, a perfeita felicidade, é o que dá tanta superioridade à Segunda cristalização sobre a primeira (Stendhal, 1978, p.14 cit. in Narciso & Ribeiro, 2009).

 

«O amor é como a febre, nasce e extingue-se sem que a vontade desempenhe qualquer papel.» (Stendhal in Do Amor).

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