Diário de bordo de 25 de Outubro de 2011

Agora temos o show espúrio das renúncias de alguns políticos a pequenas prebendas – marketing político do mais puro e descarado. É melhor do que nada, dirão – mas é tardio e ineficaz. E, sobretudo, é uma maquilhagem a um velho rosto que já não suporta esse tipo de falsas soluções – o da corrupção que entretece o pano sujo e grosseiro em que se mistura a teia da política e a urdidura do capital.

 

Circulou na net há tempos um texto de um professor de História que, ao ajudar o filho num trabalho escolar e ao estudar os laços endogâmicos que uniam as famílias europeias na Idade Média, encontrou uma curiosa similitude no actual xadrez da comunidade político-social portuguesa – e desfiava parentescos e ligações entre gente do PS e do PSD, ostentando uma inextricável teia de interesses. Na Idade Média, os barões guerreavam-se, independentemente dos parentescos – pais contra filhos, irmãos contra irmãos… Quando, após terem devastado cidades, incendiado colheitas, pilhado, violado, trucidado milhares de súbditos, assinavam a paz., passavam por cima dos montes de cadáveres e corriam emocionados a abraçar-se – “Meu amado filho!”, “Meu bondoso primo!” ou “Mãezinha!”, como terá dito o nosso Afonso I para D. Teresa, após São Mamede… Enfim, enternecedoras cenas familiares que tinham como pano de fundo ruínas, mortos e inválidos.

 

Os nossos políticos lutam por um poleiro de onde distribuem lugares e asseguram clientelas – Insultam-se, num wrestling que parece mesmo a sério. Mas depois, vamos a ver, e muitos deles casaram os filhos entre si e são compadres. Ou, estando no poder, protegeram um adversário num processo escabroso, ou estão ligados a um grande grupo financeiro que, logo que sejam derrotados nas urnas, lhes dará um bom lugar… Uma caldeirada bem cozinhada. E em pano de fundo, nós, os figurantes, pagando todo o espectáculo, mas tendo apenas direito a votar. Contrapartida ridícula, pois no poder, ganhe quem ganhar, estará sempre o polvo endogâmico da corrupção, da perversa mistura entre política e capital financeiro. Ou seja, ganhe quem ganhar, nós perdemos sempre.

 

O dizermos que Coelho é pior ou menos mau do que Sócrates é dizer nada. É, sobretudo, desempenhar o papel que nos foi atribuído. Enquanto não mudarmos o cenário, erradicarmos estes actores e, sobretudo, enquanto não deitarmos fora esta obra dramática que começou a representar-se há cinco séculos, podemos mudar tudo que tudo ficará na mesma. Quinhentos anos em cena? Nem o Cat’s!

 

Já é tempo de mudar, de pormos outra peça em cartaz.

Leave a Reply