Com o falecimento de Andrea Zanzotto, occorrido no dia 18 de outubro deste 2011, a Itália perde possivelmente o seu mais importante poeta contemporâneo. Passados apenas poucos dias das festas pelo seu novantésimo aniversário – nascido que fora a Pieve de Soligo aos 10 de outubro de 1921 – o poeta teve de deixar as colinas de sua terra natal – a mesma do difuso vinho Proseco – para terminar uma existência de batalhas pela poesia e pela preservação da natureza no hospital de Conegliano, o máximo que ele concedia ao grande ambiente urbano.
Zanzotto criou lentamente a sua obra de exceção convivendo com a terra de origem e combatendo sempre pela preservação ambiental. Nele a dificil batalha pela conquista de um linguagem pessoal, própria de todo grande poeta, se realizava num espaço físico aparentemente limitado, mas no qual ele alargava a paisagem com o lento domínio de uma língua que se fez definitivamente canto. Um canto certamente complexo, de difícil captação. Mas que, superada as aparentes barreiras que somente em aparência se fechava num discurso fechado, logo se transformava em revelações. Revelações que a poesia de Zanzotto retirava dos mais profundos processos da linguagem. Voltado para o encontro com o tempo passado, ele se dava ao incrível esforço de deixar o tempo presente para, quase como um ser destinado a um tempo antigo, mais que antigo, um proto-tempo, retornar diante de sua natureza física e presente para melhor desvendá-la. Assim, não contente de seus intrumentos linguísticos usuais, debruçava-se em particular no dialeto.
Nele procurava os tempos. Não completamente contente igualmente com o conhecimento pessoal do linguajar dialetal mais convencional, embrenhava-se nas formas mais ingênuas do mesmo. Em particular naquelas do dialeto das vozes infantis. Daí, conseguia desvendar segredos a partir dos mais extremos fonemas, o que logo em seguida lhe permitia de prescrutar a densidade mais conveniente às diversas dimensões que o seu desejo de expressão aspirava para os poemas a nascer. Como o poeta via o dialeto em conúbio absoluto com a paisagem que o circundava, dele partia para o melhor conhecimento que lhe fosse possível em relação à natureza que viria a encher de concreto os poemas nascentes. A poesia de Zanzotto apresenta aparentes muralhas que obriga os seus leitores a uma integração não fácil.
Descendente dos grandes poetas do período hermético da lírica italiana do Novecentos, poetas da grandeza de Ungaretti (1888-1970), Quasímodo (1901- 1968) e Montale (1896-1981), o poeta de Dietro il paesaggio não é propriamente um “hermético”, mas uma criador de novas possibilidades de linguagem poética em procura de todas as dimensões possíveis à criação poemática. Trata-se de uma obra que tende a conduzir o seu fluidor a um quase processo de recriação. O mesmo acontece para aqueles que se dedicam diretamente à tradução da mesma. Dificilmente esta pode suportar uma tradução literal, obrigando o tradutor a repropor na nova língua uma forma semelhante ao original, mas que é já quase um outro poema.
Para exemplificar um tal problema, proponho aqui a tradução de um dos poemas que fazem parte do volume Beltá, de 1968, considerado pela crítica italiana como a obra-prima do poeta de Pieve de Soligo.
AL MONDO,
di Andrea Zanzotto
Mondo, sii, e buono;
esisti buonamente,
fa’ che, cerca di,
tendi a, dimmi tutto,
ed ecco che io
ribaltavo eludevo
e ogni inclusione
era fattiva
non meno che ogni
esclusione;
su bravo, esisti,
non accartocciarti
in te stessi in me stesso
Io pensavo che il
mondo cosí concepito
con questo
super-cadere super-morire
il mondo cosí
fatturato
fosse soltanto un
io male sbozzolato
fossi io indigesto
male fantasticante
male fantasticato
mal pagato
e non tu, bello,
non tu “santo” e “santificato”
un po’ più in là,
da lato, da lato
Fa di
(ex-de-ob etc.)-esistere
e oltre tutte le
preposizioni note e ignote,
abbi qualche
chance,
fa’ buonamente un
po’;
il congegno abbia
gioco.
Su, bello, su.
Su, münchhausen.
AO MUNDO
de Andrea Zanzotto
Mundo, sê, e bom;
existe boamente,
faze que, procura de, chega a, me digas tudo,
e eis que eu transmudava enganava
e toda inclusão era possível
não menos que toda exclusão;
pra frente, existe,
não fechar-te em ti mesmo
Eu pensava que o mundo assim concebido
com este super-cair super-morrer
o mundo assim recibo passado
fosse somente um eu mal desvelado
fosse eu indigesto mal fantasticante
mal fantasticado mal pago
e não tu, ó craque, não tu “santo” e
“santificado”
um pouco adiante, ao largo, ao largo
Faz’ que (entre-per-sob etc.)-exista
e mais além de todas as preposições
notas e ignotas,
tenha alguma chance,
faze boamente um pouco;
a engrenagem possa vencer.
Vai, ó craque, vai.
Vai,müncchausen.
(trad.de Sílvio Castro)


Caríssimo Sílvio,Obrigado por não deixares passar em claro esta ocasião, inevitável para cada um, mas, paradoxalmente, propícia à insistência na divulgação de obras de rara qualidade e escasso reconhecimento público. Mesmo em Itália, tenho algumas dúvidas sobre o (re)conhecimento de Zanzotto e da sua obra (para o meu italiano ainda escasso, então, dado o caminho expressivo que este autor escolheu e que tão bem explanaste, de leitura algo difícil e quase sempre imprecisa). Ainda mais obrigado pelas traduções, que me ajudaram a melhor clarificar estes poemas, em concreto, e lançam pistas preciosas para a minha aproximação a outros.Um grande abraço, com saudade.