Comentário ao Diário de Bordo de 26 de Outubro de 2011, por Júlio Marques Mota

O nosso homem, autor do Diário de Bordo, que nenhum bordo de jeito  nos consegue dar a mostrar, nos consegue levar,  tais são  as tempestades  que ao seu leme se opõem e que a visibilidade nos estão do futuro a tirar, o nosso autor  brinda-nos com este  texto:


Depois do ferro em Trás-os-Montes, do gás natural no Algarve, e de outras promessas, chegou a vez do ouro no Alentejo. Desculpem, mas, caramba, que fartura! E assim, no meio desta crise. Esperemos é que não seja como aqueles convivas, na festa, na Cidade e as Serras, que queriam extorquir umas massas ao Jacinto, e diziam que era para explorar rubis (perdão, seriam esmeraldas?) na Birmânia. E como o Jacinto hesitasse, perguntasse se havia estudos a comprovar a existência das esmeraldas, um dos convivas (com certeza já bem atestado), respondia: “Está claro que há esmeraldas!  Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!”


Apesar de me sentir esgotado a procurar perceber o sentido do mundo que me estão a impor e francamente a não conseguir encontrar nenhuma explicação aceitável a não ser que tudo isto se deve a um misto de maldade, de ignorância , de servilismo, de sadismo também dos nossos dirigentes, ao ler esta peça ainda tive a frescura de uma história me lembrar e que passo a contar, extraída de um livro que  li há anos e que passo a reproduzir:


“Busang ou a história da paixão pelo ouro

 

O ouro, esta relíquia bárbara sobre a qual ironizava Keynes  mas pela qual os franceses e os chineses têm uma desmesurada paixão , o ouro continua a suscitar os sonhos, a provocar as corridas para as florestas virgens ou para os valores de algumas  bolsas canadianas. Mais prosaicamente, o ouro continua a matar desde o triunvirato de Crassus a quem os Partas vencedores  encheram a garganta de ouro fundido até mais recentemente ao caso de um geólogo filipino, Michael de Guzman, em que a azarada queda de um helicóptero em que viajava  desencadeou o mais belo escândalo  da história mineira e provocou a perda de 4 mil milhões dólares.


É uma história curiosa que começa no país dos pesquisadores de ouro, neste Canadá onde reina ainda o espírito dos aventureiros e o mito da fronteira. A pesquisa em  minas  é aí  uma actividade importante uma vez que o país se tornou , desde há alguns anos, num importante produtor de ouro, algumas das suas jazidas metálicas têm os custos mais baixos do mundo, como as níquel.  Habitualmente, a fase de exploração é feita pelos “pesquisadores” de ouro, pequenas sociedades de capital-risco financiando os geólogos, algumas sondagens, e outros trabalhos de pesquisa.  Uma vez uma jazida descoberta e confirmada, esta é tomada em mãos por um verdadeiro operador mineiro, e a empresa inicial recebe royalties e dividendos: um verdadeiro jackpot nalguns casos. É assim, em geral, nas bolsas de Toronto, Vancouver ou de Alberta onde estas sociedades levantam fundos.


Em 1993, David Walsh, um empresário que já contava no seu  activo com uma falência  na pesquisa de petróleo, funda Bre-Xe  e consegue obter  200.000 dólares canadianos junto de alguns investidores para tentar a sua sorte num projecto na Indonésia, em Bornéu. Na origem desta instituição estava um geólogo canadiano, de origem holandesa, John Felderhof, que já tinha trabalho muito nesta região, tendo participado na descoberta de uma jazida importante de ouro e de cobre na Papuásia  e que pensava poder encontrar uma  nova  jazida   e de igual dimensão em Busang. No final de 1995 Bre-X anunciava  que havia efectivamente ouro em Busang, provavelmente na ordem de 30 milhões de onças,. O governo da  Indonésia confirma a notícia. Em Abril de 1996 as acções de Bre-X foram introduzidas na Bolsa de Toronto, e suscitaram rapidamente o frenesim: de alguns cêntimos canadianos passou a cotar 25 dólares o que representava uma capitalização de   6 milhares de milhões de dólares americanos. E as reservas continuaram a serem avaliadas e em Novembro de 1997 eram já calculadas em 200 milhões de onças, o que fazia dela a descoberta mais fabulosa  do século. De imediato, os interesses dispararam. Um tal maná não poderia escapar á família presidencial: um filho e uma filha do Presidente Suharto afrontaram-se abertamente , pondo em evidência  práticas mais próximas do Zaire que da “moderna” Indonésia. Isto passou-se antes da crise asiática, que abriu os olhos aos menos cépticos. Finalmente foi um amigo do Presidente que decidiu a contenda e dividiu  os 40 por cento da futura mina . As grandes sociedades ocidentais movimentaram-se também elas. No Outuno de 1996 o canadiano PlacerDome propõe uma fusão valorizando BRE-X em mais de 5 mil milhões de dólares. 

 

Finalmente foi o canadiano Freeport  Mac Roran que ganhou e deveria ser o operador  mineiro de Busang, com 15% do capital.


Tudo ia pelo melhor e no melhor dos  mundos e os fundadores de Bre-X podiam sonhar   em transformar em dinheiro uma parte das suas stock-options. As coisas começaram a andar mal quando geólogos enviados a Busang por Freeport   se mostraram incapazes de confirmar a presença de ouro. Pequeno problema técnico  que deveria resolver o geólogo  filipino   Michael Guzman. Mas este “caiu” do helicóptero que o leva a Busang em 19 de Março. O seu corpo completamente desfigurado só foi encontrado alguns dias mais tarde. Depressão de um polígamo, suicídio, morte,  todas as hipóteses circularam. Os mercados financeiros não foram lentos a perceber, e a cotação de Bre-X caiu em cerca de 90 por cento. Algumas semanas mais tarde uma peritagem independente confirmou que não havia ouro nenhum  e a cotação e Bre-X foi suspensa.”


A conclusão do autor que esta história nos conta, um grande especialista em matérias-primas, Philipe Chalmin é avassaladora:


“O mais extraordinário é que esta história se passa em 1997, numa época em que  os meios técnicos disponíveis deviam  tornar transparentes as mais obscuras florestas de Bornéu. É assim que os mercados, por mais sofisticados que sejam, permanecem com uma ingenuidade infantil  desde que brilhe o ouro ou que um rendimento acima do normal possa ser encarado como possível.”  Tínhamos tudo, Bolsas, mercados bolsistas, Estado, a Indonésia por uma ditadura governada, multinacionais, cientistas, tínhamos tudo e uma fraude gigantesca se produziu, exactamente como agora. Agora tínhamos tudo, tínhamos grandes empresas de rating, tão grandes que marcam o governo do mundo, excepto da China porque ela é em si-mesma uma grande agência de rating dos seus próprios interesses, mesmo quando se engana, tínhamos tudo, tínhamos   grandes arranjadores de títulos a lançar no mercado, os famosos pools de hipotecas teoricamente bem escolhidos para receberam as altas notações que lhes foram dadas, por exemplo, tínhamos tudo, tínhamos grandes investidores instituicionais e outros, tínhamos tudo, tínhamos nestes mercados os melhores matemáticos,  tínhamos tudo, tínhamos grandes bancos a colocar os produtos nos mercados mundiais , tínhamos tudo, e toda a gente  a ser paga  pela sua excelência  na casa dos milhões,  tínhamos tudo, tínhamos até  grandes reguladores mas que não regulavam, tínhamos tudo   mas esqueceram-se de colocar no seu modelo uma coisa bem simples, a precariedade que estavam a gerar, colocaram nos modelos as séries estatísticas dos anos 90 quando não havia crise para calcular erradamente as  probalidades de incumprimento. Não posso crer!  Tínhamos tudo para não ter nada do que temos agora, mas o que temos agora é o que todos nós consentimos.

Eça genial  fica pois uns pontos abaixo da realidade que a história aqui  nos relata, por  isso no mundo neoliberal que pela força  da força nos garantem hoje, se quero ler uma tragédia não leio Shakespeare, não, leio um qualquer jornal sério deste nosso mundo de agora, leio por exemplo a crónica de Sandrine Morel, La grande misère avance à grand pas, onde se pode ler:  “a Espanha não vê o fundo do túnel. A crise a prolongar-se, os desempregados em fim de direitos não deixam de aumentar: serão perto de dois milhões sobre 4,8 milhões de deseempregados a não terem direito a nenhum subsídio”. De tragédia por hoje, basta .

 

Júlio Marques Mota

 

Excerto de  Philipe Chalmin, Le poivre et l’or noir, Edições BE, 2007.

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