Diário de bordo de 27 de Outubro de 2011

 

 

 

Uma convenção chamada Europa

 

 

A divisão do planeta em continentes é uma convenção – é como é, mas podia ser de muitas outras maneiras. A convenção chamada Europa, que encontramos pela primeira vez descrita na Ilíada de Homero (700 a, C.), tem passado por múltiplas vicissitudes.  Hoje esta convenção com três milénios – considerada geralmente como museu e biblioteca do mundo – assume-se como supermercado.  Vejamos alguns marcos desta evolução

 

A primeira grande potência continental, a  República romana (509 a. C.), foi substituída pelo Império que Octaviano estabeleceu no século I. No século IV o cristianismo até então considerado subversivo, foi adoptado pelo poder imperial. As invasões dos bárbaros, as pestes, impuseram a divisão do Império. A concepção feudal impôs uma chefia de proximidade. A invasão muçulmana levou às Cruzadas. Em 1453 caiu Constantinopla. Os Descobrimentos promovidos pelos reinos hispânicos dilataram não o Mundo, como às vezes se diz, mas o conhecimento que dele tinham os europeus e, sobretudo, iniciaram um tempo em que o espírito mercantil levou a guerras religiosas, entre uma Igreja de Roma presa a dogmas anacrónicos que exaltavam a pobreza dos pobres, para melhor proteger a riqueza dos ricos, e um luteranismo pragmático que impunha a prosperidade como dever, mais consentânea com os interesses da burguesia nascente.

 

 Iluminismo, Revolução Industrial, exploração intensiva dos recursos dos novos continentes descobertos, incluindo a escravatura. A Revolução Americana inspirou a Francesa. E Napoleão sonhou impor a unidade continental. As mesmas leis, o mesmo sistema judicial, moeda única, pesos e medidas iguais… Mas as nacionalidades resistiram e reforçaram-se.  O Império caiu. A Itália e a Alemanha unificaram-se. A Alemanha, imbuída do espírito prussiano, surgiu com ânsias de hegemonização e provocou duas guerras. No rescaldo da mais recente, entre túmulos e ruínas,  voltou-se ao projecto da Europa unida. Cá temos a UE. Os países mais ricos viram a Europa unida como um mercado alargado onde podem vender os seus produtos, os mais pobres ao aderirem viram a Europa como uma vaca a mungir.

 

Na reunião de ontem em Bruxelas os chefes de Estado e Governo dos 17 países da União Europeia, tomaram medida que tentam salvar, no imediato, a UE. O acordo perdoa à Grécia 100 mil milhões de euros. Foi decidido aumentar a capacidade do fundo europeu para um milhão de milhões de euros… Medidas de emergência para evitar a derrocada.

 

Esta convenção chamada Europa, três milénios depois de ter sido criada, luta pela sobrevivência. A sobrevivência do supermercado, pois quem se interessa por bibliotecas e museus?

 

Solidariedade? – o que é isso?.

 

 

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