A língua mirandesa tem as mesmas características em todo o lado ou apresenta variedades? (O mínimo sobre a língua mirandesa – 9), por Amadeu Ferreira

 

 

 

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA

 

 

     por Amadeu Ferreira

 

 

(continuação) 

 

 

9. A língua mirandesa tem as mesmas características em todo o lado ou apresenta variedades?

 

 

Desde José leite de Vasconcellos têm sido distinguidas três variedades dentro do mirandês: o mirandês do norte ou raiano, que é falado em várias aldeias junto à fronteira (raia seca) com Espanha; o mirandês do sul ou sendinês, que é falado na vila de Sendim; o mirandês central que é falado nas restantes aldeias e que foi adoptado como padrão pela Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa. Assim, como qualquer língua, e apesar do seu reduzido número de falantes e da pequena área geográfica onde se fala, também o mirandês apresenta importante variação interna, elemento essencial da sua riqueza como língua. Aqui se deixam os mais marcantes traços distintivos de cada uma das variedades.

O mirandês central ou padrão

As principais características do mirandês central foram apresentadas no ponto anterior, ainda que de modo relativo. Quanto às restantes variedades a melhor maneira de as apresentar é dizer aquilo em que divergem face ao mirandês central. Convém prevenir que essas distinções não são absolutas, já que muitas aldeias onde predomina a variedade do mirandês central apresentam traços do mirandês raiano e do sendinês, e também existe uma grande proximidade entre vários fenómenos do mirandês raiano e do sendinês. Em geral, todas as variedades apresentam algum vocabulário diferenciado, várias formas gramaticais distintas, e também algumas regras sintácticas próprias.


Ainda no que respeita ao mirandês central, anotem-se dois fenómenos que serão relativamente recentes, que também se verificam no mirandês raiano e a que apenas o sendinês tem sido imune:


– a tendência, hoje quase generalizada, para substituir as formas do artigo definido masculino l, ls por al, als;


– a tendência quase generalizada para dizer como an / am  as sílabas en / em quando são intercaladas (ou não em início absoluto de palavra) átonas: antender > antander; tendência > tandéncia; centeno > çanteno

O sendinês ou mirandês do Sul

Das variedades do mirandês, a que apresenta diferenças mais sensíveis é o sendinês. Em termos de ortografia, a convenção seguida é a mesma, apenas se permitindo que os sendineses, se o desejarem, possam escrever com l- em início de palavra em vez de lh- (ex. luna / lhuna, para a palavra ‘lua’). Tal liberdade foi consagrada na 1ª Adenda à Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa, de Fevereiro de 2000.


Outras distinções a assinalar, além da sintaxe e do léxico, que apresentam diferenças muito significativas, são as seguintes:


i. – o tratamento de respeito é, no mirandês central e raiano, na 2ª pessoa do plural (Exemplo, Á tiu Antonho, bós stais an casa manhana a la purmanhana?), e é, no sendinês, na 3ª pessoa do singular (Á tiu Antonho, el stá an casa manhana a la purmanhana?);


ii. – os ditongos crescentes «ie» e «uo» não têm vigência em sendinês. Por isso, e como exemplo, as palavras castielho, tierra, ciento, miel, abierto; bien, niebe, siempre, fierro, diente, semiente, piedra lêem-se (sem reflexo na escrita) em sendinês castilho, tirra, cinto, mil, bin, nibe, simpre, firro, dinte, seminte, pidra. Também as palavras fuonte, buono, puonte, uolho, buolta, nuoç, puorta, nuobo, nuosso se devem ler an sendinês como funte, buno, punte, ulho, bulta, nuç, purta, nubo, nusso. Em qualquer caso, deve dizer-se que as vogais «i» e «u», nesses casos, se distinguem de modo muito particular, a assinalar características próprias;


iii. – o sendinês tem um sistema próprio de ditongos, correspondente às vogais «i» e «u» tónicas e que soam de modo difícil de representar, mas que se pode dizer que variam entre «ei/ai/uoi» (exemplos: bino, mil, çtino) e «iu/au» (exemplos: burra, mula) respectivamente; 


iv. – a queda do «g» depois de –i- tónico [ami(g)o, fi(g)o, tri(g)o], traço que também se verifica em Paradela (zona raiana) e, de modo menos regular, em outras aldeias como Constantim (zona raiana);


v. – a palatalização de «c» em –ico (ex. cachico) e de «g» em –ingo/inga (ex. demingo, spingarda), traço que também se apresenta em outras localidades, embora em algumas de modo menos regular;


vi. – o ditongo mirandês –on tem pronúncia similar ao português –ão (coraçon / coração);


vii. – apresenta significativas diferenças ao nível das formas de quase todos os pronomes (ex.: esto / aquesto, esso / aquesso, aqueilho; algue, nanhue) e forma também específicas em advérbios (ex.: antoce).

O mirandês raiano

O mirandês raiano apresenta uma grande proximidade do mirandês central, sendo as diferenças mais acentuadas numas aldeias que nas outras, pois uma das características dessa variedade é a sua falta de unidade de aldeia para aldeia. Podem, porém, apresentar-se as seguintes diferenças fundamentais, além de aspectos de léxico:


i. – o artigo definido masculino assume as formas lo, los em vez de l, ls, embora o uso esteja mais vulgarizado na forma do plural, usando-se no singular a forma al, com excepção de Constantim, no que é coincidente com a maioria das expressões do mirandês central;


ii. – o uso de algumas formas de conjunções e advérbios com características próprias, por ex. más em vez de mais, fenómeno que é extensivo a várias aldeias que integram o mirandês central.


Há outros fenómenos a referir, mas que apenas se verificam em algumas aldeias:


i. – queda do «g» intervocálico em termos idênticos ao verificado em Sendim, com particular destaque para Paradela;


ii. – o uso do plural feminino «-es» em vez de «-as», em São Martinho de Angueira;


iii. – o uso de algumas formas do pronome possessivo (esso/aquesso, esto/aquesto) tal como em Sendim;


iv. – sobretudo em Paradela, a palatalização de «c» em –ico (ex. cachico) e de «g» em –ingo/inga (ex. deimingo, spingarda), tal como no sendinês.

  

  

 

     (continua – 10. Como se dá a transição do mirandês de língua exclusivamente oral a língua também escrita?)

 

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