UM CAFÉ NA INTERNET – Cândida no Serviço Nacional de Saúde – Novas Viagens na Minha Terra– Segunda série Cap. 5 – por Manuela Degerine

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

Pensei em fazer queixa à Ordem dos Médicos todavia, após reflexão, pareceu-me que era tempo perdido. A médica do Centro de Saúde faz parte da Ordem dos Médicos… O médico que me atendeu no hospital faz parte da Ordem dos Médicos… A Ordem defende os privilégios deles e não os meus direitos.

 

Fiz no dia 18 de Março uma reclamação no Hospital de S. José. À qual me responderam a 5 de Julho. Numa linguagem burocrática:

 

Reconhecemos a pertinência da sua reclamação visto que, efectivamente, poderá ter sido penalizada na gestão do seu processo, considerando que as diligências e os procedimentos tomados foram menos céleres do que o desejável. Assim, quanto a esta questão por si colocada, e de forma pertinente, garantimos que os nossos Serviços irão rever as medidas a tomar nestas situações para prevenir que casos como o seu não se repitam. xxx Quanto à questão da realização de exames, segundo relatório do Responsável do Serviço de Urgência, os Meios Complementares de Diagnóstico tanto para a Doença de Lyme como para a escaro-medular são exames neurológicos demorados e como tal não se colocam na Urgência mas sim em consulta.

 

Parece-me que mal vai a Saúde enquanto o atendimento no serviço de urgência do hospital for denominado “a gestão do seu processo”. Foi aliás o que senti: eu corria um risco de morte ou deficiência grave mas, tanto no Centro de Saúde como no hospital, tratava-se de gerir um processo. Geriram-no muito mal. Não por falta de meios mas de competência. E, sobretudo: por falta de respeito pela vida do paciente. Se a filha de algum daqueles médicos for mordida por uma carraça, duvido que se limitem a medir-lhe a temperatura durante quinze dias. Por outro lado, “a gestão do meu processo” não foi “menos célere do que o desejável” mas simplesmente: não fui tratada. Nem no hospital nem no Centro de Saúde. Se não tivesse recorrido a um laboratório e a uma instituição privada, andaria agora pelos hospitais, no melhor dos casos, numa cadeira de rodas.

 

Outro pormenor curioso é a desculpa de não fazerem análises da doença de Lyme na Urgência do hospital. São incapazes de encaminhar os doentes? Para mim era igual fazê-la aqui ou ali. xxx Quais as conclusões de toda esta peripécia?

 

 1. Desperdício de tempo: fui duas vezes à Urgência de S. José, quatro vezes ao Centro de Saúde; e passaram-se vinte arriscados dias durante os quais a bactéria se poderia ter espalhado pelo corpo.

 

 2. Desperdício de meios: uma médica incompetente no Centro de Saúde, que abusa do poder que a instituição lhe atribui e não serve para nada, excepto para agredir os pacientes; dois médicos no hospital, mal formados, incapazes de reagirem de maneira adequada perante uma urgência; uma análise feita no hospital para nada; e uma receita que, para além dos custos, caso fosse aviada, seria nociva. Por outro lado, depois de descontar para a Segurança Social, eu tive que voltar a pagar na medicina privada.

 

O maior problema é que, em Portugal, quem decide não recorre ao SNS quando está doente: vai para hospitais privados onde o médico que me atendeu no serviço de urgência e a médica do Centro de Saúde não têm evidentemente lugar. Por outras palavras: o SNS projecta quem tem meios económicos para o negócio fabuloso da saúde. Eis a questão… Há demasiada gente em Portugal a tirar proveito da rigidez e ineficácia do SNS; e, quanto mais pobre e mais assustador ele se tornar – mais eles ganham. Entretanto o SNS vai também servindo para formar, à custa do contribuinte, os futuros profissionais competentes dos hospitais privados e, claro, para absorver os incompetentes residuais… O povo que pague e aguente.

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