O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 20 – por Raúl Iturra

 

 

 

Freud recorre aos textos sagrados da sua religião, mas apenas à letra e não à essência do sentido de fé que tinha adquirido na sua infância, como Durkheim e Mauss. Como muitos dos sábios, Freud no seu texto Ensaios de Psicologia Colectiva[1], interpreta a religião como um fenómeno de neurose social. O que é o histerismo num indivíduo é a religião numa sociedade. Uma alucinação, uma perturbação de carácter obsessivo. Na religião, Freud só descobre o obscurantismo, a superstição, a tirania inquisitória, o dogmatismo, o mandamento reaccionário, a “ilusão” filosófica. O que mais tarde Marx, na época da sua juventude e rebelião contra o seu professor Friedrich Hegel, na Critica da Filosofia do Direito de Hegel, diz a religião é o ópio do povo[2].

 

Nos escritos de Freud, o Talmude é a base da sua interpretação dos sonhos[3]. Mas não só, como o professor David Bakan, da Universidade de Chicago, ele próprio judeu, pretende provar que, em muitas das suas doutrinas fundamentais, Freud inspirou – se na tradição mística do seu povo. Especialmente, naquela que seguiu a Kabalá[4] e é esse tema da dialéctica de Freud com a religião que passamos agora a abordar.

Além da Kabalá, poder-se-ia também mencionar o movimento do Hasidismo[5], seita pietista e entusiástica que se desenvolveu entre judeus polacos e silesianos, no século XVIII, com seguidores ainda hoje espalhados por Jerusalém, Nova York e S. Paulo. Distinguem-se pela maneira especial com que se vestem, sempre de preto e um estranho chapéu na cabeça, alimentam fortes tendências kabalísticas e sofrem uma indiscutível influência original do Gnosticismo hebraico. Freud teria herdado da própria família essas tendências hasídicas[6].


 

[1] Traduzidos do francês como: Essais de psychanalyse appliquée, incluem textos como: Le Moïse de Michel-Ange (1914) ; La psychanalyse et l’établissement des faits en matière judiciaire par une méthode diagnostique (1906) ; Des sens opposés dans les mots primitifs (1910) ; La création littéraire et le rêve éveillé (1908) ; Parallèles mythologiques à une représentation obsessionnelle plastique (1916) ; Le thème des trois coffrets (1913) ; Quelques types de caractère dégagés par la psychanalyse (1915-1916) ; Une difficulté de la psychanalyse (1917) ; Un souvenir d’enfance dans Fiction et Vérité de Goethe (1917) ; L’inquiétante étrangeté (Das Unheimliche) (1919) e  Une névrose démonique au XVIIe siècle (1923). Textos acessíveis, em :  http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html.

[2] Marx, Karl, Engels, Friedrich, 1848: Manifesto comunista, em linha: http://www.culturabrasil.pro.br/manifestocomunista.htm. Em formato de papel: 1997, editado pela Oxford University Press, Reino Unido, páginas 221 a 247,  Karl Marx: Selected Writings, editado por David McLellan, texto em minha posse que sempre uso para este tipo de trabalhos. Ao falar extensamente sobre religião, filosofia e lei, os autores dizem: Quando se fala de ideias que revolucionam uma sociedade inteira, isto quer dizer que, no seio da velha sociedade, formaram-se os elementos de uma nova sociedade e que a dissolução das velhas ideias marcha junto à dissolução das antigas condições de vida.

Quando o mundo antigo declinava, as velhas religiões foram vencidas pela religião cristã; quando, no século XVIII, as ideias cristãs cederam lugar às ideias racionalistas, a sociedade feudal travava a batalha decisiva contra a burguesia então revolucionária. As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento.

Sem dúvida, dir-se-á, as ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas etc., modificaram-se no curso do desenvolvimento histórico, mas a religião, a moral, a filosofia, a política e o direito mantiveram-se sempre através dessas transformações. Além disso, há verdades eternas, como a liberdade, a justiça etc., que são comuns a todos os regimes sociais. Mas o comunismo quer abolir estas verdades eternas, quer abolir a religião e a moral, em lugar de lhes dar uma nova forma e isso contradiz todo o desenvolvimento histórico anterior. A que se reduz esta acusação? A história de toda a sociedade até aos nossos dias consiste no desenvolvimento dos antagonismos de classes, antagonismos que se têm revestido de formas diferentes nas diferentes épocas. Em 1844, ao criticar a Filosofia do Direito de Hegel, que era um homem religioso e tinha feito dos denominados jovens hegelianos homens religiosos também, ao mudar o sentido da História, Marx mudou também e na Introdução do seu texto sobre Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, afirma: O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo a expressão de um sofrimento real e um protesto contra esse sofrimento real. A religião é o suspiro do oprimido, o coração de um mundo sem coração, o espírito de condições sem espírito. É o ópio do povo. Retirado do texto em linha: http://www.bopsecrets.org/CF/marx-hegel.htm. O texto é de Marx, mas as palavras seguintes são minhas: esta foi a forma de se afastar do sentimento de fé, como Freud e Durkheim. No entanto, quatro anos mais tarde, essa rebelião juvenil passa a ser serenidade para analisar a história e usa os textos sagrados e da História, para escrever quer o Manifesto, quer A ideologia Alemã, ou ainda a Critica da Economia Política ou Grundrisse de 1857-8, publicado postumamente em 1941, são as manifestações de querer remodelar o mundo. Como Freud e a sua pesquisa sobre o inconsciente ou Durkheim e os seus texto sobre o Socialismo e a sua história e desenvolvimento. A formação religiosa foi a base para descobertas racionais. Sem essas leituras, não teríamos mais conhecimento e mais sabedoria hoje em dia. Weber foi mais calmo: estudou católicos e protestantes, afastado de qualquer formação religiosa.

[3] “É tanta coisa que o Talmude fala sobre os sonhos e suas interpretações que  vamos citar só a fonte e dar alguns exemplos:  Tratado de Brachót (bençãos), capítulo 9,  segmento “HAROÊ“. O motivo dos sonhos estarem neste tratado é que certos sonhos demanda a recitação de uma brachá logo ao despertar e o Talmude descreve ou discute que brachá deve ser recitada.   Diz o Talmude, as Brachót (bênçãos) existem porque tudo o que acontece no plano material tem uma origem espiritual. Assim, quando fazemos a brachá antes de comer uma fruta revelam a Divindade nela contida e somos recompensados por Hashem, por tê-lo feito.   É por causa das brachot (bençãos) que devemos pronunciar após alguns sonhos que estes aparecem no tratado Talmudico que reza também sobre os sonhos. O texto continua, com o título de: Os sonhos no Talmude ou de onde Freud tirou essa ideia, em: http://www.tropicasher.com.br/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=92:cronica-sonhos&catid=50:cat-cronica&Itemid=75.

 

[4] Kabalá é a expressão da Torá das maneiras de como o mundo trabalha. A maioria das pessoas já ouviu uma ou outra coisa sobre a Kabalá. www.aishbrasil.com.br/new/artigo_kabala.asp.

 

[5] Hasidismo está definido no texto central, retirado da conferência FREUD, “A KABALÁ E A MORTE DE DEUS”, publicada na Carta Mensal do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio – Edição Maio 2003 – Número578 – Volume 49.

 

[6] Esta parte do texto, sem comentários, está retirada, em parte da conferência acima citada: “A Kabalá é uma escola medieval do mais alto interesse, uma vez que configura a irrupção de correntes afectivas profundas, longamente recalcadas e sufocadas na fé essencialmente intelectualizada, legalista e moralista que é o Judaísmo da Diáspora – opondo-se assim ao racionalismo cerebral dos rabinos talmudistas com um apelo directo ao coração dos fiéis. Na visão mística do Merkabah – O “Trono de Deus” – a revelação penetra como uma luz ofuscante no âmago da emanação extravagante e especulativa do verdadeiro agraciado. É misticismo puro, é coração exaltado, paixão divina, transcendência. A doutrina hermética representaria uma contaminação da estrita obediência mosaica, legalista e ética, por uma corrente subterrânea de erotismo metafísico – movimento orientalizante em muitos pontos paralelo ao ocorrido no seio do próprio Cristianismo, como em São Francisco de Assis por exemplo, e revelando uma fonte comum, iraniana e helenística. Numa carta a Jung datada de 1909, Freud confirma “a natureza especificamente judaica de meu misticismo” Acrescenta Bakan estas ideias: a forma de interpretação adoptada por Freud segue linhas paralelas às directrizes tradicionais da literatura rabínica no Talmud e no corpus kabalístico, tal como figura no Zohar. A descodificação ou desconstrução de um texto criptográfico pelo método psicanalítico é do mesmo tipo do que a praticada pelos velhos rabinos ao analisarem, detalhe por detalhe e com a paciência de Job, as peripécias de um sonho. O próprio Freud faz referência a um texto de Salomão Jacob Almoli, Pitron Chalomot, de 1515, que versa o mistério dos sonhos e é típico da literatura rabínica medieval. No tratado Berakoth, já o simbolismo sexual é amplamente utilizado como método interpretativo. Se um homem sonha que está entornando azeite em cima de azeitonas, confessa que ultrajou a Mãe. Se sonha que um olho está beijando o outro olho, é porque ultrajou a irmã. No Berakoth, acentua Balkan, estão presentes a natureza profética dos sonhos, o carácter dos sonhos como satisfação compensatória de desejos e os jogos de palavras com trocadilhos maliciosos de secreto significado sexual, envolvendo um conflito entre “o bem” e “o mal”. Finalmente, indica claramente que a imagem sexual do coito simboliza o conhecimento: “conhecer” uma mulher é com ela ter relações amorosas.

Contraditoriamente, manter relações sexuais significa adquirir conhecimento. O simbolismo sexual representa uma tentativa dos Kabalistas para descrever a reunificação dos sefiroth, as “numerações” ou emanações da divindade cuja ruptura – representada por uma quebra dos vasos da harmonia original – explica o carácter imperfeito, sofredor e perverso da realidade mundana”.

Texto completo em:

 http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=1&ct=result&cd=1&q=Freud+,+a+Cabal%C3%A1+e+a+Morte+de+Deus&spell=1.

 

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