De Espanha não vem bom vento nem bom casamento. Pela mão de socialistas em Espanha, de uns outros istas de quadrante oposto em Portugal, eis pois o que, pelos vistos e na linha do actual executivo, nos espera em Portugal se assim os deixarmos andar a tudo poderem estragar.
Júlio Marques Mota,
Em Espanha, a grande miséria avança e em grandes passos
Sandrine Morel
Mãe de 56 anos, vive com dois dos seus filhos e com os seus dois netos de 7 e 3 anos. Os filhos estão no desemprego e já sem direito a prestações sociais. A mãe recebe uma ajuda de 426 euros que acabará a 24 de Novembro de 2011. A renda da sua casa é de 276 euros. Processo 125“. Algumas linhas para assim resumir a difícil situação de uma família. Um número de referência para pedir ajuda.
Em Valença, a associação Nuestra señora de los desemparados lançou este ano um novo programa de luta contra a miséria: “Apadrinhe uma família”. Sobre o seu sítio Internet, sucedem-se as dezenas “de processos”. Um número de conta bancária convida os visitantes a entregarem um donativo . E algumas frases detalham situações de uma muito grande aflição.
Como a desta “mãe divorciada com quatro filhos de 16, 11, 4 e 3 anos, que trabalha como mulher a dias numa empresa e com um salário de 434 euros e paga um aluguer de 410 euros.” Como a deste jovem estudante de 25 anos, afastado dos seus pais, que ganha 250 euros fazendo de empregado doméstico em casas particulares, mas metade vai imediatamente para a renda de casa, de quarto. Como a desta mulher de 74 anos, recebendo 340 euros de reforma e vive com o seu filho de 50 anos, doente que pede simplesmente que lhe arranjem a sua máquina de lavar roupa. Ou ainda como a desta família com um filho, cujo apartamento foi retomado pelo banco e em que o marido esgotou os seus direitos ao subsídio de desemprego e recebe uma ajuda de 426 euros. A sua esposa, mulher a dias em situação de atestado médico por doença, não tem direito a nenhuma indemnização.
A Espanha não vê a luz ao fim do túnel. A crise arrasta-se e o número de desempregados em fim de direito de subsídio de desemprego não para de aumentar : serão quase dois milhões em cerca de 4,8 milhões de desempregados espanhóis (21% da população activa) a não receber nenhuma prestação social. Quase 1,4 milhão de lares terão todos os seus membros no desemprego. E de acordo com as associações de direito ao alojamento, 300.000 famílias foram expulsas de casa pelos bancos porque deixaram de pagar as suas prestações desde há três anos.
A 13 de Outubro, a associação caritativa Caritas, dependente da igreja católica, tocou o sinal de alarme, anunciando aquando da apresentação do seu relatório de 2010 que a pobreza em Espanha “ está a estabilizar-se e a tornar-se crónica”. O número de pessoas que têm recorrido aos seus serviços “de acolhimento e de assistência primária”, em que estes serviços resolvem as questões básicas e urgentes como a da alimentação, passou de 400.000 em 2007 para 950.000 em 2010. Ora, apenas 30% destas pessoas pediam ajuda pela primeira vez. Os 70% restantes correspondem “à pessoas cuja situação se agravou por falta de solução”, sublinhou o secretário geral da organização Sébastien Mora. Destes, três quartos são casais de idade entre os 20 e os 40 anos com várias crianças de tenra idade . E pela primeira vez, estas são sobretudo de nacionalidade espanhola.
A solidariedade familiar tradicional dos países mediterrânicos, que durante muito tempo tem permitido poupar as pessoas à situação de miséria e de exclusão social, parece que já deixou de ser suficiente. “ Em cada ano que passa, há cada vez mais pessoas que têm necessidade de uma ajuda de emergência e a rede de protecção social pública, que era fraca, diminui e está sujeita a uma forte degradação”, afirma o director de Caritas, Mora.
Plano de austeridade obriga, as ajudas nacionais destinadas aos desempregados em fim de direito, limitados a uma duração de seis meses, são à medida que a crise se prolonga cada vez mais restritivas. Quanto às regiões autónomas espanholas, obrigadas a reduzirem os seus défices monstruosos, cortam nos orçamentos sociais. As ajudas ao alojamento, às famílias numerosas, às pessoas dependentes ou sem rendimento encontram-se, por exemplo, actualmente na berlinda na Catalunha.
O Instituto nacional de estatísticas espanhol, o INE, que tornou público na semana passada as conclusões do inquérito sobre as condições de vida em 2011 chega à mesma constatação: a miséria aumenta a grandes passos em Espanha.
Quase 22% dos lares espanhóis estarão actualmente a viverem sob o limiar de pobreza, fixado em 7.500 euros anuais para uma pessoa sozinha ou de 13.500 para um casal com uma criança. Em 2010, eram 20,7% e 19,5% em 2009. O aumento do desemprego é a principal causa. “Um sinal da gravidade da situação é que há cada vez mais jovens, formados e qualificados, a deixarem a Espanha para procurarem trabalho noutros lugares”, sublinha Florentino Felgueroso, director da disciplina de Capital humano na Fundação de Estudos de Economia Aplicada (Fedea). A Espanha voltará ser um país de emigração como há quarenta anos? De acordo com os estudos do INE é uma possibilidade se a situação se continuar a degradar.
Os rendimentos médios das famílias espanholas reduziram-se em cerca de 4,4% num ano, sendo agora menos de 25.000 euros anuais por lar e de 9.400 euros anuais por pessoa. Uma família em cada três não tem os meios para enfrentar despesas imprevistas e 40% não têm os meios para poderem gozar uma semana de férias fora do seu domicílio. Mais alarmante ainda, um recente relatório da UNICEF sublinha que 15% das crianças de origem estrangeira vivem em condições de grave pobreza e que cerca de 6% sofre habitualmente de fome.
Actualmente, a Espanha conhece poucas tensões sociais apesar da amplitude da crise. Não há greve geral. Não há violência e não há delinquência de massas. Só os simpáticos “indignados”, pacifistas e utópicos, denunciam as dificuldades da sociedade, gentilmente, aquando das suas assembleias populares… Mas até quando?
Sandrine Morel, En Espagne, la grande misère avance à grands pas, Le Monde, 24 de Outubro de 2011.
