António Botto no Brasil – 5, de António Augusto Sales

 

 

 

A vida brasileira de António Botto é pouco conhecida. Melhor dizendo, era praticamente desconhecida até à colocação do seu espólio à consulta pública na Biblioteca Nacional de Lisboa, no final dos anos noventa. A partir de São Paulo perdia-se bastante o rasto tanto pessoal como intelectual. Sabia-se, e confirma-se, que não foi fácil e algumas vezes recorreu a amigos para a sua subsistência. A Beatriz Costa, o doutor Neves Fontoura, o advogado Paulo da Cunha Rabello e outros auxiliaram com empréstimos que Botto nem sempre pagava porque entendia ser uma distinção. No dizer de Beatriz Costa, «Botto era um homem estranho. Achava que o que ele pedia era dar-nos uma honra, não nos ficava a dever nada». Este espírito de príncipe associado a uma postura com tanto de generosa como mexeriqueira, permitiu que se afirmasse sobre o seu carácter e temperamento as maiores barbaridades criando a imagem de um indivíduo incapaz de um relacionamento saudável com os outros, estigma que perdura sobre a vida brasileira do poeta mesmo desconhecendo-se os pormenores. Hoje, felizmente, podemos reconstituir muitos dos seus amargos passos a partir de São Paulo.

 

No seu regresso ao Rio de Janeiro, em 1951, onde em Julho vamos encontrá-lo com Carminda hospedados no Hotel Atalaia, na Avenida de Copacabana, nº 256, ocupando o quarto 45 e depois o 54, procura refazer a vida retomando contactos e colaborações jornalísticas, lançando mão de diversos trabalhos de desenho para construções a coberto da sua auto designada condição de engenheiro-arquitecto que lhe confere a autoria de uma moradia do tipo “casa popular”, para “madame” Lucy Teixeira da Silva Schopke, conforme escreve aquele que deduzi ser o empreiteiro da obra, Isaías João Costa, quando assina um vale de 4.000 cruzeiros «por conta do encontro nos lucros de 50%».

 

 

Efectivamente, o desenho foi uma das faculdades que desenvolveu permitindo-lhe a realização de exposições e a realização de projectos de moradias e outros. Vendo bem, acabou por ser o desenho que esteve na origem de uma mudança profunda na sua vida. Será aquela profissão “desencartada” (engenheiro-arquitecto), e não a de poeta “encartado”, a determinar uma viragem inesperada ao ser contratado, com documento assinado e reconhecido no tabelião, para trabalhar em Niterói como supervisor de construções da Companhia Territorial Itaipu. No final de 1951, ou logo no início de 1952, assenta residência naquela cidade que lhe reservava um período agitado, ou seja, o verdadeiro começo infeliz da experiência brasileira.

 

O novo estatuto profissional não impede a actividade literária. Logo que chega a Niteroi trata de se apresentar nos jornais da cidade, em visitas de cumprimentos, acompanhado por dois influentes amigos e pela sua fidelíssima mulher que o segue para todo o lado sem que isso o incomode. Assim, passa a garantir colaboração efectiva e remunerada na imprensa a par das récitas, sessões de autógrafos e conferências sobre escritores, ou a organização de um festival de poesia no Teatro Municipal João Caetano.

 

Deve ter começado por se instalar no Hotel Imperial, na rua Visconde de Rio Branco nº 535, apartamentos 167 e 168, pelo que tudo indicava que teria conseguido estabilizar a sua vida não fosse inesperado conflito com a Companhia Itaipu que despede António Botto antes do contrato terminar, sem justa causa e com ordenados em atraso, segundo o processo que o poeta coloca em tribunal pedindo uma indemnização. A “reclamada” alegou que o “reclamante” nunca fora seu empregado e muito menos engenheiro-arquitecto como se intitulou e consta da acta de audiência. O juiz entendeu, de facto, improcedente a reclamação de António Tomaz Botto mas tal não foi a posição dos vogais cuja opinião contrária prevaleceu em favor do “reclamante” pelo que Botto acabou por receber uma indemnização de 27.700 cruzeiros (Deliberação da 2ª Junta de Conciliação e Julgamento de Niterói, de 01.06.1953). Durante o tempo em que decorreu o processo a empresa não lhe pagou ordenados e o Hotel Imperial, que facturava à quinzena, acabou por cortar ao casal Botto a alimentação. Tem uma dívida, diz a gerência. Mentira, proclama o poeta, e mete advogado enquanto se recolhe temporariamente a um quarto que lhe custa 1.500 cruzeiros, esperando a indemnização a fim de passar a residir, num outro hotel, na rua Paulo Alves, poiso ruidoso, agitado, barulhento, que lhe dá cabo dos nervos. Os seus protestos dão origem a situações irritantes tornando-lhe os dias insuportáveis. Não perde pela demora em encontrar nova residência na casa três de Vila Violeta, por 1800 cruzeiros, uma casa térrea, isto é, de um só piso, com três cómodos, enfim «um palácio», no seu dizer, situado na mesma Rua Visconde do Rio Branco, no nº 505, a do tal Hotel Imperial onde deixara dívida.

 

A casa encontrada em Vila Violeta, provavelmente zona constituída por um conjunto de construções e assim chamada, foi motivo de alegria para o casal há muito a viver de saltimbanco por hotéis e pensões. Botto entusiasmou-se nesse Agosto de 1953 e comprou duas camas, dois colchões, travesseiros, mesa, cadeiras, tudo por 650 cruzeiros, de forma a preencher com um mínimo o seu espaço, cuja paz o Hotel Imperial não poupará numa perseguição feroz, fazendo constar que o casal é mau pagador. Vila Violeta era, à partida, motivo de satisfação mas acabaria por se tornar num pesadelo com contornos discriminatórios.

 

Literariamente António Botto não atravessa um período fecundo embora mantenha colaboração jornalística nos principais diários de Niteroi e organize os seus recitais. Continua a escrever artigos e poemas que envia para Lisboa, nomeadamente O Primeiro de Janeiro e Diário Popular, e a “montar” antologias de trabalhos seus como as Histórias do Arco-da-velha, contos infantis. Talvez tenha sido nesta cidade que desenvolveu a adaptação de vários autos de Gil Vicente, iniciada em São Paulo, «à linguagem moderna que eu mesmo inventei» (sic), conforme desvenda ao jornalista José Alberto Teixeira Leite numa importante entrevista publicada pela Revista da Semana e que terá aqui referência destacada. Mas o que era essa linguagem moderna “inventada” pelo autor de Alfama? A Farsa dos Físicos passou a ser a Farsa dos Médicos, dando-se ao luxo de suprimir «algumas passagens que julguei indignas do talento de Gil Vicente, por minha conta e risco. Sei, porém, que o próprio Gil não se incomodaria». Assim, tu cá tu lá, como se falasse de um velho companheiro.

 

Este delírio em vez de me revoltar provoca-me uma certa ternura na medida em que dizias estas barbaridades com o ar mais natural e compenetrado deste mundo. Sim, porque não te referes a um auto, já agora do nosso Gil, mas a diferentes autos e estudos críticos classificados no espólio em 293 folhas (Gil Vicente e António Botto, conjunto composto por diversos autos de Gil Vicente e estudos críticos – 1950 – BNL, espólio de A.B.).

 

Em Lisboa havias dado largas provas dessa megalomania que chegou a levar-te a ser observado pelo Prof. António Flores. Porém outras coisas, concretas e reais, justificavam as consultas, sejam as frequentes dores nos ouvidos e na garganta que no Brasil iriam agravar-se. Uns diziam então que terias uma paralisia facial e outros a sífilis. Não ligaste, um facto, porém, tornava-se indiscutível, a megalomania não podia ser atribuída a qualquer daquelas doenças. A megalomania era tua, nascera contigo e o resultado eram histórias pitorescas de iniciativas literárias como a de Gil Vicente. Supostamente enganava o tempo, mas será impróprio dizer que António Botto não escrevia, pelo contrário, passando pela poesia, artigos, contos, conferências, opiniões pessoais, um conjunto de apontamentos a que chamou diário, representam um material inédito como, por exemplo, 65 folhas dactilografadas de um livro intitulado Amor e Poesia.

 

 

(Continua)

 

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Hoje, vamos ouvir Carlos Mendes cantar “Não me Peças”, poema de António Botto musicado pelo cantor:

 

 

 

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