EM PORTUGAL – O PÃO POR DEUS por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 Pois, pelas nossas terras, o uso era, e ainda é, o Pão por Deus. No dia 1 de Novembro, dia de Todos-os-Santos. Feriado, benza-o Deus! Fazendo a ponte para o momento actual, diziam-me num email que Devemos manter-nos inflexíveis na defesa do 1 de Novembro, pois é o dia dos defuntos, tristeza e choro!!!nos devemos manter inflexíveis nesta comemoração (sendo que o primeiro feriado a ser anulado seria o 25 de Dezembro, pois sem o respectivo subsídio não faria sentido comemora-lo, a seguir o 1º de Maio pois a maior parte dos portugueses estaria desempregrada, assim como o 10 de Junho, pois quem manda aqui é a troika…).

 Mas continuando: tal como noutros países as crianças saiem à rua e pedem o Pão por Deus. Ou não fossemos nós um país em que a caridade é tão bem vista. Recitam-se versos e recebem como oferendas coisas mais prosaicas, o que há pelas aldeias e vilas: pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas e castanhas que colocal dentros dos seus sacos de pano  de retalhos ou de borlas. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’. São vários os versos para pedir o pão por deus:

 

Ao pedir o “Pão por Deus”, cantam-se as seguintes cantilenas enquanto se anda de porta em porta:

“Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.”

 

“Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu’estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz

Quando os donos da casa dão alguma coisa:

“Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho.”

 

Quando os donos da casa não dão nada:

“Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto.”

 

 Dizem-nos alguns historiadores que este hábito está relacionado com o dia 1 de Novembro de 1755, aquando do terramoto de Lisboa, em que as pessoas que viram todos os seus bens serem destruidos na catástrofe, tiveram que pedir “pão-por-deus” nas localidades que não tinham sofrido danos.

A carita da minha filha, menina de Lisboa,  que calhou ir passar um fim de semana à Lourinhã com uma colega da escola, coincidindo com este dia, acho que era igual à destes meninos. A liberdade que sentiu em poder andar pelas ruas em tais actos foi uma experiência que ainda hoje recorda. Sei que hoje nas grandes cidades é impensável os pais permitirem aos filhos estas andanças, sei que também nem seriam bem recebidos e viriam de mãos vazias. Mas congratulo-me com o facto de ainda se praticar noutras localidades.

  

 

 

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